O que as crianças aprendem antes de escolherem a própria roupa
Outro dia me peguei observando uma cena muito comum: uma mãe tentava convencer a filha a trocar de roupa antes de sair. “Essa está feia”, “essa não combina”, “vai colocar aquela que fica mais bonita”. A menina insistia que queria sair exatamente do jeito que estava.
Não havia certo ou errado naquela situação, faz parte da rotina de qualquer família. Mas ela me fez pensar em uma questão que poucas vezes discutimos: antes de aprender a se vestir, uma criança está aprendendo como se percebe.
É comum associarmos a relação com a imagem à adolescência. Pensamos nas inseguranças, nas comparações, nas amizades, na influência das redes sociais. Mas, quando esse momento chega, a construção da autoimagem já começou há muito tempo.
Autoimagem não é apenas gostar ou não do próprio corpo. Também não é sinônimo de autoestima. Ela é a percepção que desenvolvemos sobre quem somos. A maneira como entendemos nosso valor, nossas capacidades, nossas características e a forma como acreditamos que ocupamos espaço no mundo.
Essa percepção vai sendo construída nas experiências mais simples da infância. Quando uma criança cai e um adulto reage com paciência, ela aprende uma coisa. Quando o erro sempre vem acompanhado de crítica, aprende outra.
Quando suas emoções encontram acolhimento, constrói uma referência sobre si. Quando precisa escondê-las para não decepcionar os adultos, constrói outra.
Os elogios sempre aparecem quando a criança está “linda”, mas quase nunca quando ela demonstra coragem, curiosidade ou generosidade.
A infância é feita justamente de repetições. E são elas que ajudam a formar as primeiras referências sobre quem somos.
Anos depois, essas referências continuam aparecendo, mesmo que de maneiras diferentes.
No meu trabalho, raramente encontro mulheres que tenham dificuldade apenas para escolher roupas. Encontro mulheres que evitam determinadas peças porque aprenderam, ainda pequenas, que era melhor não chamar atenção, ou outras que sentem culpa ao investir em si mesmas porque cresceram acreditando que cuidar da própria aparência era sinal de vaidade.
Algumas não conseguem reconhecer a própria beleza, mesmo quando todos ao redor a enxergam. E ainda tem as que mudam o cabelo, compram roupas novas, seguem tendências, mas continuam sentindo que nenhuma imagem parece realmente representá-las.
Roupa não cria autoimagem. Ela expressa, reforça ou, às vezes, tenta compensar a forma como a pessoa se enxerga.
Por isso acredito que um dos maiores presentes que podemos oferecer às crianças não é ensinar a combinar cores ou escolher boas roupas, e sim ajudá-las a construir uma relação saudável consigo mesmas.
Isso passa por permitir que experimentem, que façam escolhas compatíveis com a idade, que descubram seus gostos, que percebam o próprio corpo como um lugar de cuidado e não de julgamento. Também passa pela forma como nós, adultos, nos relacionamos com a nossa própria imagem. A educação da autoimagem acontece todos os dias.
Muito antes de escolher uma roupa, uma criança está aprendendo quem acredita ser. E essa percepção, construída pouco a pouco, costuma acompanhar muitas das escolhas que fará pelo resto da vida.
A idéia não é formar crianças que se achem perfeitas, mas que consigam crescer sem transformar o próprio espelho em um tribunal, assim como muitas de nós já transformamos.








