A maternidade não vem com manual. E ainda bem


Vanessa Brandão
por: Vanessa Brandão
Comunicadora, educadora parental, mentora de mulheres e fundadora da Comunidade Família em Pauta. Mãe de Theodoro e Valentin.

O maior desafio da maternidade não é encontrar todas as respostas. É aprender a fazer perguntas melhores.

Outro dia me peguei pensando em uma coisa.

Nunca tivemos tanto acesso à informação sobre maternidade e, ao mesmo tempo, nunca vi tantos pais e mães tão inseguros sobre como educar um filho.

A impressão que tenho é que estamos sempre procurando a próxima resposta. Como se, em algum momento, alguém finalmente fosse dizer exatamente o que fazer e, dali para frente, tudo ficasse mais fácil.

Conversando com tantas famílias, percebo que essa busca quase sempre nasce da mesma insegurança: o medo de errar. A maioria dos pais não procura respostas prontas porque não quer pensar. Procura porque ama profundamente os filhos e sente a responsabilidade de educá-los da melhor maneira possível. Quando existe tanto medo de errar, qualquer promessa de uma resposta definitiva parece reconfortante.

Vejo pais que têm medo de dizer “não” e serem duros demais. Outros têm medo de acolher e acabarem criando filhos sem limites. Muitos vivem tentando encontrar um equilíbrio que parece escapar o tempo todo. No meio dessa busca, surge uma pergunta silenciosa: afinal, existe um jeito certo de educar?

Durante muito tempo eu também procurei respostas para situações específicas. Como colocar limites? Como agir diante de uma birra? Como ensinar respeito? Como lidar com as frustrações? Até que uma pergunta começou a fazer muito mais sentido para mim do que todas as outras.

Que adulto eu desejo ajudar a formar?

Essa pergunta mudou completamente a forma como passei a olhar para a educação.

Quando penso nos meus filhos adultos, não desejo apenas que sejam felizes. Quero que saibam construir relações saudáveis, que consigam falar sobre o que sentem, que sejam curiosos, respeitosos, responsáveis, que tenham coragem de fazer perguntas, senso crítico para tomar decisões e segurança para serem quem são.

Às vezes, ficamos tão preocupados em resolver o comportamento de hoje que esquecemos de olhar para a pessoa que está sendo construída todos os dias. A infância passa. O adulto permanece.

Nossos filhos passarão muito mais tempo sendo adultos do que sendo crianças. É por isso que, quando educamos, não estamos pensando apenas no comportamento de hoje. Estamos ajudando a construir a forma como eles vão se relacionar com o mundo, com as pessoas e consigo mesmos.

Nunca vou esquecer de um dia em que o Theo chegou em casa querendo me contar uma coisa que tinha acontecido na escola. Enquanto ele falava, minha cabeça já estava em outra preocupação e, assim que ele terminou, comecei a cobrar uma questão que precisava resolver.

Ele me olhou e disse uma frase que nunca mais esqueci: “Mãe, eu entendo que você precisava falar disso. Mas eu estava te contando uma coisa muito importante para mim e você nem ligou.”

Naquele momento, percebi que ele queria muito mais do que uma resposta minha. Ele queria a minha presença.

Pedi desculpas. E, desde aquele dia, sempre que meus filhos chegam querendo dividir alguma coisa comigo, procuro parar o que estou fazendo e escutar de verdade. Nem sempre consigo. Ainda me distraio, ainda me vejo pensando na próxima tarefa antes de terminar a conversa. Mas hoje percebo muito mais rápido quando isso acontece e faço questão de reparar.

Voltei a pensar naquela conversa muitas vezes. E, cada vez que lembrava dela, entendia um pouco mais sobre a mãe que eu queria ser. Foi olhando para mim dessa forma que compreendi algo que mudou profundamente a maneira como enxergo a educação.

O maior desafio não é aprender a lidar com o comportamento dos filhos. É aprender a lidar com o nosso próprio comportamento diante deles.

Se desejo que meus filhos saibam pedir desculpas, será que eles veem isso acontecer dentro de casa? Se espero que expressem suas emoções com respeito, como eu lido com as minhas? Se quero que eles falem sobre o que sentem sem medo, será que eu crio espaço para que isso aconteça? Se desejo que sejam respeitosos, como tenho demonstrado respeito quando preciso corrigir, colocar um limite ou dizer um “não”?

Essas perguntas mudaram a forma como passei a educar. Não porque encontrei respostas perfeitas, mas porque compreendi que educar também é olhar para mim, reconhecer os meus limites, rever atitudes e estar disposta a mudar sempre que for necessário.

Aprendi que meus filhos não esperam que eu acerte sempre. Afinal, errar faz parte de qualquer relação. O que fortalece o vínculo entre nós é saber que eles podem contar com uma mãe que os escuta, que reconhece quando erra, que pede desculpas quando necessário e que busca fazer diferente da próxima vez. Porque o problema nunca foi errar. O problema é não aprender com o erro e continuar repetindo aquilo que nos afasta de quem mais amamos.

Hoje acredito menos em respostas prontas e muito mais na relação que construo com eles todos os dias.

Se existisse um manual, ele provavelmente ensinaria o que fazer. E aprender sobre desenvolvimento infantil, emoções e Educação Parental faz toda a diferença. Conhecimento nos dá repertório, amplia o olhar e nos ajuda a compreender melhor nossos filhos. Mas nenhuma teoria substitui aquilo que realmente transforma uma relação: a forma como escolhemos lidar com as nossas emoções, estar presentes, ouvir, reparar e crescer junto com eles.

As respostas mudam com o tempo. As boas perguntas continuam nos transformando.

  • Vanessa Brandão

    Sou comunicadora, educadora parental, mentora de mulheres e fundadora da Comunidade Família em Pauta, um espaço criado para fortalecer mulheres e famílias por meio de encontros, mentorias e conversas sobre maternidade, desenvolvimento feminino e relações familiares. Sou mãe do Theodoro e do Valentin. Foi a maternidade que transformou profundamente a minha vida e deu um novo significado à minha trajetória profissional. Depois de mais de 20 anos atuando na área da comunicação e do marketing, encontrei na Educação Parental a oportunidade de unir minha experiência em comunicação ao propósito de fortalecer mulheres, mães e famílias. Acredito que, para fortalecer uma família, é preciso fortalecer também a mulher que existe além da mãe. É esse olhar que orienta o meu trabalho e a minha escrita: ajudar mulheres a viverem uma maternidade mais consciente, sem abrir mão de quem são. Como palestrante, mentora e colunista, escrevo sobre a mulher que nasce com a maternidade, os desafios das relações familiares e a importância de criar filhos sem deixar de existir como mulher.

Data da postagem: 5 de agosto de 2026

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