Antes do termômetro, existe um olhar


Dra Betina Lahterman
por: Dra Betina Lahterman
Pediatra pela Unifesp. Com um olhar ampliado do crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes. Mãe de 1, doutora de muitos.

Uma reflexão sobre o medo da febre e os sinais que realmente merecem nossa atenção

(foto: 123TRF)

São duas da manhã quando uma mãe encosta os lábios na testa do filho e sente aquele calor diferente. O quarto está escuro, mas ela já sabe, antes de qualquer número: alguma coisa mudou. Essa cena se repete todas as noites em milhares de casas, e eu conheço os dois lados dela. Vivi como mãe e revivo, todos os dias, como pediatra.

Antes do termômetro, existe o olhar. Há o jeito como aquela criança costuma acordar, pedir água, brincar, conversar, dormir. Há o colo que ela procura quando está cansada, e aquele brilho no olho que só nós reconhecemos, mesmo antes de conseguir explicar o que está acontecendo. Conhecer uma criança é, também, saber reconhecer quando ela está diferente.

Mas quando a febre chega, esse olhar treinado costuma ser tomado pelo medo. É nessas noites que recebo as mensagens, quase sempre acompanhadas de uma foto do visor do termômetro: “Dra. Be, está com 39,2.” Minutos depois: “Dei o remédio há 20 minutos e não baixou.” E pouco depois: “Agora subiu mais.”

Eu entendo cada uma dessas mensagens. Quando é o nosso filho, vinte minutos podem parecer uma eternidade. Esperamos que o remédio funcione como um interruptor que baixe, e pronto. Só que não é assim: o antitérmico costuma começar a agir ao longo dos primeiros 30 a 60 minutos, e essa resposta varia de criança para criança. E o objetivo do remédio não é, necessariamente, fazer o número voltar para 36,5 °C. É, antes de tudo, oferecer conforto.

Enquanto o remédio faz efeito, existe algo mais importante do que checar o termômetro outra vez: observar a criança. Ela respira bem? Está aceitando líquidos? Continua interagindo, reagindo, pedindo colo? Quando a temperatura cede um pouco, mesmo sem normalizar completamente, ela volta a se parecer com o seu jeito de sempre? Essas respostas contam uma história que nenhum número, sozinho, é capaz de contar.

Uma criança com febre não é apenas uma temperatura. Pode ser uma infecção simples e passageira e, na maioria das vezes, é exatamente isso. Mas também pode ser um corpo mostrando que precisa de avaliação. E é aqui que a informação se torna aliada do cuidado, não fonte de mais medo: há sinais que não devem esperar. Dificuldade para respirar, prostração intensa, recusa em ingerir líquidos, sinais de desidratação, uma convulsão, manchas que preocupam, dor muito intensa ou uma piora progressiva pedem avaliação sem demora. Nos bebês bem pequenos, a febre também exige atenção redobrada desde o início.

Conhecer esses sinais é importante. Mas há algo que vem antes deles: conhecer o seu filho. Essa, talvez, seja uma das maiores ferramentas que temos no cuidado da infância. Maior do que qualquer aplicativo ou tabela de referência.

A informação ajuda. O termômetro ajuda. O remédio ajuda. Mas nada substitui perceber que aquele olhar não é o de sempre.

E eu sei que isso não é simples. Quando um filho adoece, o medo toma conta, e a vontade é medir de novo, conferir de novo, perguntar de novo. Procurar uma resposta que devolva, ainda que por um instante, a sensação de controle. Só que, quanto mais assustados ficamos, menos conseguimos, de fato, observar.

Por isso, da próxima vez que a febre chegar, respire fundo antes de esticar a mão para o termômetro. Olhe primeiro para o seu filho. Veja quem está ali: os olhos, a respiração, a hidratação, a disposição, o jeito de falar, de brincar, de pedir colo. Se ela continua bebendo água, respondendo ao seu chamado, tendo momentos de brincadeira entre os picos de febre e dormindo tranquila depois que o remédio faz efeito, isso pode esperar: não é preciso medir a temperatura a cada vinte minutos, trocar de antitérmico por conta própria, nem sair correndo para um pronto-socorro no meio da noite. Você não precisa saber tudo. Precisa apenas estar presente o suficiente para perceber quando algo mudou. E, se a sua percepção disser que aquela criança não está bem, confie nesse sinal e procure avaliação.

Antes do número no termômetro, há sempre uma história. E quem conhece essa história de perto é quem primeiro percebe que algo mudou.

  • Dra Betina Lahterman

    Médica formada pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), com residência em Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com o foco no crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes, acolhimento da família através de uma pediatria afetiva e descomplicada. Atualmente, Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e Membro do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Como pediatra, transita em todos os cenários da infância e adolescência participando dos momentos de conquistas e desafios. No que transmite, não só o conhecimento mas, trocas e vivências. Orienta além da questão física, resgata o brincar, o contato com a família, com a natureza e o uso responsável e compartilhado das tecnologias.

Data da postagem: 2 de outubro de 2026

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