O meio do ano chegou — e agora?


Lu Salles Hora
por: Lu Salles Hora
Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais - e apaixonada pela arte de educar. Mãe da Laura e do Lucas.

Outro dia olhei para o calendário e levei um susto. Junho já.

É um mês de que gosto especialmente. Além das festas juninas, é mês do meu aniversário. E toda vez que ele chega, eu fico um pouco nostálgica. Lembro das comemorações da infância, dos pedaços de bolo embrulhados em papel-alumínio e das bandeirinhas de festa junina que acabavam virando decoração da festa. Meus pais não deixavam passar em branco.

Mas acho que essa nostalgia tem um motivo: junho sempre me faz perceber como o tempo está passando depressa.

Porque o ano que estava apenas “começando” e, de repente, já tem boletim dos filhos para ser visto, férias para planejar, copa do mundo e uma pergunta silenciosa pairando no ar:

Tá muito rápido ou eu que estou sempre atolada no meio de tantos compromissos?

Aqui em casa, essa sensação chegou em doses duplas — e em sabores bem diferentes.

O boletim! Antes de abrir aquela notificação no app da escola (ou aquele envelope, para as mais clássicas), um conselho: respira.

O boletim é um retrato, não uma sentença, tampouco um destino. E aqui tem um ponto importante: ele não pode ser uma surpresa para a família. Se algo não vai bem, isso já deveria ser do conhecimento de todos.

Na grande maioria das escolas o sistema de avaliação é bem objetivo, as notas mostram um retrato do desempenho acadêmico associado à postura de estudante. Quando as notas não são exatamente o que esperávamos, a conversa mais produtiva começa com curiosidade, não com cobrança:

  • “Como você se sentiu nessa matéria?”
  • “Teve alguma coisa que te travou?”
  • “O que você acha que poderia ser diferente?”
  • “Você se dá bem com o professor? Tem abertura para tirar suas dúvidas?”

Aqui em casa, o boletim ainda não chegou… mas a expectativa vem acompanhada de duas realidades bem distintas.

Lucas, de 12 anos, vive num universo paralelo onde futebol, jogos da copa, tênis e a troca de figurinhas com os amigos ocupam o topo da lista de prioridades. Provas? Ficam em segundo plano — bem em segundo. Reconheço aquele olhar distante quando ele está “estudando”, mas a cabeça está claramente no álbum de figurinhas que precisa ser completado. No ajuste do movimento certo com as mãos para bater bafo que já quase virou um “tique”.

E sabe o que aprendi? Brigar com os interesses dele não funciona. Usá-los como ponte para o aprendizado, sim.

O esporte vira pretexto para conversar sobre países, culturas, história, geografia e até matemática.

O ponto não é transformar tudo em conteúdo escolar — é mostrar que aprender vai além do que está nos livros e apostilas. E funciona viu…

Já minha filha Laura, 15 anos, que entrou no Ensino Médio este ano, o impacto foi real: provas, simulados e conteúdos novos chegaram de uma vez, como uma onda. Houve noites longas de estudo, momentos de dúvida e aquela frase que toda mãe conhece:

“Não aguento mais.”

Mas algo me tranquilizou: ela sabia se organizar. Sabia pedir ajuda. Sabia recomeçar depois de uma prova que não foi bem. Não foi sorte. Foi a base construída nas séries iniciais — quando aprender a estudar era tão importante quanto o conteúdo em si.

Autonomia, responsabilidade e tolerância à frustração também são aprendidas!

Isso me lembrou que educar é uma obra longa. Os frutos nem sempre chegam na hora que a gente espera.

E as férias de julho?

Chegamos ao dilema clássico de toda mãe no meio do ano: deixa descansar ou aproveita o tempo para estudar um pouco (com calma!)?

Minha resposta como educadora e mãe: as duas coisas, com equilíbrio e sem culpa.

Descanso não é perda de tempo — é essencial e faz parte do aprendizado. Cérebro cansado não retém, não cria e nem sequer encontra motivação. Férias existem por uma razão!

Mas, se há uma dificuldade real em alguma matéria, ignorá-la por 30 dias pode tornar o segundo semestre mais pesado. Uma ou duas horas por semana de revisão leve, sem drama e sem transformar as férias em extensão da sala de aula, já podem fazer a diferença.

O segredo está na conversa com seu filho sobre isso — não na imposição. Quando ele participa da decisão, a adesão é completamente diferente. Enfim, o importante aqui é a presença, a decisão em família, aquele combinado que “não sai caro”.

Lucas ainda vai me dar trabalho com os esportes. Porque, na cabeça dele, futebol, tênis e os encontros com os amigos no clube sempre parecem mais importantes do que qualquer prova de matemática.

(E sim, eu quase escrevi “a resenha com os amigos”. Mas fui oficialmente proibida de usar os dialetos adolescentes aqui em casa. Segundo eles, quando eu tento falar como os adolescentes, fica “cringe”. Então vou me conter… ou pelo menos tentar.)

Laura ainda vai ter noites difíceis no Ensino Médio. Vai enfrentar provas complicadas, momentos de insegurança e dias em que vai querer desistir.

E eu…. Sigo aprendendo com os dois!

Educar é uma jornada cheia de voltas, tropeços e surpresas boas. E está tudo bem! O meio do ano não é um julgamento. É apenas uma pausa para olhar a estrada, ajustar a rota quando necessário e seguir em frente.

E é isso minha gente….Boas férias para vocês — e para seus filhos!

  • Lu Salles Hora

    Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais. Mãe da Laura e do Lucas, esposa do Rafael. Com experiência de + de 20 anos em chão de sala e orientação parental, é apaixonada pela arte de educar e acredita que crescemos à medida que nos relacionamos uns com os outros. Para Luciana, todos somos educadores, basta dar bons exemplos e agir com coração e razão alinhados.

Data da postagem: 23 de junho de 2026

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