Você conhece as plataformas digitais que seu filho usa?


Dra Betina Lahterman
por: Dra Betina Lahterman
Pediatra pela Unifesp. Com um olhar ampliado do crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes. Mãe de 1, doutora de muitos.

Uma amiga do Theo já me chamou de paranoica por manter a conta dele no Instagram associada à minha. Talvez, para ela, fosse exagero. Para mim, é uma forma de acompanhar, orientar e estar por perto enquanto ele navega no ambiente digital.

Essa situação me fez pensar em uma pergunta que vale para todas as famílias: sabemos realmente o que nossos filhos encontram na internet?

Seu filho assiste a vídeos no YouTube, conversa pelo WhatsApp, joga online ou passa um tempo no TikTok? Você sabe o que ele vê, com quem conversa e como se sente depois de usar essas plataformas?

As telas já fazem parte da infância e da adolescência. Elas ensinam, estimulam a criatividade, aproximam pessoas e ajudam a descobrir novos interesses. Mas também podem expor crianças e adolescentes a situações para as quais ainda não estão preparados.

Por isso, acompanhar a vida digital dos filhos vai muito além de controlar o tempo de tela. É preciso conhecer os ambientes que frequentam.

Os benefícios existem. Os riscos também

Uma criança pode aprender sobre um assunto de que gosta, enquanto um adolescente pode fortalecer amizades e encontrar pessoas com interesses semelhantes. O problema é que nem tudo o que aparece na tela é adequado ou seguro.

As recomendações automáticas podem conduzir a conteúdos inadequados. Nos jogos, uma brincadeira pode virar ofensa ou contato impróprio. Nas redes sociais, a comparação com corpos e estilos de vida idealizados pode afetar a autoestima. Curtidas, notificações e vídeos reproduzidos automaticamente também estimulam a permanência online.

Isso não significa que toda experiência digital seja prejudicial. Significa que precisamos entender como cada plataforma funciona e o que acontece enquanto nossos filhos a utilizam.

Quatro pontos de atenção

Uma maneira prática de compreender os riscos é observar quatro aspectos:

  • Conteúdo: o que a criança assiste? Violência, sexualização, incentivo a dietas extremas, autolesão ou desafios perigosos?
  • Contato: com quem conversa? Há desconhecidos tentando conquistar sua confiança, pedindo informações pessoais ou imagens íntimas?
  • Conduta: como se comporta e como é tratada? Há cyberbullying, humilhações ou compartilhamento de imagens sem autorização?
  • Comércio: existe envolvimento financeiro? Compras dentro de jogos, publicidade inadequada, golpes ou pedidos suspeitos de dinheiro?

Esses riscos podem se combinar. Uma conversa iniciada em um jogo pode migrar para um aplicativo de mensagens privadas. Em algumas situações, alguém constrói uma relação de confiança para manipular a criança ou o adolescente, obter imagens íntimas e depois ameaçar divulgá-las. Esse tipo de aliciamento é conhecido como grooming.

Também é importante explicar que uma foto enviada como temporária não necessariamente desaparece. Ela pode ser salva, gravada e compartilhada sem autorização.

Cada plataforma pede um olhar diferente

Não basta saber que o filho usa redes sociais ou jogos. É preciso conhecer os recursos disponíveis em cada ambiente.

No YouTube e no TikTok, as recomendações podem levar a conteúdos inadequados ou prejudiciais. No Instagram, merecem atenção a comparação social, o cyberbullying e o contato com desconhecidos. No Snapchat, existe o risco da falsa sensação de segurança das mensagens temporárias e ganha-se pontos com o número de seguidores. No WhatsApp, a exposição em grupos e a circulação de mensagens e imagens ofensivas também precisam ser observadas.

Discord, Telegram e Reddit reúnem comunidades, canais e conversas que podem incluir desconhecidos e conteúdos impróprios. No Roblox, as interações com outros jogadores merecem acompanhamento. Já plataformas de videochamadas aleatórias, como o OmeTV, podem expor crianças e adolescentes diretamente a desconhecidos, inclusive a situações de conteúdo sexual.

Não se trata de estabelecer um ranking de aplicativos perigosos. Os recursos e as políticas de segurança mudam, e os riscos dependem da idade, das configurações da conta e da maneira como cada ambiente é utilizado. Ferramentas de proteção ajudam, mas não substituem a supervisão.

E quando aparece um aplicativo que os pais nunca ouviram falar? Isso acontece o tempo todo. Um amigo indica, uma novidade viraliza ou uma conversa muda de plataforma. Mais importante do que decorar nomes é ensinar os filhos a reconhecer situações de risco.

Alguém pediu para manter uma conversa em segredo? Solicitou informações pessoais ou imagens? Fez ameaças ou tentou provocar culpa? Seu filho sabe a quem recorrer se algo assim acontecer?

