Quando foi que deixamos de nos escutar? Um clube do livro e a conexão entre mulheres
Quando falamos em autocuidado, quase sempre pensamos em alimentação saudável, atividade física, sono de qualidade e exames preventivos. São cuidados fundamentais, mas será que estamos olhando para todas as dimensões da nossa saúde?
Há mais de duas décadas, acompanho crianças e suas famílias no consultório. Escuto mães que tentam equilibrar trabalho, filhos, casamento, casa e uma lista interminável de responsabilidades. Mulheres que se desdobram para atender às necessidades de todos e, muitas vezes, encontram pouco espaço para as próprias.
Mas não observo essa realidade apenas do outro lado da mesa. Também sou mãe, esposa e profissional. E, ao longo da vida, aprendi a reservar um tempo para cuidar de mim: a atividade física, a alimentação, o sono, os momentos dedicados aos meus próprios interesses. Não como obrigação, mas porque descobri o quanto isso me faz bem. Nem sempre consigo na medida que gostaria, e tudo bem.
Ainda assim, havia algo que me faltava.
Em alguns momentos, encontrava esse acolhimento em conversas com amigas, encontros entre mulheres, trocas que me faziam voltar para casa com uma energia diferente. Mas eram momentos pontuais. E comecei a perceber o quanto sentia falta de cultivar essas conexões com mais frequência e profundidade.
Vivemos conectadas o tempo inteiro, mas nem sempre nos sentimos verdadeiramente acompanhadas. Quantas conversas temos ao longo do dia sem conseguir falar sobre aquilo que realmente importa? Quantas vezes encontramos outras mulheres e permanecemos presas aos papéis que desempenhamos?

e construir vínculos genuínos (foto: arquivo pessoal)
Em diferentes culturas e épocas, mulheres se reuniram para compartilhar histórias, experiências, conhecimentos e afetos. Esses encontros construíam vínculos e fortaleciam o sentimento de pertencimento. Com as transformações da vida cotidiana, muitos desses espaços perderam lugar em nossas rotinas. E me pergunto se, ao nos distanciarmos dessas trocas, não fomos também nos afastando da nossa própria intuição. Da capacidade de escutar o que sentimos antes de responder ao que o mundo espera de nós.
Existe uma palavra que traduz algo dessa força coletiva: egrégora. Um conceito espiritual que descreve a energia criada quando pessoas se reúnem em torno de uma intenção comum. Gosto de pensar nessa ideia como uma metáfora para aquilo que acontece quando mulheres se encontram de verdade, dispostas a escutar, compartilhar e se revelar.
Foi no Sintonia, um espaço de experiências e cuidado da NIA Clínica Médica dedicado à saúde integral da mulher, que encontrei essa conexão que tanto buscava. Mulheres reunidas com o propósito de compartilhar histórias, cultivar o autoconhecimento e construir vínculos genuínos. O Sintonia nasceu do entendimento de que sentir é medicina. E foi durante um desses encontros que surgiu a ideia da sintoNIA entre linhas, um clube do livro nascido de um entendimento igualmente poderoso: o de que ler juntas também é.
Escolhemos como primeira leitura Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. A autora nos apresenta a Mulher Selvagem, um arquétipo que representa a força instintiva, criativa e intuitiva do feminino. Uma dimensão de nós mesmas que, tantas vezes, fica silenciada pelas exigências da vida cotidiana.

Nossa proposta é percorrer o livro capítulo a capítulo, permitindo que suas histórias encontrem as nossas. Cada encontro é um convite para sentir, refletir e compartilhar. Não buscamos respostas prontas. Queremos construir um espaço onde seja possível fazer perguntas, revisitar histórias e descobrir novas perspectivas sobre nós mesmas.
O autoconhecimento não é um destino, é uma prática. E algumas práticas ficam mais poderosas quando feitas em roda, quando encontramos nas histórias de outras mulheres ecos da nossa própria trajetória.
Tenho descoberto que cuidar de mim também passa por cultivar esses encontros. Por estar entre mulheres sem precisar oferecer soluções, corresponder a expectativas ou desempenhar qualquer papel. Apenas estar presente, escutar e ser escutada.

Por isso, quando falo de autocuidado materno, não estou propondo mais uma tarefa para uma agenda que já está lotada. Estou convidando você a olhar para dimensões da sua saúde que talvez estejam esquecidas.
Porque cuidar de si não deveria ser apenas uma estratégia para conseguir cuidar melhor dos outros.
Você merece esse cuidado por ser quem é. Não apenas por tudo o que faz.








