Respeito: uma habilidade que se aprende
Tenho feito uma pergunta a mim mesma e que considero importante levar para dentro da maternidade: o que acontece com uma criança quando ela é desrespeitada diante de outras pessoas?
Não estou falando apenas de situações extremas. Falo também daqueles comentários que parecem brincadeira, das comparações feitas em voz alta, das críticas sobre o jeito de ser, do constrangimento provocado diante dos outros, da exposição de uma dificuldade ou de uma característica da criança como se ela não estivesse ali.
Nós, adultos, sabemos que algumas palavras podem atravessar a gente de um jeito muito profundo. Sabemos o que é ouvir algo que machuca, sentir a raiva subir, o corpo ficar tenso e a vontade imediata de responder aparecer. Também sabemos que nem sempre podemos ou queremos reagir naquele instante. Às vezes escolhemos o silêncio para preservar uma relação, evitar um conflito ou simplesmente porque precisamos de tempo para entender o que sentimos antes de decidir o que fazer com aquilo.
Esse espaço entre sentir e reagir é uma habilidade que construímos ao longo da vida.
Uma criança ainda está aprendendo a construir esse espaço.
Diante de uma situação em que é diminuída, ridicularizada, exposta ou desconsiderada, ela pode chorar, gritar, se fechar, responder de maneira agressiva ou ter uma reação que, aos olhos do adulto, parece desproporcional. E é justamente nesse momento que precisamos lembrar de uma coisa muito importante: uma criança não deixa de sentir porque ainda não sabe expressar o que sente de uma maneira socialmente adequada.
Ela pode não conseguir dizer: “O que você falou me constrangeu e eu não gostei da maneira como fui tratado”. Pode simplesmente chorar, ficar brava, bater a porta ou dizer que odeia aquela pessoa.
O comportamento aparece onde ainda faltam palavras e recursos para elaborar a experiência.
Isso não significa que precisamos aceitar qualquer comportamento. Crianças também precisam aprender que podem sentir raiva sem machucar, se indignar sem humilhar, colocar limites sem agredir. Mas existe uma diferença enorme entre corrigir o comportamento e desconsiderar o sentimento que deu origem a ele.
Uma criança que reage mal depois de ser desrespeitada precisa de ajuda para compreender o que aconteceu, sem aprender que a maneira como reagiu apaga ou invalida aquilo que sentiu.
Podemos dizer: “Eu entendo que você ficou muito bravo. O que aconteceu não foi legal para você. Mas você não pode bater”.
Essa conversa ensina duas coisas ao mesmo tempo: que os sentimentos têm lugar e que os comportamentos têm limites.
E existe ainda uma outra questão que considero fundamental: a criança aprende muito mais sobre respeito observando como é tratada do que ouvindo adultos falando sobre respeito.
Se queremos que nossos filhos respeitem os outros, precisamos mostrar que respeito não significa apenas obedecer, falar baixo ou não interromper. Respeito também é não constranger, não ridicularizar, não expor uma vulnerabilidade, não usar aquilo que sabemos sobre alguém para diminuí-lo.
E isso vale especialmente para as crianças.
Existe uma tendência a acreditar que, por serem crianças, elas precisam aprender a “não ligar”, “deixar para lá” ou “entender que foi brincadeira”. Só que aquilo que para um adulto parece pequeno pode ocupar um espaço enorme dentro de uma criança, justamente porque ela ainda está formando a própria percepção sobre quem é.
Repetir para uma criança que ela é exagerada, difícil, chorona, tímida, desajeitada, preguiçosa ou qualquer outro rótulo não é apenas descrever um comportamento. Estamos ajudando a construir a maneira como ela passa a enxergar a si mesma.
Por isso, respeito na infância não é apenas uma regra de convivência. É também uma forma de proteger a construção da identidade.
Isso não significa criar crianças frágeis, que não suportam frustrações ou que acreditam que ninguém pode contrariá-las. Pelo contrário. Uma criança emocionalmente segura precisa aprender a lidar com frustração, críticas, conflitos e diferenças. Precisa descobrir que o mundo nem sempre vai tratá-la como gostaria e que ela não terá controle sobre aquilo que os outros dizem ou fazem.
Ao mesmo tempo, ela precisa saber reconhecer quando algo ultrapassa um limite. Precisa saber que pode pedir ajuda, dizer “eu não gostei”, se afastar e que não precisa aceitar uma situação humilhante para ser considerada educada.
Acredito que uma das maiores responsabilidades dos adultos seja justamente ensinar essa diferença: não precisamos controlar o que os outros fazem para aprender a cuidar de nós diante do que acontece.
E essa aprendizagem começa dentro de casa, na maneira como levamos a sério aquilo que nossos filhos sentem, mesmo sem concordar com a forma como eles expressam, na maneira como usamos nossa autoridade sem constrangê-los e na nossa capacidade de pedir desculpas depois de errar. Também está presente na forma como colocamos limites sem diminuir o outro.
E, principalmente, começa em nós.
A maneira como lidamos com o desrespeito que recebemos, com a nossa própria raiva, com os nossos limites e com os conflitos é observada pelos nossos filhos, mesmo quando acreditamos que eles não estão prestando atenção.
Educar emocionalmente uma criança não é ensinar a ela a nunca se sentir ferida.
É ajudá-la a reconhecer quando algo dói, entender o que aquela experiência provoca dentro dela e, pouco a pouco, desenvolver recursos para se posicionar sem precisar deixar de ser quem é.
Respeito não é ausência de conflito. É a maneira como escolhemos atravessá-lo sem retirar do outro a sua dignidade.
Nossos filhos precisam aprender conosco que podem ser firmes sem serem agressivos, que podem discordar sem humilhar, que podem colocar limites sem ferir e, principalmente, que nenhuma relação precisa exigir que eles diminuam a si mesmos para que o outro se sinta maior.
Uma criança que aprende que merece respeito também começa a entender que respeitar o outro nunca deveria significar desrespeitar a si mesma.








