Como saber se uma escola está preparada para receber uma família divorciada?
Imagine uma criança se preparando para a festa da escola. Na plateia, gostaria de encontrar a mãe e o pai. Mas eles estão divorciados e não sabem se conseguem permanecer no mesmo espaço. Um decide não ir para evitar um conflito. O outro também. A criança participa da festa, mas sente a ausência.
É no cotidiano que as crianças sentem os efeitos da dificuldade dos adultos em reorganizar a vida familiar.
O Brasil vive uma transformação na configuração das famílias. Em 2023, foram registrados 440.827 divórcios. Em 2024, 428.301. Em 2023, 46,3% dos divórcios judiciais envolviam famílias com filhos menores de idade. Essa realidade também chegou às escolas.
O divórcio aparece nas reuniões, festas, fotografias e decisões tomadas diariamente pelos adultos. As instituições estão preparadas para lidar com essa configuração familiar?
Em um dos casos que acompanho, uma família vive um litígio há anos. O pai marcou uma reunião com a escola sem comunicar a mãe. Ela descobriu pelo aplicativo e perguntou se poderia participar. A reunião aconteceu on-line, os dois começaram a discutir e a mãe acabou sendo convidada a se retirar. A escola tentou reparar a situação, mas o episódio já havia produzido sofrimento. O problema não foi a intenção, mas não reconhecer previamente que aquela família exigia outro manejo.
Receber uma família divorciada não significa entrar no conflito conjugal dos pais. A escola não precisa descobrir quem está certo ou quem foi responsável pelo fim do casamento. Seu papel é preservar a criança, garantir comunicação adequada e oferecer um ambiente seguro para seu desenvolvimento.
Divórcio não é sinônimo de conflito. Algumas famílias constroem uma relação de cooperação; em outras, o conflito permanece intenso. A escola não deve presumir nem que os pais são inimigos, nem que conseguirão estar juntos. Cada família precisa ser compreendida em sua realidade.
Quando existe conflito parental intenso, pode ser necessário realizar reuniões separadas ou estabelecer formas de comunicação que reduzam confrontos. Isso não significa escolher um lado, mas proteger a função da escola.
As festas também podem ser delicadas. Quando os adultos não conseguem participar juntos, algumas famílias escolhem a ausência para evitar conflitos. Para a criança, porém, a festa é uma oportunidade de mostrar uma conquista, receber o olhar de pessoas importantes e perceber que continua pertencendo àquele grupo.
A escola pode contribuir orientando previamente as famílias e estabelecendo regras claras. Não precisa determinar como os pais devem se relacionar, mas pode deixar claro que o objetivo da comemoração é a criança e que os adultos precisam colaborar para preservar aquele momento.
O mesmo vale para fotografias e novos parceiros. O divórcio não apaga a história da criança nem seus vínculos. Novas relações fazem parte da vida dos adultos, mas é importante considerar a idade da criança, seu momento emocional e sua capacidade de compreender a nova configuração familiar. Uma pergunta pode ajudar: isso é importante para a criança?
Para que esse cuidado aconteça, a escola precisa se preparar. É importante conhecer a configuração familiar, identificar os responsáveis, manter contatos atualizados e observar eventuais determinações judiciais. Professores e funcionários precisam saber que a criança não deve ser utilizada como mensageira entre os pais. Questões conjugais pertencem ao universo dos adultos.
Professores não precisam ser especialistas em direito de família ou psicologia do divórcio, mas precisam reconhecer situações que exigem cuidado e conhecer os procedimentos da instituição.
O divórcio, por si só, não determina problemas emocionais. Crianças podem atravessar a separação e construir relações saudáveis com ambos. O que pode aumentar o sofrimento são conflitos parentais intensos, insegurança e exposição às disputas.
Nesse processo, a escola pode ser uma importante rede de proteção. É um espaço de convivência e estabilidade em que a criança pode continuar sendo criança, sem assumir o papel de mediadora ou mensageira dos adultos.
Preparar as escolas para essa realidade não significa exigir que professores saibam resolver o divórcio de uma família. Significa oferecer informação, estabelecer protocolos e compreender que uma família pode mudar de configuração sem que a criança deixe de precisar de pertencimento, segurança e cuidado.
Os adultos podem precisar de tempo para aprender a viver depois do divórcio. A criança, entretanto, continua crescendo enquanto eles aprendem.
Talvez a pergunta que precisemos fazer não seja apenas se a escola está preparada para receber uma família divorciada, mas se está preparada para acolher a criança que existe dentro dessa nova configuração familiar.
Porque os adultos podem precisar de tempo para aprender a viver depois do divórcio, mas a infância continua acontecendo todos os dias.








