A porta fechada


Lúcia Paschinelli
por: Lúcia Paschinelli
Psicóloga clínica especialista em relações familiares, adolescência e vínculos afetivos e mãe do Leonardo.

Tem uma porta fechada em muitas casas, pedindo atenção.
Do lado de dentro, tem um adolescente, que parece protegido.
Do lado de fora, uma mãe, que parece segura.
Ela passa pelo corredor e pensa em bater.
Mas há um desconforto ali.
Afinal, ele está em casa.
E, de alguma forma, isso parece suficientemente bom.
Pois há um medo que mora do lado de fora.
A rua.
O trânsito.
As más companhias.
O fora de casa.
Mas hoje, esse medo encontrou um jeito curioso de descansar.
O filho está no quarto.
Está “protegido”.
Está perto.
E isso parece acalmar o coração.
Mas existe um medo sem nome…
Uma sensação que se percebe, mas não se sabe explicar.
“…alguma coisa não está bem, não está onde deveria.”
É um incômodo.
Porque, ao mesmo tempo em que ele está perto, parece cada vez mais distante.
Os amigos têm voz, mas quase nunca têm rosto.
As conversas acontecem, mas ninguém sabe exatamente com quem.
Um adolescente de treze anos pode passar horas conversando com alguém que jamais viu. E, às vezes, nem imagina quem realmente está do outro lado da tela.
Conversas longas, que parecem profundas, mas que não encontram realidade.
As tardes de clube, de praça, de bicicleta, condomínio e de cinema foram sendo trocadas por horas dentro de um quarto onde quase tudo acontece… sem que ninguém precise, de fato, encontrar alguém.
E talvez seja justamente esse o ponto.
A adolescência nunca foi apenas uma fase de crescer.
Sempre foi uma fase de encontrar.
Encontrar amigos.
Encontrar diferenças.
Encontrar conflitos.
Encontrar limites.
Encontrar pessoas.
É no olhar do outro que um adolescente aprende a perceber quando exagerou.
Quando machucou.
Quando foi acolhido.
Quando foi escolhido.
Quando foi excluído.
Quando precisa pedir desculpas.
Quando vale a pena insistir.
Nenhuma tela é capaz de ensinar as sutilezas de uma relação humana.
O tempo certo de falar.
A hora de silenciar.
O desconforto de um não.
A alegria de pertencer.
A linguagem invisível que existe entre dois olhares.
É no encontro que aprendemos a ler as delicadezas das relações, a reconhecer limites, a respeitar espaços, a perceber o efeito das nossas palavras e a descobrir, pouco a pouco, quem somos, pois só somos de verdade quando nos vemos no outro.
Tudo isso forma um adulto.
E tudo isso só nasce no encontro.
Durante gerações, o desafio das mães era colocar limites em adolescentes que precisavam entender a fraqueza de suas asas, em ressonância com seus voos.
Hoje o nosso desafio é outro: fazer voar asas atrofiadas.
Convidá-los para uma vida que, muitas vezes, já não desperta tanta curiosidade é uma travessia sem repertório, vivenciada por outras gerações.
Incentivar um esporte.
Uma festa.
Um cinema.
Uma caminhada.
Ter amigos “reais”.
Parece fácil, mas cai na falta de argumentos, antes não necessários.
O mundo digital tem suas artimanhas. No último caso, desconecto e me reinvento.
Mas o que fazer diante de uma verdade? Nenhum quarto é grande o suficiente para formar um adulto.
Existe um mundo esperando por ele. Inevitavelmente, ele o encontrará um dia.
A pergunta é: como?
Esse mundo hoje assusta. Será que, não experienciado, não assustará ainda mais?
Nele existem decepções, rejeições, perdas e riscos.
Muitos riscos.
Mas é exatamente nesse mesmo mundo que também existem amizades, pertencimento, descobertas, afeto, autonomia e tudo aquilo que transforma um menino em um homem, uma menina em mulher e um adolescente em alguém capaz de CON-VIVER.
E a vida, essa que conhecemos, por mais desafiadora que seja, continua lá, acontecendo.
Do lado de fora da porta.
E a reflexão necessária é:

Hoje a vida convida.

Um dia, ela cobra.

  • Lúcia Paschinelli

    Psicóloga clínica na abordagem Analítica Junguiana, com mais de 23 anos de experiência, Lúcia é especialista em relações familiares, casais em reconexão, desenvolvimento emocional e orientação parental para a adolescência. Atua em momentos de transição e crise, facilitando a reconstrução de vínculos e o encontro com novas formas de convivência. Palestrante, mentora de mães e autora de conteúdos que unem ciência, escuta profunda e alma, Lúcia também é fundadora de uma ONG de proteção animal e mãe do Leonardo. Compartilha sua vivência real de maternidade e profissão com sensibilidade, bom humor e profundidade. Ela acredita que todo relacionamento pode ser ressignificado, desde que haja presença, coragem e escuta verdadeira. “O vínculo salva.”

Data da postagem: 30 de julho de 2026

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