Não é para sempre (nada é)


Anna Moreno Damico
por: Anna Moreno Damico
Diretora de multinacional, mentora de carreiras e especialista em crescimento profissional, esposa e mãe de cinco

Existe uma frase que eu adoro, repito bastante para os meus filhos, e ultimamente, tenho percebido que talvez precise repeti-la mais vezes para adultos também: não tome decisões permanentes em cima de emoções temporárias.

– Um dia ruim não significa que você odeia seu trabalho.

– Uma fase difícil com seu chefe não significa que seu capítulo naquela empresa acabou.

– Uma licença-maternidade confusa não significa que você perdeu o norte.

– Um período em que a família precisa mais de você não significa que você precisa abandonar tudo.

– Uma demissão não significa que você nunca mais vai encontrar um trabalho tão bom.

E uma vontade incontrolável de jogar tudo para o alto numa terça-feira às 18h47 talvez signifique apenas que você precisa jantar, dormir e conversar sobre isso amanhã!

Tenho pensado muito sobre a nossa necessidade de transformar momentos em sentenças finais. Talvez porque, quando estamos no meio de alguma coisa, seja difícil enxergar que aquilo também vai passar. A emoção ocupa todo o campo de visão. Parece que sempre será assim. Mas quase nada é.

Depois de 20 anos de carreira, cinco filhos, cinco licenças-maternidade, mudanças de país, empresas, funções, chefes, promoções, escolhas que deram muito certo e outras que precisei recalcular, uma das coisas que mais me tranquiliza hoje é saber que a vida profissional é muito mais dinâmica do que imaginamos enquanto estamos tentando planejá-la.

A gente pode mudar. Voltar. Recomeçar. Acelerar depois de brecar. Pode descobrir que aquilo que queria desesperadamente aos 30 já não faz sentido aos 40, e descobrir aos 45 que alguma coisa que jurou nunca mais querer voltou a fazer sentido.

Já vi gente se arrepender depois de ganhar uma promoção que foi muito suada. Já vi gente inclusive rejeitando promoção, quando alguns meses antes, era a única coisa que importava. Essas mudanças, essas adaptações, essas bolas curvas… nada disso precisa carregar o peso dramático de “o que farei com o resto da minha vida?”.

Talvez essa seja uma das grandes vantagens de começar a enxergar a carreira como um jogo de longo prazo. Quando você olha apenas para o próximo movimento, qualquer decisão parece gigantesca. Quando olha para uma trajetória de 20 ou 30 anos, entende que existem capítulos. E capítulos terminam. Para outros serem escritos.

A maternidade me ensinou muito sobre isso porque filhos tornam as temporadas da vida quase visíveis:

– O bebê que hoje depende de você para absolutamente tudo daqui a pouco entra na escola

– A criança que exige uma logística insana ganha autonomia

– O adolescente que talvez precise emocionalmente muito de você atravessa aquela fase

E, quando você percebe, as necessidades mudaram novamente…

Por que, então, tomar decisões sobre os próximos dez anos profissionais baseadas exclusivamente nas necessidades dos próximos dois?

Isso não significa ignorar o presente. Muito pelo contrário. Se sua família precisa de você agora, esteja lá. Se sua saúde emocional pede uma pausa, pare. Se aquele trabalho se tornou incompatível com a vida que você quer viver, saia se puder. Se sua ambição está pedindo passagem, vá com tudo. Só não transforme automaticamente uma necessidade de hoje em uma identidade para sempre.

Eu mesma estou vivendo um desses capítulos. É definitivo? Não faço ideia. E acho até meio libertador conseguir dizer isso. Talvez eu nunca mais volte para uma cadeira executiva. Talvez volte. Talvez construa algo completamente diferente. Talvez daqui a alguns anos apareça uma oportunidade tão interessante que eu mude novamente de ideia. Não preciso arrancar essa resposta da Anna de hoje.

Porque talvez uma das maiores maturidades que podemos desenvolver seja parar de exigir que a nossa versão atual tome todas as decisões pela mulher que ainda vamos nos tornar. E isso vale também para os momentos ruins. Quando estamos frustradas, cansadas, ressentidas, inseguras ou com medo, existe uma tendência natural de querer resolver a angústia rapidamente.

Pedir demissão. Desistir da promoção. Abandonar um projeto. Decidir que “não nascemos para isso”. Ou, no outro extremo, aceitar qualquer oportunidade porque estamos apavoradas com a sensação de ficar para trás.

Emoção é informação. Mas não precisa ser imediatamente uma ordem. Às vezes ela está dizendo que alguma coisa precisa mudar. Saber distinguir uma coisa da outra talvez seja uma das competências mais importantes para construir uma carreira sustentável.

Você não precisa acertar uma decisão que sirva para sempre. Precisa tomar a melhor decisão que consegue com as informações, prioridades e circunstâncias que tem hoje, e manter a humildade de recalcular a rota quando elas mudarem.

No mês passado, escrevi nesta coluna que uma decisão certa hoje não significa que a decisão anterior estava errada. Talvez exista um complemento importante para essa ideia: uma decisão certa hoje também não precisa continuar sendo certa para sempre. Talvez a gente sofresse um pouco menos se parasse de colocar um ponto final onde a vida colocou apenas uma vírgula.

  • Anna Moreno Damico

    Executiva de Marketing e Recrutamento com 20 anos de carreira corporativa em multinacionais. Já trabalhou em São Paulo, Nova York e, atualmente, mora em Boston com seu marido e cinco filhos, onde lidera um time internacional. Dedicada a formar a próxima geração de líderes, Anna também é mentora de carreiras e especialista em crescimento profissional, oferecendo curadoria de conteúdo sobre liderança e mercado de trabalho, além de orientação, cursos e aulas exclusivas. Com mais de dois mil alunos e centenas de horas em palestras e treinamentos no último ano, Anna acredita em liderança pelo exemplo e na construção de relacionamentos verdadeiros para viver a máxima de suas duas frases preferidas: “Feito é melhor que perfeito”, e “Se não eu, quem?”

Data da postagem: 6 de setembro de 2026

Tags: ,

Vale a pena dar uma olhada na minha seleção de produtos incríveis e
serviços que facilitam sua vida de mãe ;)