E a saúde mental?

A relação entre redes sociais e saúde mental merece atenção, mas também precisa ser compreendida sem simplificações.

Estudos apontam associações entre o uso de redes sociais e sintomas de ansiedade e depressão em adolescentes. Isso não significa que as redes sejam, isoladamente, responsáveis por esses problemas.

Mais importante do que contar as horas de conexão é entender o que acontece durante esse período. Uma hora conversando com amigos é diferente de uma hora recebendo ofensas, enfrentando comparações constantes ou consumindo conteúdos que provocam sofrimento.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quanto tempo você fica no celular?”, mas também “o que acontece quando você está online?”.

Como acompanhar sem afastar?

O primeiro passo é demonstrar interesse. Peça para conhecer os jogos, os vídeos e os aplicativos de que seu filho gosta. Pergunte quem ele acompanha, como escolhe o que assistir e com quem costuma conversar.

Alguns cuidados fazem diferença:

  • Conheça as plataformas: entenda como funcionam os perfis, as mensagens privadas e as configurações de privacidade.
  • Confira a classificação etária: a idade mínima de um aplicativo não significa que ele seja adequado para qualquer criança daquela idade.
  • Combine limites: estabeleça horários e preserve o sono, as brincadeiras, os estudos e a convivência presencial.
  • Acompanhe conforme a idade: crianças menores precisam de supervisão próxima. Na adolescência, a autonomia deve crescer gradualmente, sem que os adultos deixem de estar presentes.
  • Ensine a pedir ajuda: seu filho precisa saber que pode contar o que aconteceu, mesmo quando tiver cometido um erro ou descumprido alguma regra.

Se houver ameaças, exposição inadequada ou pedidos de imagens íntimas, é importante preservar as evidências com segurança, bloquear e denunciar o perfil quando apropriado e procurar ajuda. Não compartilhe o material nem exponha ainda mais a criança.

Mudanças persistentes de comportamento, isolamento, alterações do sono, queda no rendimento escolar ou medo de abrir mensagens também merecem atenção. Não significam necessariamente que exista um problema digital, mas são sinais que justificam uma conversa mais cuidadosa.

Proteger não é apenas proibir

Diante de uma situação de risco, a primeira reação de muitos pais é tirar o celular ou proibir o aplicativo. Em algumas circunstâncias, restringir o acesso é necessário. Mas, se a única resposta for a punição, a criança ou o adolescente pode passar a esconder o que acontece por medo de perder o acesso à tecnologia.

Limites e vínculo precisam caminhar juntos. Os adultos orientam, supervisionam e intervêm quando necessário, mas também precisam criar espaço para perguntas e conversas difíceis.

Essa responsabilidade não é exclusiva das famílias. A escola pode ajudar a identificar situações de cyberbullying e sofrimento emocional. Os profissionais de saúde podem orientar e reconhecer sinais de alerta. E as plataformas precisam assumir sua responsabilidade pela segurança dos ambientes que oferecem.

Não precisamos transformar a tecnologia em vilã, nem aceitar que tudo o que acontece online faz parte do crescimento.

Conhecer a vida digital dos filhos é uma forma de cuidado. Mais do que contar minutos de tela, precisamos saber o que eles veem, com quem conversam, como se sentem e, principalmente, se confiam nos adultos para pedir ajuda.

Porque a proteção começa com informação, mas se fortalece no diálogo, nos limites e na presença de quem cuida.

Referências para consulta

  1. Fassi L, Thomas K, Parry DA, et al. Social Media Use and Internalizing Symptoms in Clinical and Community Adolescent Samples: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Pediatrics. 2024;178(8):814–822. DOI: 10.1001/jamapediatrics.2024.2078.
  2. Estellés M, Doyle A. From safeguarding to critical digital citizenship? A systematic review of approaches to online safety education. Review of Education. 2025;13(1):e70056. DOI: 10.1002/rev3.70056.
  3. Comitê Gestor da Internet no Brasil. TIC Kids Online Brasil 2025. São Paulo: CGI.br; 2026.
  4. Sociedade Brasileira de Pediatria. Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital. #Menos Jogos Perigosos #Mais Saúde. Nota de Alerta nº 65, 2023.

  • Dra Betina Lahterman

    Médica formada pela Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), com residência em Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com o foco no crescimento e desenvolvimento das crianças e adolescentes, acolhimento da família através de uma pediatria afetiva e descomplicada. Atualmente, Presidente do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e Membro do Departamento Científico de Saúde Escolar da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Como pediatra, transita em todos os cenários da infância e adolescência participando dos momentos de conquistas e desafios. No que transmite, não só o conhecimento mas, trocas e vivências. Orienta além da questão física, resgata o brincar, o contato com a família, com a natureza e o uso responsável e compartilhado das tecnologias.

Data da postagem: 3 de novembro de 2026

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