Que tal fazer menos (em vez de “mais”)?
Eu lutava para cumprir a agenda interminável do dia, com uma pia cheia de louças, o bolo de aniversário do filho assando, até que subiu um cheiro de queimado. Era uma parte do bolo que cresceu tanto a ponto de transbordar da forma. Tentei salvar a receita, transferindo a massa para outra forma. Limpei o forno queimado e, quando só faltava colocar a massa para terminar de assar, derramou tudo dentro da pia.
Meu marido entrou na cozinha, me viu chorando e não entendeu nada.
Como explicar a um homem tão prático que eu estava chorando por não conseguir fazer um bolo que eu nem precisava fazer? Era só comprar, e pronto!
Ou como explicar que o problema do bolo que não coube na forma era só a expressão do tanto de coisas que não cabiam mais na minha vida, mas eu insistia em tentar fazer caber?
Ou como explicar que aquele choro era pelo luto antecipado daquela mulher que eu precisava deixar morrer, pois ela queria dar conta de tudo, mas, visivelmente, não dava.
O mais louco é que, quanto mais eu tentava, mais me esforçava, mais eu fracassava e mais frustrada eu ficava.
Eu queria tanto ser bem-sucedida profissionalmente quanto queria fazer o bolo da festinha de aniversário do meu filho na escola com minhas próprias mãos. Não queria delegar nada em casa, além da faxina.
Queria cuidar da comida, da casa e da roupa; queria estar sempre bem e arrumada; queria ser bem remunerada e reconhecida profissionalmente; e, acima de tudo, queria estar presente para meus filhos. Ah, também queria ser ótima com meu esposo, termos tempo de casal, tempo para curtir nossa cidade, que é uma delícia, e ter encontros com amigas em uma tarde aleatória da semana.
Nossa, planos ambiciosos para uma vida só.
Mas o fato é que eu, uma pessoa tão calma, tão de bem com a vida, que já tinha conquistado paz interior (ao menos era o que eu achava), estava retornando a um padrão antigo: o de querer abraçar o mundo!
Mas a mulher que saiu da cozinha naquele dia ficou realmente para trás. Eu despedi a chefe chata que existia só dentro da minha mente, ditando ordens e regras o tempo todo. E, aliás, eu nunca parecia boa o suficiente para ela.
Compreendi que precisava deixar alguns pratos caírem e, quem diria, depois desse dia, nem doeu mais. Contratamos uma funcionária para cuidar da casa diariamente. Percebo que ela cuida da casa até melhor que eu, afinal é uma profissional que admiro e respeito muito.
E com essa mudança vieram tantas outras que combinam com esse estado de permissão para viver com leveza. Um caminho de amorosidade e gentileza comigo vem sendo construído e lapidado diariamente, desde que a meta de dar conta de tudo foi abandonada.
Hoje faço muito menos do que fazia antes e sou ainda mais valorizada. Pois o nosso valor, aliás, não está e nunca esteve no que fazemos, mas em quem somos.
Basta lembrar da criança que, ao nascer, não produz nada além de fraldas sujas e, ainda assim, nos faz derreter de amor.
Que bom também poder substituir a meta de “ser melhor a cada dia” pela coragem de ser quem sou. Com minhas contradições, confusões, indecisões, mas, acima de tudo, uma mulher inteira.
Compartilhar esse caos de tentar dar conta de tudo aqui hoje com você, querida leitora, faz com que, de alguma forma, nossas histórias se conectem. Esse dilema nem é novo, nem único; é característico da nossa época. Saber que não estamos sozinhas é um bálsamo, não é mesmo?
Se lá atrás me faltaram referências de mulheres que vivem com leveza, com inteireza, é porque o mundo em que vivemos ainda é muito performático. Mas cada mulher carrega em si o dom de transmutar toda essa pressa, correria e cobrança interna pela lembrança de que já somos boas o suficiente.
E você, já viveu ou está vivendo algo semelhante? E, se sim, qual pratinho da sua pilha precisa cair para que você fique apenas com o essencial?
Sabemos o peso que a sociedade nos impõe, mas quem nos ama de verdade não quer mais produtividade. Quer mais presença. Mais inteireza.
E, se nos permitimos ser menos perfeitas e produtivas, e mais presentes para nós e para nossa família, surge uma mulher incrível, eu posso assegurar. Vejo essa transformação acontecendo em mim há anos e vejo minhas pacientes e mentoradas vivendo essa metamorfose também. Um caminho que nos leva de volta a nós mesmas. Por isso é tão potente. Por isso emana tanto amor.
Meu filho, aliás, nem se importou que naquele aniversário não fui eu quem fez o bolo. Raul tinha uma mãe ali, com ele, e isso foi suficiente para o sorriso dele se iluminar – e o meu também.
Por isso essa reflexão, que me provoca desde que o Raul nasceu, é a que sugiro para você, se você também estiver fazendo cada vez mais:
“O que menos eu posso fazer?”
Fernanda Girassol








