O óbvio precisa ser dito
Sei que parece lugar comum, mas se na caixa de ovos está escrito contém ovos, é porque o óbvio nem sempre é óbvio. Cada um de nós enxerga a realidade com suas próprias lentes, construídas a partir das experiências de vida de cada um.
Com mais de 20 anos atendendo famílias, percebo falhas de comunicação todos os dias entre adultos, entre adultos e filhos. A mensagem, quando é transmitida (e digo isso porque muitas vezes ela nem é falada, como se o outro pudesse ler pensamentos), raramente chega da forma e com a intenção desejadas.
Entre os adultos, somos ótimas em dizer o que não queremos e péssimas em definir o que queremos. A mãe exausta olha para o companheiro e fica frustrada porque ele não percebeu que ela precisava de ajuda. Ele tenta fazer algo, mas nem sempre atende as expectativas dela. Sei que muitos homens não assumem a paternidade como deveriam, mas também vejo muitas mulheres que não permitem que os pais assumam determinados afazeres, por acharem que não farão do jeito certo. E daí? Querer controlar tudo só nos deixa exaustas e ressentidas. Comunicar o que se quer de verdade, com clareza: é o ponto de partida para construir um caminho que faça sentido para a família inteira.
Com os filhos, o entendimento também falha com frequência. Falamos, damos uma bronca, fazemos um discurso, enquanto a criança acena com a cabeça sem ter entendido metade. Uma dica simples e poderosa: ao conversar com seu filho, peça que ele repita com as próprias palavras o que entendeu. Você vai se surpreender.
Mas comunicar bem exige também, e talvez principalmente, saber escutar. Não aquela escuta que já vai formulando a resposta enquanto o outro fala, mas a que exige, nas palavras de Christian Dunker e Cláudio Thebas, “colocar-se ao mesmo tempo em uma posição muito distante e muito próxima do outro” (O Palhaço e o Psicanalista, 2021). Distante dos próprios julgamentos, que se tornam filtros perigosos. Próxima da pessoa que está falando. É um exercício de suspender nossas lentes por um momento, as mesmas que mencionei no início, para de fato se conectar com o que o outro quer dizer.
Grande parte dos nossos problemas poderia ser resolvida com uma comunicação clara e corajosa. Corajosa porque verbalizar o que sentimos não é fácil. Mas também porque comunicar bem exige treino e constância. Essa escuta verdadeira, presente, sem julgamentos, raramente é natural, pois fomos condicionados a pensar na resposta enquanto o outro ainda fala. Mudar isso é um exercício diário. E vale a pena.








