O cardápio kids e o momento em que a comida de criança deixou de ser de verdade


Amanda Figueiredo
por: Amanda Figueiredo
Amanda Figueiredo (@nutriamandafig) é nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar.

Há uma inversão acontecendo nos restaurantes, nas prateleiras, nas embalagens coloridas e nos comerciais que interrompem os desenhos animados. As frituras, os fast food, os ultraprocessados e as bebidas açucaradas se tornaram sinônimo de infância. Enquanto isso, frutas, legumes e alimentos naturais foram empurrados para outra categoria, a do sacrifício, da dieta, do que se come quando já se é adulto e precisa cuidar da saúde.

Pensei com mais profundidade sobre esse assunto ao reparar, em mais de um cardápio de restaurante, que o menu kids trazia sempre as mesmas opções. Tirinhas de frango frito, mini-hambúrguer, batata frita, batata smile e peixe à milanesa. Nenhuma verdura, nenhuma fruta, nenhuma proteína preparada de forma simples, apenas variações do mesmo padrão frito e industrializado, como se a infância só coubesse dentro dessa única categoria de sabor.

Essa inversão é fruto de décadas de marketing dirigido especificamente ao público infantil, personagens estampados em caixas de cereal açucarado, brindes que transformam o pedido de fast food em experiência lúdica, embalagens que prometem diversão antes de nutrição. Enquanto isso, o brócolis, a cenoura e a maçã raramente ganham essa mesma narrativa emocional. Como resultado, a criança aprende desde cedo a associar prazer e pertencimento a um tipo de comida, e obrigação ou punição ao outro.

Essa associação não nasce da criança, ela é construída ao redor dela. Nenhum bebê nasce recusando a abóbora e pedindo nugget. É o ambiente, repetido dia após dia, que ensina o que é gostoso e o que é chato, o que é prêmio e o que é obrigação.

Quando o cardápio kids reforça essa mensagem à mesa de um restaurante, e a propaganda reforça em casa, na televisão e no celular, cria-se um cerco quase completo em torno da criança. Todos os estímulos apontam na mesma direção, a de que comida de verdade é secundária, e o ultraprocessado é a regra.

A infância como janela de formação

A infância é o período mais sensível para a formação do paladar e dos hábitos alimentares que acompanharão a pessoa por toda a vida adulta. As papilas gustativas, as preferências e até a relação emocional com a comida se moldam nos primeiros anos, e o que é oferecido com constância nesse período tende a se tornar referência de conforto e normalidade. Uma criança exposta repetidamente a sabores naturais, com variedade, tende a aceitar melhor esses alimentos ao longo da vida. Mas, o inverso também é verdadeiro. Quando o ultraprocessado se torna rotina, ele se instala como preferência difícil de reverter depois.

Isso não significa demonizar toda exceção ou tornar a alimentação infantil um território de rigidez. Significa reconhecer que a criança merece comida de verdade como base, não como recompensa ocasional.

Reconstruir a relação com a comida, em qualquer fase da vida

Se essa reflexão faz sentido para você, seja como mãe, pai ou alguém que está repensando a própria relação com a comida, o momento de agir é agora. Reconstruir hábitos alimentares, tanto os da criança quanto os nossos próprios, começa na forma como enxergamos a comida dentro de casa.

Se o adulto trata a alimentação saudável como fardo, como algo que se faz porque precisa e não porque faz bem, a criança absorve essa mensagem antes mesmo de entender uma palavra sobre nutrição. Os hábitos alimentares não se ensinam apenas pelo que se coloca no prato, mas, por tudo que se comunica ao redor dele. O tom de voz ao oferecer um vegetal, a expressão de alívio ao ceder ao pedido de fast food, a naturalidade ou a culpa com que se fala sobre comida à mesa.

Talvez, o primeiro passo seja reparar em pequenos gestos. O que está no cardápio da semana, o que se oferece como recompensa, o que se chama de comida boa e o que se chama de dieta dentro da própria casa. Essas escolhas, repetidas ao longo dos anos, constroem a relação que uma criança terá com a comida quando adulta.

Por isso, vale ter disposição para observar com mais atenção o que tem sido normalizado à mesa e coragem para questionar por que aceitamos, sem estranhar, que o de criança virou sinônimo de industrializado, e o de adulto virou sinônimo de privação. 

Uma dica que gosto de dar para os pais é envolver a criança no preparo das refeições, mesmo que de forma simples. Deixar que ela lave uma fruta, misture uma salada ou escolha entre dois legumes no mercado cria familiaridade e curiosidade, dois ingredientes essenciais para a aceitação alimentar.

E, claro, questione o cardápio kids antes de aceitá-lo como padrão. Pedir uma proteína grelhada em vez da versão empanada ou dividir um prato de adulto em porções menores são gestos pequenos que, repetidos ao longo dos anos, ensinam à criança que comida de verdade também pode, e deve, ser dela.

  • Amanda Figueiredo

    Nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar. Acredita que trabalhar com nutrição significa poder ajudar quem deseja se alimentar de maneira mais saudável e mostrar os impactos positivos dos bons hábitos. Também pensa que a alimentação saudável não precisa ser sacrificante; ela pode ser criativa e cheia de sabor, principalmente quando a incluímos desde a infância.

Data da postagem: 22 de julho de 2026

Tags: , , ,

Vale a pena dar uma olhada na minha seleção de produtos incríveis e
serviços que facilitam sua vida de mãe ;)