Crianças estão levando mais tempo para conquistar autonomia na primeira infância


Paula Cabrera
por: Paula Cabrera
Jornalista, apaixonada por contar histórias e conectar pessoas, e mãe da Isabela

Estudo mostra que habilidades como amarrar sapatos, fechar zíper deixaram de ser conquistadas na primeira infância; Brincadeiras, tarefas do cotidiano, convivência em família e contato com a natureza ajudam

Pesquisa americana mostra que as crianças tem demorado mais para conquistar autonomia (Foto: Divulgação)

Na primeira infância, aprender a fechar o próprio zíper, segurar um talher, abrir uma embalagem, guardar os brinquedos ou ajudar a colocar a mesa são tarefas que fazem parte da construção da autonomia. São pequenas conquistas que ensinam a criança a experimentar, tentar, errar e ganhar confiança para fazer de novo, até aprender. O problema é que muitas dessas conquistas estão chegando cada vez mais tarde.

Mais telas, menos habilidades motoras

Um estudo publicado na PubMed Central aponta que crianças estão levando cada vez mais para dominar algumas dessas competências, que só chegam agora na segunda infância. O cenário acompanha mudanças no estilo de vida, com maior presença das telas e menos tempo dedicado a atividades práticas do cotidiano.

Preferência por sapatos mais simples de fechar e mudanças no estilo de vida explicam maior tempo para conquistas (foto: divulgação)

Quando o espaço de brincar, correr, desenhar, montar, manipular objetos, participar das tarefas de casa ou simplesmente explorar o ambiente é tomado por outras atividades, a criança também perde oportunidades de exercitar habilidades importantes para conquistar autonomia.

“Tudo isso depende de experiências, tudo isso depende de atividades no mundo real. Se a criança não é exposta a esse tipo de atividade, se ela não brinca, se ela não manipula os brinquedos da casa, se ela não participa das atividades, das tarefas da casa, minimamente, cada um de acordo com a sua idade, isso vai fazendo falta para o desenvolvimento”, afirma o pediatra e especialista em infância Daniel Becker.

Crianças precisam voltar a serem desafiadas

A participação das crianças na rotina doméstica pode ser uma maneira simples de estimular essas conquistas. Uma criança de dois anos pode ajudar a guardar os próprios brinquedos. Aos cinco, pode colaborar para organizar suas roupas, regar uma planta ou participar de pequenas tarefas. Conforme cresce, pode ajudar a cuidar do animal de estimação, colocar a mesa ou participar do preparo de uma refeição.

“Nos últimos anos, observamos mudanças importantes na infância. Muitas atividades manuais foram substituídas por experiências mais passivas. Sapatos sem cadarço, roupas mais fáceis de vestir, telas ocupando parte significativa do tempo livre e uma rotina cada vez mais acelerada acabaram reduzindo oportunidades valiosas de treino motor. Isso não significa que a tecnologia seja a vilã, mas nos obriga a refletir sobre aquilo que estamos deixando de oferecer às crianças”, explica Luciana Mantero, neuropsicóloga e especialista em desenvolvimento infantil.

Essas atividades ainda envolvem movimentos que fazem parte do desenvolvimento motor. Abrir uma embalagem, usar uma colher, encaixar peças, desenhar, recortar, vestir uma roupa ou amarrar o cadarço exigem diferentes níveis de coordenação e precisão. Já correr, pular, subir, equilibrar-se e brincar de bola colocam o corpo inteiro em movimento.

(foto: It Mãe)

Tédio e tempo para explorar. Seu filho tem isso?

É justamente por isso que recuperar o espaço da brincadeira livre na rotina pode fazer diferença. Em vez de preencher o tempo da criança com atividades dirigidas ou deixar que a tela ocupe os momentos de espera e tédio, a proposta é permitir que ela explore, invente e descubra o que consegue fazer.

“Nem toda atividade precisa ter uma finalidade pedagógica. Crianças precisam também de tempo para inventar jogos, explorar ambientes, brincar com outras crianças e descobrir o que conseguem fazer”, afirma Daniel Becker.

Crianças precisam de ociosidade para aprender a usar a imaginação e vencer o tédio (foto: divulgação)

Parques, praças, quintais, clubes, praias e outros espaços ao ar livre oferecem oportunidades para movimento e interação. Em casa, brinquedos que podem ser manipulados, livros, desenhos, construções e brincadeiras compartilhadas com os pais também ajudam a ampliar esse repertório.

“Levar as crianças para brincar, para interagir com outras crianças, para a escola, para o parque, para o clube, para a praia, enfim, para brincar em casa, brincar com os amigos, brincar com brinquedos reais, brincar na natureza, isso tudo é o que promove o melhor desenvolvimento e vai para os melhores resultados em habilidades, desde habilidades de coordenação motora até habilidades interpessoais, habilidades para a vida”, diz Becker.

Para Becker, é preciso oferecer às crianças um cotidiano rico em experiências reais. “Principalmente oferecer o melhor mundo real possível”, resume.

No fim, favorecer o desenvolvimento infantil não exige criar uma infância perfeita ou preencher cada minuto do dia com atividades. Muitas vezes, significa justamente abrir espaço para que a criança fique entediada, invente uma brincadeira, ajude em casa, explore a natureza, conviva com outras pessoas e descubra, pouco a pouco, aquilo que já consegue fazer sozinha. É nesses pequenos momentos que a autonomia começa a ser construída. “A autonomia não nasce pronta. Ela é construída nos pequenos desafios do cotidiano”, diz Luciana.

  • Paula Cabrera

    Jornalista, apaixonada por contar histórias e conectar pessoas, e mãe da Isabela

Data da postagem: 2 de outubro de 2026

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