Pare de repetir dez vezes a mesma coisa para seu filho. Sim, existe outro jeito


Vanessa Brandão
por: Vanessa Brandão
Comunicadora, educadora parental, mentora de mulheres e fundadora da Comunidade Família em Pauta. Mãe de Theodoro e Valentin.

Tem uma cena que provavelmente acontece na sua casa mais vezes do que você gostaria. Você pede para seu filho guardar os brinquedos, ir tomar banho, colocar o pijama ou desligar a televisão. Ele continua fazendo o que estava fazendo, como se você não tivesse falado nada. Você espera um pouco, repete. Mais alguns minutos e repete de novo. Na terceira ou quarta vez, a voz já muda de tom e aquela frase tão conhecida começa a aparecer: “Quantas vezes eu vou precisar pedir a mesma coisa?”

Quando isso acontece repetidamente, é muito fácil concluir que seu filho não está ouvindo, não está prestando atenção ou, pior, que está simplesmente escolhendo não obedecer. Só que existe um caminho entre aquilo que o adulto fala e aquilo que a criança efetivamente consegue fazer, e entender esse caminho muda bastante a maneira como lidamos com essas situações tão comuns da rotina.

Ouvir uma orientação não significa necessariamente que a criança conseguiu compreender o que foi pedido, guardar aquela informação e transformá-la em uma ação. Dependendo da idade e do desenvolvimento, algumas dessas habilidades ainda estão sendo construídas e precisam de tempo, repetição e, muitas vezes, da ajuda do adulto para acontecer.

Isso não significa que toda vez que uma criança não faz o que foi pedido devemos pensar que ela não consegue. Em algumas situações, ela simplesmente não quer fazer naquele momento, pode estar muito envolvida em outra atividade ou pode precisar de uma orientação mais clara para conseguir mudar de tarefa. O importante é não transformar automaticamente toda falta de resposta em desobediência, porque antes de corrigir o comportamento precisamos compreender o que está acontecendo naquela situação.

Pense, por exemplo, em uma criança que está completamente envolvida em uma brincadeira e escuta de longe: “Vamos tomar banho!”. Para nós, parece uma instrução simples. Para ela, existe uma série de ações envolvidas nessa mudança: compreender o que foi pedido, organizar o que precisa fazer e iniciar uma nova atividade. Quando olhamos dessa maneira, fica mais fácil entender por que, em algumas situações, repetir a mesma frase dez vezes não produz o resultado que esperamos.

É aí que a educação parental pode nos ajudar. Em vez de aumentar o volume da voz a cada tentativa ou transformar o pedido em uma disputa, podemos aprender a dar à criança condições melhores para ouvir, compreender e agir.

Uma das coisas que mais interfere nessa comunicação é a forma como fazemos o pedido. Nós, adultos, costumamos falar enquanto fazemos outras coisas, damos várias orientações de uma vez e, muitas vezes, usamos frases que fazem sentido para nós, mas não são tão objetivas para uma criança.

“Vai se arrumar porque estamos atrasados, pega sua mochila, coloca o tênis, escova os dentes e vê se não esquece a garrafinha.”

Parece uma orientação só, mas são várias informações que a criança precisa processar e organizar. Dependendo da idade, pode ser muito mais eficiente dividir essa sequência e ajudá-la a saber qual é o próximo passo.

Isso também vale para situações em que temos certeza de que nosso filho já sabe fazer determinada coisa. Saber fazer não significa conseguir fazer sempre, em qualquer circunstância e sem nenhum apoio. A autonomia vai sendo construída justamente nessas pequenas oportunidades do cotidiano, quando a criança começa a assumir responsabilidades compatíveis com seu desenvolvimento e o adulto deixa de fazer por ela aquilo que já pode aprender a fazer sozinha.

Por isso, antes de repetir pela quinta vez, pode valer a pena mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas “por que ele não faz o que eu pedi?”, experimente observar: ele entendeu exatamente o que eu estou pedindo? A orientação está adequada para a idade? Eu pedi uma coisa de cada vez? Ele sabe por onde começar?

