Pais não são amigos: entre acolher e permitir
Eu, Dani e nosso grupo de amigas de infância estávamos tomando café e conversando sobre as festas que as nossas crianças (vulgo adolescentes) estão querendo frequentar. Festas que oferecem open bar com bebidas alcoólicas e que exigem que os convidados sejam maiores de 18 anos. Acontece que esses eventos se tornaram extremamente populares entre estudantes do ensino médio, na sua maioria jovens entre 15 e 17 anos. Ou seja: quase todos apresentam documentos falsos. E aí?
Ser mãe de adolescentes hoje é viver diariamente no meio de dilemas modernos. Alguns deles são desconfortáveis e, cada vez mais, normalizados socialmente — como este exemplo que citei.
Algo que me inquieta é quando nós, pais e mães, começamos a flexibilizar aquilo que sabemos que ainda não deveria acontecer. Talvez na tentativa de “controlar o risco”, acabamos relaxando os limites.
“Melhor beber em casa do que na rua.”
“Pelo menos comigo eu consigo controlar.”
“Todo mundo faz.”
“É melhor eu saber do que ele esconder.”
Confesso que entendo o raciocínio por trás dessas frases e me solidarizo com quem pensa assim. Elas nascem do medo do perigo, da exclusão social, dos excessos, da distância entre pais e filhos. Mas será que, na tentativa de proteger, não estamos confundindo proteção com autorização?
Não quero trazer moralismo para essa reflexão, mas também não podemos relativizar o papel dos pais na educação.
Eu acredito profundamente que pais não são amigos. Pais são pais.
E isso não significa ausência de diálogo, acolhimento ou escuta. Muito pelo contrário. Significa compreender que nossa principal função não é sermos aprovados pelos filhos, mas ajudá-los a construir discernimento, limites internos e responsabilidade.
Na hora do “não”, eles podem reagir com resistência, mas é justamente aí que valores importantes começam a ser construídos. O desconforto do limite hoje também participa da formação emocional deles amanhã. Muitos de nós fomos educados em modelos mais firmes, com limites mais claros, e isso não destruiu os vínculos afetivos com nossos pais.
Sob a minha supervisão, meus filhos não devem fazer aquilo que ainda é proibido para a idade deles. Não porque eu viva numa fantasia de controle absoluto. Nem porque eu ache que jovens não vão transgredir. Eles vão, porque transgredir faz parte do desenvolvimento humano e da experiência de vida. Aprendemos por meio das experiências — e também das consequências.
É importante lembrarmos sempre que existe uma diferença entre o adolescente fazer escondido e fazer autorizado.
Quando ele esconde, existe um limite interno funcionando. Existe a percepção de que aquilo ainda não é adequado, permitido ou seguro. Existe um conflito — e isso, na adolescência, faz parte do processo de aprendizagem.
Agora, quando o adulto autoriza, a mensagem muda completamente. Eles entendem:
“Então eu posso.”
“Isso já é aceitável.”
“Minha maturidade dá conta disso.”
A neurociência mostra que o cérebro do adolescente ainda está em formação, especialmente a região chamada córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos, avaliação de risco, planejamento e tomada de decisão. Enquanto essa área ainda amadurece — processo que pode ir até cerca dos 24 anos — o sistema emocional e de recompensa funciona em potência máxima.
Ou seja: o adolescente sente intensamente, busca novidade, aprovação social e prazer imediato, mas ainda não possui plena capacidade de prever consequências de forma consistente.
Isso explica por que jovens inteligentes, bem criados e conscientes ainda podem fazer escolhas extremamente impulsivas em determinados contextos, principalmente em grupo. E é justamente por isso que os limites externos ainda são tão importantes.
Não está sendo fácil ser pai e mãe dessa geração. Pronto, falei.
Muitas vezes confundimos modernidade com ausência de fronteira. Como se impor limites fosse sinônimo de rigidez antiquada.
Mas os filhos continuam precisando da mesma coisa que sempre precisaram: referência. Precisam de adultos que sustentem o “não” mesmo quando ele é desconfortável. Precisam de pais que compreendam que amor também é frustração, contenção e coerência. Educar é formar alguém capaz de, um dia, fazer boas escolhas mesmo quando nós não estivermos por perto.
Autorizar precocemente certos comportamentos não acelera maturidade emocional. Apenas antecipa experiências para as quais, emocionalmente, talvez eles ainda não estejam prontos.
E não, isso não significa criar filhos ingênuos, alienados ou desconectados da realidade. Significa criar filhos que saibam que existe diferença entre querer e poder. O errado continua sendo errado, mesmo que todos estejam fazendo.








