Se queremos uma vida tranquila, por que corremos tanto?


Fernanda Girassol
por: Fernanda Girassol
Psicóloga, cantora e compositora. Mãe da Malu e do Raul.
(foto: Freepik)

 

Era uma vez uma mulher apressada que corria, corria, mas parecia nunca chegar a lugar nenhum. Sempre cansada e se esforçando muito para dar conta de tudo. Do trabalho, dos estudos, da casa. Olhava ao redor e percebia que muitos à sua volta também faziam o mesmo. Dessa forma, se convencia de que tudo estava bem.

Sentimentos de angústia e até uma palpitação no peito pensando nas demandas do dia a dia estavam tão presentes que parecia que aquela era a vida de verdade.

Um dos motivos pelos quais ela corria, além da agenda cheia, era a fuga de si mesma. Era sua maneira de evitar olhar para as partes em si que doíam. Manter-se constantemente ocupada lhe trazia uma série de vantagens: era validada pela sociedade, se sentia pertencente e “encaixada” naquele modo de vida de uma grande metrópole. Se sentia importante por ter tantas coisas a fazer. E tinha assunto quando encontrava alguém conhecido.

“E aí, como você está? ”

“Ah, só na correria, e você? ”

“Menina, nem fala, minha vida está uma loucura! ”

Nossa, olhando assim até soa engraçado.

Ela era jovem, e por mais que se cansasse, até gostava daquela correria, mas isso tinha um preço: pouco sono, cansaço, estresse e até a saúde afetada.

Até que um dia, observando a correria das pessoas no metrô de São Paulo, ela se perguntou o motivo pelo qual cada pessoa corria. Já era noite, deviam estar voltando para casa. Será que estavam mesmo atrasadas? E se sim, atrasadas para quê?

Seria possível que estivesse presenciando — e até vivenciando — um certo tipo de adoecimento coletivo que, justamente por ser tão comum, quase ninguém percebia?

E, em vez de respostas, uma enxurrada de perguntas assaltou a mente da mulher que observava perplexa que ela também fazia parte daquela correria toda. E nesse dia, ao menos nesse dia, ela não correu.

Seu corpo já não acompanhava sua mente acelerada. Seu ventre carregava uma criança, uma vida que antes mesmo de chegar já pedia:

Mais calma, por favor!

Mais alma, por amor!

Quando não paramos para olhar para a vida, já percebeu que a própria vida nos faz parar?

E foi assim, com a barriga grande e passos lentos, que a mulher — que sou eu — parou pela primeira vez.

Tenho muito a agradecer à Malu. Foi na gravidez dela que comecei, lentamente, a questionar tudo e a desacelerar. A viver com mais sentido e presença. E como mulher, como futura mamãe e como psicóloga, passei a enxergar tudo que antes a pressa não me permitia ver.

Foi nesse dia no metrô, há cerca de doze anos, que peguei o celular e escrevi o que viria a ser a música “Paulista”.

Melhor que respostas prontas, a letra de “Paulista” abre caminhos para diversas reflexões e, quem sabe, mudanças sutis ou significativas no modo como levamos a vida.

Agora, sem pressa e sem demora, te convido a estar presente comigo nos versos a seguir.

Paulista…

Para quê tanta pressa?

Você está correndo de quê? Do quê? Para quê?

Está caminhando para algum lugar?

Ou nem sabe aonde quer chegar?

Paulista…

O que quer fazer?

O que vai ser quando crescer?

O que fará antes de morrer?

Só você quem pode responder.

Paulista…

O que fazes dessa vida,

Qual o sentido?

Se não souber vale chutar

Que eu nem ligo

Mas ache um tempo na loucura do dia a dia

Para pensar sobre você.

Paulista! Me diz qual é seu sonho?

Quero saber suas ideias, sentimentos.

Botar você no meu divã para ver se entendo

Ou enlouqueço de uma vez.

Paulista… 

Se acha tempo para tudo,

Se acha tempo para aparência

Ache um tempo para você,

Para sua essência…

Talvez de início seja pior do que está.

Mas só assim tu vai saindo dessa massa

A angústia inicial com o tempo passa

E tu não passa a vida em vão

Vida em vão, vida em vão, não!

Paulista! Paulista! Paulista!

Se quiser conhecer a música que nasceu dessa história, te convido a ouvir “Paulista”, por Fernanda Girassol, disponível nas principais plataformas de música. 

Hoje, doze anos depois, se eu encontrasse aquela mulher apressada que fui um dia, lhe daria um forte abraço e sussurraria em seu ouvido algo como:

“Você não está atrasada. Sua vida de verdade já começou e será mais tranquila se você se permitir viver com presença. ”

  • Fernanda Girassol

    Psicóloga, cantora e compositora, pós-graduada em Psicologia Junguiana, com formações em Educação Parental, Eneagrama, Psicobiofísica, Teoria dos Esquemas e Cura da Criança Interior. Casada com Wil e mãe da Malu e do Raul. Integra Psicologia, música, natureza e espiritualidade em um caminho de retorno à essência. Já conduziu palestras e formações que impactaram milhares de pessoas. Hoje atua como psicóloga clínica e conduz Rodas de Mulheres em Ubatuba. Autora de três livros. Suas canções autorais estão disponíveis nas principais plataformas. @fernanda.girassol

Data da postagem: 6 de setembro de 2026

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