Uma decisão não precisa ter sido errada para deixar de ser certa
Há quase dois meses, eu saí do mundo corporativo depois de 20 anos trabalhando praticamente sem parar. Desde então, algumas pessoas me perguntam se estou com saudade. Outras perguntam se agora, com mais tempo em casa, eu olho para trás e penso que deveria ter feito isso antes.
A resposta para as duas perguntas é: não.
Não estou com saudade da rotina corporativa. E também não me arrependo nem um pouco de ter vivido aquela rotina durante duas décadas. Talvez essa seja uma das coisas mais libertadoras que tenho aprendido neste sabático: uma decisão não precisa ter sido errada para deixar de ser a decisão certa.
Eu amei trabalhar. Amei construir minha carreira, crescer, liderar times, viajar, estudar, ganhar dinheiro, perseguir objetivos difíceis, entrar em reuniões importantes, resolver problemas cabeludos e sentir aquela satisfação quase infantil de olhar para alguma coisa e pensar: fui eu que construí isso. Tive cinco filhos no meio dessa história e voltei cinco vezes de licença-maternidade. Houve períodos absolutamente insanos. Agenda espremida, culpa, logística digna de operação militar, noites mal dormidas, avião, reunião, criança doente, apresentação, mamadeira, conference call.
Foi puxado? Muito. Eu faria tudo diferente se pudesse voltar? Não.
Porque aquela mulher não estava enganada. Ela estava fazendo escolhas coerentes com quem era, com o que queria construir e com aquilo de que sua família precisava naquele momento.
E talvez seja aí que a conversa sobre maternidade e carreira fique desnecessariamente cruel. Parece que precisamos escolher não apenas o que fazer, mas também qual lado estava certo o tempo todo. Como se a mãe que decide desacelerar precisasse demonizar a ambição. Como se a mulher que ama trabalhar precisasse provar que não sente falta dos filhos. Como se toda mudança de rota exigisse uma tese explicando por que a estrada anterior estava errada.
Não exige.
Hoje, minha vida pede outra coisa de mim. Meus filhos estão em outras fases. Eu estou em outra fase. Minha família mudou. Minhas ambições também mudaram, e isso não significa que diminuíram. Talvez tenham ficado até maiores, mas ganharam outros formatos, outros prazos e outras definições de sucesso.
Por isso, não gosto muito da narrativa da mulher que “largou tudo”. Eu não larguei tudo. Trouxe tudo comigo.
Trouxe 20 anos de repertório, cicatrizes, relações, competência, erros, promoções, tombos, coragem, dinheiro ganho, dinheiro perdido, chefes maravilhosos, chefes nem tanto, decisões acertadas e algumas completamente questionáveis. Nada disso desaparece porque hoje meu calendário tem muito mais espaço para meus filhos do que tinha há alguns meses.
Da mesma forma, não gosto de romantizar a pausa. Sabático não me transformou numa criatura iluminada que acorda ouvindo passarinhos, prepara panquecas e finalmente descobriu “o que realmente importa”. Pelo amor de Deus. Continuo gostando de trabalhar. Continuo cheia de ideias. Continuo querendo construir coisas grandes. Só não tenho, neste momento, nenhuma urgência de voltar para a vida exatamente como ela era.
E talvez o ponto seja justamente esse: nem toda pausa é desistência. Às vezes, é capacidade de perceber que as condições mudaram e ter coragem suficiente para mudar com elas. Existe muita coragem em insistir. Passei boa parte da vida profissional defendendo isso e continuo defendendo. Disciplina, resiliência, constância e capacidade de atravessar fases difíceis importam demais. Não acredito numa vida em que qualquer desconforto vira sinal para abandonar o barco.
Mas existe coragem também em recalcular a rota. E maturidade é saber a diferença entre estar atravessando uma subida difícil e continuar escalando uma montanha que já não faz sentido para você.
Talvez por isso eu esteja menos interessada, hoje, em perguntar às mulheres se pretendem continuar trabalhando, parar, voltar, empreender, desacelerar ou acelerar. A pergunta que me interessa é outra: o que esta fase da sua vida está pedindo? O que faz sentido agora? E depois vem uma outra pergunta, talvez ainda mais difícil: você tem coragem de ouvir a resposta mesmo que ela seja diferente da resposta que deu cinco anos atrás?
Porque a vida muda. Os filhos mudam. Casamentos atravessam fases. Carreiras são dinâmicas. Nossa situação financeira muda. Nosso corpo muda. Nossas prioridades mudam. Nós mudamos. Não deveríamos exigir que decisões tomadas por pessoas em movimento fossem permanentes.
Daqui a alguns anos, posso estar novamente trabalhando em uma empresa, com agenda lotada, viajando e absolutamente feliz. Posso estar construindo meu próprio negócio. Posso estar fazendo alguma coisa que hoje nem consigo imaginar. E, se um dia eu calçar novamente aquele tênis corporativo e voltar a correr uma estrada parecida, isso também não transformará este sabático em erro. Talvez eu simplesmente percorra a mesma estrada com outros tênis.
Tenho pensado muito que a vida premia os corajosos. Mas coragem não é apenas acelerar quando todo mundo manda parar. Às vezes, é parar quando todo mundo espera que você continue. Eu tenho orgulho da executiva que fui durante vinte anos. Tenho orgulho da mãe que trabalhou enquanto criava cinco filhos. E estou gostando muito da mulher que, hoje, pode estar mais presente em casa e descobrir com calma qual será seu próximo capítulo.
Nenhuma delas precisa estar errada para que a próxima possa estar certa. Talvez uma vida bem vivida não seja aquela em que encontramos cedo a fórmula perfeita e passamos décadas obedecendo. Talvez seja aquela em que prestamos atenção suficiente para perceber quando a fase mudou. E mudamos junto.
Sem culpa. Sem vitimismo. Sem precisar transformar o capítulo anterior em vilão. Só com a humildade de entender que a decisão certa de ontem cumpriu seu papel.








