Medicação para obesidade na infância e adolescência. O que muda em casa?


Amanda Figueiredo
por: Amanda Figueiredo
Amanda Figueiredo (@nutriamandafig) é nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar.

Desde 2023, a Anvisa libera o uso da semaglutida para tratamento de obesidade a partir dos 12 anos, e o assunto ganhou espaço até nas conversas sobre saúde pediátrica. Diante disso, é preciso reforçar que a medicação sozinha não resolve o problema. Como nutricionista, entendo que o que continua acontecendo dentro de casa depois que ela é prescrita é o que determina o resultado a médio e a longo prazo.

O tema não é exagero nem modismo. O Brasil já soma mais de 1,1 milhão de crianças de 0 a 9 anos com obesidade, segundo o Panorama de Obesidade Infantil e Adolescente do Ministério da Saúde, e quase 784 mil delas vivem com obesidade grave. Ao considerar todas as crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos, esse número sobe para 16,5 milhões vivendo com sobrepeso ou obesidade no país, de acordo com o Atlas Mundial da Obesidade 2026. É dentro desse cenário, e não de forma isolada, que a discussão sobre medicação em crianças precisa ser lida.

Como o cérebro da criança lida com fome e saciedade

Na obesidade, especialmente quando ela começa cedo, o cérebro pode regular fome e saciedade de forma diferente. É como se o sinal de já estou satisfeito demorasse mais para aparecer, levando a criança a comer além do necessário antes mesmo de perceber. Medicamentos como a semaglutida atuam nesse sinal, ajudando o corpo a reconhecer a saciedade mais cedo. 

Hoje entendemos a obesidade como uma condição crônica, e isso muda a forma de conduzir o tratamento. Não se trata de uma intervenção temporária até atingir um número na balança, mas, de um cuidado contínuo, como acontece com outras condições crônicas de saúde.

Isso exige uma mudança na forma como a família encara o processo. Sai a ideia de que é preciso emagrecer rápido e entra a construção de uma rotina alimentar consistente e duradoura, que envolve toda a casa, não apenas a criança que recebeu o diagnóstico.

Explicar antes de mudar

A participação da própria criança ou adolescente no tratamento é um dos fatores que mais pesa no resultado, e ainda assim é um dos mais negligenciados nas conversas sobre obesidade infantil. Não adianta a família decidir sozinha que a partir de segunda-feira vamos mudar tudo sem sentar com a criança e explicar, na linguagem dela, porque aquelas mudanças estão acontecendo e o que elas significam para o corpo e para a saúde dela no longo prazo.

Quando a criança entende o motivo por trás de comer em horários mais regulares, de ter menos ultraprocessado em casa ou de se movimentar mais, ela deixa de enxergar essas mudanças como punição e passa a se sentir parte do processo. Já quando tudo é imposto sem explicação, o efeito costuma ser o oposto, gerando resistência, sensação de injustiça e, muitas vezes, um comportamento alimentar mais reativo e escondido, exatamente o contrário do que se busca no tratamento.

Vale lembrar também que carregar excesso de peso na infância ou na adolescência não é apenas uma questão física. É um peso emocional pesado demais para uma criança carregar sozinha. Comentários de colegas, apelidos, dificuldade para participar de brincadeiras ou práticas esportivas, comparações dentro da própria família e até a forma como roupas e produtos infantis são pensados para um padrão de corpo específico, tudo isso se acumula e molda a forma como essa criança enxerga a si mesma muito antes de qualquer intervenção clínica começar. 

Por isso, tratar a obesidade infantil exige uma escuta cuidadosa dessa dimensão emocional, e não apenas ajuste de rotina ou prescrição médica. Uma abordagem que ignora essa questão corre o risco de reforçar vergonha e culpa na fase em que a criança está construindo sua relação com o próprio corpo.

A criança é espelho do que ela vê em casa

Criança nenhuma constrói hábito alimentar sozinha. Ela come o que está na geladeira, no horário que a casa funciona, do jeito que vê os adultos comerem. Se o prato da família é estruturado, ela absorve isso como normal. Se a rotina é de beliscar o dia inteiro, pular refeição, comer na frente da tela ou recorrer a ultraprocessado por praticidade, ela também absorve isso como normal, e nenhuma medicação reverte um ambiente que segue reforçando o padrão todos os dias.

Muitas vezes, o ajuste mais eficaz que proponho não é uma restrição para a criança, mas, uma mudança de postura dos próprios pais à mesa.

A medicação, quando indicada, não funciona isoladamente. Ela é parte de um conjunto de estratégias que inclui alimentação estruturada, acompanhamento psicológico e incentivo ao movimento de forma leve e prazerosa, nunca punitiva. 

O que sustenta o resultado de longo prazo é a rotina alimentar da casa, não o composto ativo de um medicamento. Quando uma criança recebe tratamento, mas, volta todos os dias para o mesmo ambiente alimentar que ajudou a construir o quadro de obesidade, o efeito tende a ser parcial e muitas vezes não se sustenta quando o tratamento é interrompido.

Como ajudar dentro de casa

Como nutricionista, a mudança que mais vejo sustentar resultado ao longo do tempo não é uma dieta restritiva imposta à criança, mas, um ajuste na rotina de toda a família. Separo abaixo os pontos que costumo priorizar com meus pacientes.

Horários de refeição fixos

Estruturar horários de refeição fixos ajuda o corpo da criança a reconhecer melhor os próprios sinais de fome e saciedade, em vez de comer de forma fragmentada ao longo do dia por acesso livre a lanches.

Comida de verdade nas refeições principais

Priorizar comida de verdade, com proteína, fibra e boa densidade nutricional, sustenta a saciedade de forma muito mais eficiente do que qualquer suplemento ou produto industrializado voltado ao público infantil.

Menos ultraprocessados dentro de casa

Reduzir a presença de ultraprocessados e bebidas açucaradas no ambiente doméstico funciona muito melhor do que tentar restringir apenas o que a criança come fora, já que é a casa que realmente molda o hábito no dia a dia.

Envolver a criança no preparo das refeições

Pais, tragam as crianças para a cozinha. Ajudar no preparo da comida, mesmo que de forma simples, tende a aumentar a aceitação de alimentos variados e a construir uma relação mais tranquila com a comida, longe da lógica de proibição.

A mudança precisa ser da família toda

Toda mudança de hábito precisa ser da família toda, e não apenas da criança com sobrepeso, porque nenhuma criança sustenta uma mudança que os adultos ao redor dela não sustentam também.

  • Amanda Figueiredo

    Nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar. Acredita que trabalhar com nutrição significa poder ajudar quem deseja se alimentar de maneira mais saudável e mostrar os impactos positivos dos bons hábitos. Também pensa que a alimentação saudável não precisa ser sacrificante; ela pode ser criativa e cheia de sabor, principalmente quando a incluímos desde a infância.

Data da postagem: 3 de setembro de 2026

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