A febre dos eletrólitos e os riscos de suplementar sem necessidade


Amanda Figueiredo
por: Amanda Figueiredo
Amanda Figueiredo (@nutriamandafig) é nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar.

Nas últimas semanas, dificilmente passo um dia sem receber perguntas de alguma paciente sobre eletrólitos. No consultório, no Instagram, até em conversas informais, o assunto virou praticamente unânime. Sachês coloridos, pozinhos efervescentes, garrafinhas com eletrólito adicionado ocupando prateleiras de farmácia e academia. Como nutricionista, acho importante parar um momento e explicar o que  está por trás dessa febre, porque ela existe agora, e principalmente, para quem esses produtos fazem sentido.

Afinal, o que são eletrólitos?

Eletrólitos são minerais que, dissolvidos no sangue e nos fluidos corporais, carregam carga elétrica e por isso participam de funções essenciais do organismo. Sódio, potássio, magnésio, cálcio e cloreto são os principais. Juntos, eles regulam o equilíbrio de líquidos dentro e fora das células, permitem a contração muscular, sustentam os impulsos nervosos e ajudam a manter a pressão arterial estável. Sem eles, simplesmente não há vida celular funcionando direito.

O corpo perde eletrólitos naturalmente pelo suor, pela urina e por processos digestivos, e normalmente repõe essas perdas através da própria alimentação. É esse equilíbrio natural que a febre atual está desafiando, ao sugerir que qualquer pessoa, em qualquer situação, precisa de reposição extra.

Por que essa febre está acontecendo agora?

Há uma combinação de fatores por trás dessa explosão de consumo, e vale a pena explicar cada um deles.

O primeiro é o boom das corridas de rua e do endurance recreativo. Nunca tivemos tantas pessoas correndo maratonas, treinando para provas de longa distância ou participando de desafios de resistência publicados nas redes. Esse público de fato tem uma demanda fisiológica real por reposição hidroeletrolítica em treinos longos e intensos, e a indústria soube capturar essa audiência rapidamente.

O segundo fator é o uso disseminado de medicações como Mounjaro e outros análogos de GLP-1. Efeitos colaterais gastrointestinais, como náuseas, vômitos e menor ingestão alimentar, associados a esses tratamentos, aumentaram a preocupação (legítima, em alguns casos) com desidratação e desequilíbrio eletrolítico em quem está em uso dessas medicações. Isso criou um novo público-alvo para a indústria de suplementos, nem sempre com orientação profissional adequada por trás.

O terceiro fator é puramente de marketing de bem-estar preventivo. Influenciadores fitness transformaram o eletrólito em símbolo de performance e disciplina, algo que se toma por garantia, mesmo sem sintoma algum e, às vezes, acompanhados de promessas de energia, foco e recuperação que pode nem ter relação direta com uma necessidade fisiológica da pessoa que compra.

Quem realmente precisa suplementar eletrólitos?

A suplementação de eletrólitos tem indicação em situações específicas, e não como hábito diário generalizado. Atletas de endurance, como corredores de prova longa, ciclistas e triatletas, que treinam por períodos prolongados e perdem grandes volumes de suor, se beneficiam da reposição, especialmente em climas quentes.

Pessoas com perda hídrica intensa por causas clínicas, como quadros de diarreia, vômitos persistentes ou febre alta, também têm indicação, muitas vezes até de forma mais estruturada, como nas soluções de reidratação oral.

Pacientes em uso de determinados medicamentos, incluindo diuréticos e, em alguns casos, os próprios análogos de GLP-1 quando há efeitos colaterais gastrointestinais, podem precisar de acompanhamento e eventual reposição, sempre orientada por profissional de saúde. Fora desses cenários, a grande maioria das pessoas com alimentação equilibrada e rotina de hidratação adequada não tem necessidade fisiológica de suplementação eletrolítica diária.

Quais ingredientes observar no rótulo

Ao avaliar um produto eletrolítico, vale focar na composição. Sódio e potássio são os eletrólitos mais relevantes para reposição em contexto de suor e perda hídrica, e devem aparecer em quantidades condizentes com a proposta do produto, nem irrisórias, nem exageradas. Magnésio, frequentemente citado em campanhas de bem-estar, aparece em doses muitas vezes simbólicas nesses produtos, insuficientes para qualquer efeito relevante. É importante também verificar a presença de açúcares adicionados ou adoçantes em excesso, comuns em versões saborizadas, e a ausência de informações claras sobre a concentração de cada mineral por dose, o que dificulta uma avaliação real de necessidade.

O maior erro que as pessoas cometem ao escolher produtos eletrolíticos

O erro mais comum que vejo no consultório é a extrapolação. Pessoas sedentárias ou com rotina de exercício leve a moderada replicando protocolos de reposição pensados para atletas de endurance, simplesmente porque viram alguém nas redes sociais recomendando. Isso significa consumir eletrólitos diariamente sem qualquer perda hídrica que justifique, muitas vezes empilhando essa suplementação a uma dieta já rica em sódio, sem qualquer avaliação prévia de exames ou de contexto individual. O resultado, no médio prazo, pode incluir sobrecarga renal, especialmente em quem já tem alguma predisposição ou função renal reduzida, desequilíbrios entre sódio e potássio, e o efeito talvez mais preocupante do ponto de vista clínico, mascarar sintomas de outras condições, atrasando um diagnóstico correto porque a pessoa atribuiu cansaço, tontura ou cãibra a uma simples falta de eletrólito, quando a causa pode ser outra completamente diferente.

O que fica dessa reflexão

A febre dos eletrólitos revela algo maior sobre a forma como consumimos informação de saúde hoje, tendências nascidas de necessidades reais, mas específicas, de um grupo pequeno de pessoas, acabam generalizadas para todo mundo. Suplementar eletrólitos não é errado quando existe indicação, mas, fazer isso por hábito, sem avaliação individual, pode gerar mais desequilíbrio do que solução.

Cada corpo tem uma demanda diferente de hidratação e minerais, que depende de rotina de treino, alimentação de base, uso de medicações e até condições de saúde pré-existentes, e nenhum rótulo genérico consegue captar essa complexidade sozinho.

Antes de comprar qualquer produto eletrolítico, vale perguntar o que motivou aquela compra. Se a resposta for um treino longo em dia de calor, uma perda hídrica por causa de mal-estar, ou uma recomendação médica específica, a suplementação tem lugar. Se a resposta for apenas vi todo mundo tomando, provavelmente o corpo já está dando conta sozinho, e a melhor rota é olhar para a água, o sono e a alimentação de base antes de qualquer pó ou sachê.

  • Amanda Figueiredo

    Nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar. Acredita que trabalhar com nutrição significa poder ajudar quem deseja se alimentar de maneira mais saudável e mostrar os impactos positivos dos bons hábitos. Também pensa que a alimentação saudável não precisa ser sacrificante; ela pode ser criativa e cheia de sabor, principalmente quando a incluímos desde a infância.

Data da postagem: 20 de agosto de 2026

Tags: , , , ,

Vale a pena dar uma olhada na minha seleção de produtos incríveis e
serviços que facilitam sua vida de mãe ;)