Da pipoca das Kardashians à coca diet proteica: O que penso como nutri sobre o hype da proteína

Nos últimos meses, a proteína virou protagonista. Está na pipoca lançada por celebridades como Khloé Kardashian, no mingau promovido por atores de Hollywood, nas barras, nos pães, nos iogurtes, nas sobremesas fitness, e até na inusitada coca diet proteica que viraliza nas redes. A mensagem implícita parece simples: quanto mais proteína, melhor o corpo. Mas, não é tão simples assim.
Como nutricionista especialista em saúde da mulher, vejo dois movimentos acontecendo. De um lado, a valorização de um nutriente essencial. De outro, um marketing agressivo que transforma proteína em selo automático de saúde.
A proteína é fundamental. Ela participa da formação de músculos, tecidos, enzimas, hormônios e anticorpos. É especialmente importante em fases como adolescência, gestação, pós-parto e menopausa, momentos em que o corpo feminino passa por intensas mudanças hormonais e estruturais.
Mas, existe um ponto central que precisa ser entendido. Mais proteína não significa automaticamente mais músculo ou mais saúde.
O corpo tem um limite de aproveitamento por refeição, em torno de 25 a 30 gramas. O excedente não vira músculo extra por garantia. Ele pode ser utilizado como energia ou, dependendo do contexto metabólico, ser armazenado.
Além disso, ganho de massa muscular depende de estímulo adequado, treino de força, sono, equilíbrio hormonal e ingestão calórica total, e não apenas de proteína isolada.
Para a maioria das mulheres, a recomendação média gira em torno de 0,8 a 1,2 g por quilo de peso por dia, podendo ser maior em casos específicos, como prática intensa de musculação, envelhecimento ou estratégias de emagrecimento com preservação de massa magra. Não é uma regra universal, é individualização.
Outro ponto importante é que a proteína não anula o fato de um alimento ser ultraprocessado. Hoje vemos mousses, granolas, panquecas e até pizzas high protein.
Para receber essa alegação, basta que 12% a 20% do valor energético venha da proteína. Isso não transforma automaticamente o produto em saudável. Muitas dessas opções carregam gordura saturada, aditivos e baixo teor de fibras. O rótulo proteico cria uma aura de saúde que nem sempre corresponde à qualidade nutricional real.
Quando comparo uma barrinha proteica com dois ovos, por exemplo, temos quantidades semelhantes de proteína. Mas, o ovo entrega colina, vitaminas, minerais e um perfil alimentar muito mais completo. Comida de verdade vem acompanhada de matriz nutricional. Suplementos e produtos fortificados entregam, na maioria das vezes, apenas o nutriente isolado.
Na saúde da mulher, o equilíbrio é ainda mais estratégico. Excesso proteico sem avaliação pode sobrecarregar rins em quem já tem predisposição a doenças renais. Exames simples como creatinina e urina ajudam a monitorar.
Por outro lado, proteína bem distribuída ao longo do dia melhora saciedade, auxilia na estabilidade glicêmica e preserva massa magra. Fatores essenciais para quem convive com SOP, resistência à insulina, endometriose ou está no climatério.
Então, vale a pena consumir produtos com apelo proteico?
Pode valer se a base alimentar já for composta majoritariamente por alimentos naturais e se houver necessidade específica de complemento. Mas, transformar todo lanche em produto proteico não é sinônimo de saúde.
Proteína é importante. Mas, saúde feminina se constrói com comida de verdade, variedade, estratégia e equilíbrio, e não com modismos embalados em marketing.
Entre a pipoca das Kardashians e o arroz com feijão, eu continuo escolhendo o prato simples, equilibrado e coerente.








