Nunca foi tão urgente resgatar o bom e velho papo em torno da mesa


Dra Flavia Oliveira
por: Dra Flavia Oliveira
pediatra e especialista em Medicina do Estilo de Vida, autora de Pediatria 2.0. Atleta e mãe do Lucas e do Pedro

O futuro sempre foi incerto. Mas quem, como eu, já está chegando perto dos 50 anos sabe que existia certa previsibilidade sobre o que nos esperava. Eu, por exemplo, sabia mais ou menos o caminho que precisaria percorrer para fazer Medicina e depois Pediatria. Aliás, sabia que queria ser pediatra desde os quatro anos … vai entender.

Hoje, nossos filhos crescem em um mundo bem diferente.

Algumas profissões que conhecemos deixarão de existir. Outras, que ainda nem sabemos nomear, surgirão. E uma das competências mais importantes para esse futuro será conseguir caminhar quando o caminho ainda não está pronto. Nossos filhos precisarão aprender a lidar com o imprevisível.

Conhecimento continuará sendo importante, mas acumular informação, sozinho, valerá cada vez menos em um mundo no qual uma inteligência artificial consegue acessar, organizar e cruzar uma quantidade de dados impossível para qualquer cérebro humano.

A diferença estará no que fazemos com essa informação:

Saber perguntar, duvidar, checar, identificar vieses, perceber quando uma resposta aparentemente brilhante está errada, relacionar conhecimentos diferentes, mudar de opinião diante de uma evidência melhor. E, principalmente, construir uma conclusão própria.

Preparar uma criança para o futuro passa, portanto, por desenvolver recursos para  um mundo que continuará mudando.

Flexibilidade mental. Autorregulação emocional. Curiosidade. Capacidade de conviver com pessoas que pensam diferente. Tolerância à frustração. Pensamento crítico.

E aqui existe um desafio importante.

Grande parte das escolas ainda trabalha dentro de um modelo construído para uma sociedade muito diferente daquela que nossos filhos encontrarão. Um modelo que, muitas vezes, valoriza encontrar a resposta certa, tirar a nota certa e seguir um caminho previamente desenhado.

Só que o mundo que elas encontrarão provavelmente exigirá muito mais perguntas do que respostas prontas.

E onde se aprende isso?

Também dentro de casa.

Presença é o maior e melhor presente que você pode dar ao seu filho nos dias de hoje.

Lá em casa, o momento do jantar é sagrado: todos à mesa, todos os dias. É o nosso espaço de conversa e de debate. Falamos sobre os assuntos do dia, expomos nossas visões, discordamos e meus filhos são estimulados a explicar por que pensam de determinada maneira.

É o pensamento crítico sendo construído na prática, muito antes de qualquer aula sobre o tema.

É ali também que eles aprendem que podem discordar dos pais, que uma opinião precisa de argumentos e que, diante de uma ideia melhor, mudar de posição não é perder uma discussão.

É amadurecer.

Esse repertório construído em casa, à mesa, no corpo a corpo, nenhuma tecnologia será capaz de oferecer por nós.

Nunca foi tão urgente resgatar o bom e velho papo em torno de uma mesa com a família reunida.

  • Dra Flavia Oliveira

    Médica pediatra e neonatologista, especialista em Medicina do Estilo de Vida. Pós-graduada em Nutrologia, com formação em sono materno-infantil e Coach de Saúde e Comunicação, integra os cinco pilares da medicina do estilo de vida à prática clínica. É autora de Pediatria 2.0 e coautora das obras Médicos na Cozinha, Médicos Atletas e Medicina do Estilo de Vida – evidências e práticas para a saúde física e mental.

Data da postagem: 22 de setembro de 2026

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