Essas perguntas não servem para transformar toda situação em uma investigação ou para justificar comportamentos inadequados. Elas ajudam a gente a sair do automático e perceber quando estamos diante de uma criança que precisa de um limite, de uma orientação mais clara ou simplesmente de um pouco mais de suporte para conseguir cumprir aquilo que foi pedido.

E existe uma forma bem simples de começar a fazer isso na prática.

Em vez de falar de longe, tente se aproximar e chamar seu filho pelo nome. Quando possível, fique na altura dele e estabeleça um contato antes de fazer o pedido. Só então diga, de maneira clara e objetiva, o que precisa ser feito. Se houver mais de uma etapa, organize uma de cada vez, principalmente quando a criança ainda é pequena.

Em vez de gritar da cozinha “Pedro, vai tomar banho, guarda o brinquedo e coloca o pijama!”, aproxime-se, chame pelo nome e diga: “Pedro, agora vamos guardar os brinquedos.” Depois que essa etapa acontecer, vem a próxima.

Perceba que não estamos falando em falar mais. Estamos falando em comunicar melhor.

Também vale dar à criança algum espaço para processar a informação antes de repetir a orientação. Se ela não começar, em vez de simplesmente aumentar o tom ou repetir a mesma frase, você pode ajudá-la a dar o primeiro passo.

“Agora é hora de guardar os brinquedos. Você quer começar pelos carrinhos ou pelos blocos?”

A escolha não elimina o limite. O limite continua sendo guardar os brinquedos; o que muda é a forma como a criança participa da ação.

Esse é um ponto importante quando falamos em disciplina positiva: cooperação não é a mesma coisa que obediência automática. Nosso objetivo não deveria ser criar uma criança que faça tudo imediatamente porque tem medo da bronca, mas ajudá-la, pouco a pouco, a desenvolver a capacidade de ouvir uma orientação, compreender o que precisa ser feito e participar das responsabilidades da vida em família.

Isso leva tempo. Exige repetição, consistência e, principalmente, expectativas compatíveis com cada fase do desenvolvimento.

Também exige dos adultos um pouco de paciência para perceber que ensinar uma criança a cooperar é diferente de simplesmente cobrar que ela coopere.

Da próxima vez que você se perceber dizendo pela décima vez “eu já falei”, experimente mudar o caminho em vez de apenas aumentar o volume. Aproxime-se, consiga a atenção do seu filho, faça um pedido claro e possível e, quando necessário, ajude-o a dar o primeiro passo.

Entre aquilo que você falou e aquilo que seu filho conseguiu fazer, pode existir muito mais do que uma simples escolha entre obedecer ou não obedecer. E compreender esse caminho pode mudar não apenas a forma como seu filho responde, mas também a maneira como vocês vivem juntos as pequenas situações da rotina.

  • Vanessa Brandão

    Sou comunicadora, educadora parental, mentora de mulheres e fundadora da Comunidade Família em Pauta, um espaço criado para fortalecer mulheres e famílias por meio de encontros, mentorias e conversas sobre maternidade, desenvolvimento feminino e relações familiares. Sou mãe do Theodoro e do Valentin. Foi a maternidade que transformou profundamente a minha vida e deu um novo significado à minha trajetória profissional. Depois de mais de 20 anos atuando na área da comunicação e do marketing, encontrei na Educação Parental a oportunidade de unir minha experiência em comunicação ao propósito de fortalecer mulheres, mães e famílias. Acredito que, para fortalecer uma família, é preciso fortalecer também a mulher que existe além da mãe. É esse olhar que orienta o meu trabalho e a minha escrita: ajudar mulheres a viverem uma maternidade mais consciente, sem abrir mão de quem são. Como palestrante, mentora e colunista, escrevo sobre a mulher que nasce com a maternidade, os desafios das relações familiares e a importância de criar filhos sem deixar de existir como mulher.

Data da postagem: 5 de outubro de 2026

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