Quando a casa do papai é mais legal


Sonia Portes
por: Sonia Portes
Mestre em Psicologia pela PUC-SP. Mãe do Vini. CEO da Jornada da Mãe Solo e do Mãe Solo Summit. Especialista em maternidade no divórcio.
(foto: 123TRF)

O divórcio muda a geografia da família, mas também transforma silenciosamente a experiência da maternidade. A casa que durante anos foi organizada em torno da presença dos filhos passa a conhecer intervalos de silêncio. Um espaço se abre no guarda-roupa, a cama permanece arrumada por mais tempo e determinados dias deixam de ser preenchidos pelas vozes, pelos pedidos e pelas pequenas interrupções que antes faziam parte da rotina.

Os filhos continuam pertencendo àquela história, mas agora também vivem em outro lugar.

Essa é uma das dores menos faladas do divórcio com filhos. A mãe precisa aprender a conviver com uma ausência que não representa abandono, mas que ainda assim pode doer. É possível compreender que o filho precisa conviver com o pai e, ao mesmo tempo, sentir um vazio difícil de explicar quando ele não está em casa.

Então começa a chegar a hora de ele voltar.

Você cuida do jantar, ajeita o quarto, separa os livros de história e prepara aquilo que sabe que ele gosta de comer. Aos poucos, a casa volta a se preparar para recebê-lo e, junto com a chegada, retorna aquela sensação conhecida de ter o filho novamente por perto.

Mas, quando a hora da chegada está bem próxima, você recebe uma mensagem:

“Mamãe, hoje eu quero ficar um pouco mais na casa do papai.”

A frase pode ser simples para quem a diz, mas nem sempre é simples para quem a escuta.

Quando os filhos estão na casa do pai, as preocupações costumam acompanhar essa ausência. A mãe se pergunta se está tudo bem, se a criança está sendo bem cuidada e se precisa de alguma coisa. Mas, entre as preocupações legítimas, existe outra pergunta que muitas mulheres carregam em silêncio: e se ele gostar mais de ficar lá do que aqui?

Depois do divórcio, os filhos passam a construir experiências em uma casa da qual não participamos. E aprender a aceitar que parte da vida deles acontecerá longe dos nossos olhos nem sempre é simples. Para algumas mães, a ideia de que o filho possa estar tão feliz em outro lugar pode tocar diretamente uma insegurança profunda: a de não sermos suficientes.

Mas poucas frases são capazes de tocar tão diretamente essa insegurança quanto ouvir: “A casa do papai é mais legal”.

A mãe pode imaginar que, na outra casa, tudo é permitido, enquanto ela ficou responsável pela parte menos divertida da maternidade: os horários, as tarefas, a rotina e os limites. Pode sentir que se tornou a mãe chata, enquanto o pai ocupa o lugar daquele que proporciona diversão e experiências mais leves.

Em alguns casos, surge até a sensação de que existe uma competição silenciosa. Mas, antes de transformar a frase em uma disputa, talvez seja importante perguntar: o que, de fato, está acontecendo com a criança e o que essa situação está despertando em mim?

Porque, muitas vezes, aquilo que mais machuca não é a frase em si, mas a dor que ela encontra.

Ouvir que a casa do pai é mais legal pode tocar sentimentos de rejeição, exclusão e perda. Pode lembrar uma família que um dia existiu sob o mesmo teto e que agora precisa aprender a funcionar em duas casas. Por isso, antes de responder ao filho, talvez a primeira conversa que essa mãe precise ter seja consigo mesma.

É importante reconhecer que a dor existe sem transformá-la em uma responsabilidade da criança. Quando um filho diz que quer permanecer mais tempo na casa do pai, isso não significa, necessariamente, que ama menos a mãe. Ele pode simplesmente estar se divertindo, sentindo saudades ou desejando aproveitar mais aquele momento.

Da mesma forma, haverá dias em que a sua casa, a sua rotina e, principalmente, o seu colo serão o lugar onde ele mais desejará estar.

O amor de um filho não funciona como uma competição em que a felicidade com um dos pais representa uma perda para o outro. Uma criança pode amar profundamente o pai e a mãe e ser feliz nos dois lugares. Ela não deveria precisar esconder sua alegria ou medir suas palavras para proteger as fragilidades emocionais de nenhum dos pais.

Essa talvez seja uma das tarefas mais delicadas do divórcio com filhos: aprender a reconhecer as nossas próprias dores para que elas não sejam colocadas sobre os ombros das crianças. Isso não significa não sentir. Significa compreender que aquilo que sentimos nem sempre é uma tradução exata daquilo que o filho está vivendo.

Quando a casa do papai é mais legal, talvez não seja necessário competir para que a casa da mamãe também seja. Talvez o mais importante seja continuar construindo um lugar onde o filho se sinta amado, seguro, acolhido e livre para viver plenamente a relação que tem com cada um dos seus pais.

Haverá dias em que ele vai preferir estar lá. E haverá outros em que nada parecerá melhor do que voltar para casa e encontrar você.

Talvez essa seja uma das aprendizagens mais difíceis do divórcio: compreender que o filho pode ser feliz longe dos nossos olhos sem que isso signifique que nos ama menos.

O amor de um filho não precisa escolher uma casa para continuar inteiro.

  • Sonia Portes

    Psicóloga, Mestre em Psicologia pela PUC-SP, especialista em maternidade no divórcio e escritora. Atua há mais de 20 anos na Psicologia, dedicando sua carreira ao acolhimento e ao desenvolvimento de mulheres que enfrentam os desafios da maternidade após a separação. É CEO da Jornada da Mãe Solo e idealizadora do Mãe Solo Summit, iniciativa que reúne especialistas para discutir os impactos do divórcio na vida de mães e filhos. Também é organizadora da antologia O que contamos aos nossos filhos e autora da coleção infantil O Mundo de Tina, que, por meio de histórias sensíveis, convida crianças e famílias a refletirem sobre desigualdade de gênero, respeito, empatia e relações mais saudáveis. Mãe do Vini, une conhecimento científico, experiência clínica e vivência pessoal para ajudar mães a protegerem a saúde emocional dos filhos, reconstruírem a autoestima e fortalecerem seus vínculos familiares. Sua missão é fazer com que os filhos do divórcio cresçam acreditando que são fruto do amor, e não da dor.

Data da postagem: 3 de setembro de 2026

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