Além da Mãe: em que momento a gente deixa de ocupar espaço na própria vida?


Vanessa Brandão
por: Vanessa Brandão
Comunicadora, educadora parental, mentora de mulheres e fundadora da Comunidade Família em Pauta. Mãe de Theodoro e Valentin.

Durante muito tempo eu achei que o meu desafio era voltar a ser quem eu era antes da maternidade. Repetia isso para mim mesma, como tantas outras mulheres fazem. Imaginava que, com os filhos maiores, com a rotina mais leve ou com a volta ao trabalho, tudo voltaria ao lugar. Até perceber que talvez eu estivesse procurando a mulher errada.

A maternidade nos transforma profundamente. Nós também renascemos quando nossos filhos nascem e não existe caminho de volta. Assim como eles crescem e mudam a cada fase da vida, nós também mudamos. Mudam nossos valores, nossos medos, nossos interesses, nossa forma de enxergar o mundo e até aquilo que faz sentido para nós.

Então por que insistimos tanto em querer voltar a ser quem éramos? Durante muito tempo acreditei que havia uma versão antiga esperando para ser resgatada. Hoje penso diferente. A verdadeira jornada não é voltar para quem fomos, mas descobrir quem nos tornamos.

Esse é, talvez, um dos maiores desafios da maternidade. Não porque os filhos nos impeçam de existir, mas porque, muitas vezes, nós mesmas nos convencemos de que existir pode esperar. Primeiro eles são pequenos. Depois vem a escola, os esportes, os médicos, a rotina da casa… e, quando percebemos, ocupamos tantos espaços na vida deles que deixamos de ocupar um espaço na nossa. Demorei muitos anos para entender isso. 

Escolhi desacelerar minha carreira para viver a maternidade de forma mais presente. Foi uma escolha consciente, feita com muito amor, e nunca me arrependi dela. Ser mãe continua sendo a experiência mais transformadora e realizadora da minha vida. Foi só depois de muitos anos que entendi uma coisa: amar profundamente a maternidade não significa desaparecer dentro dela.

Quando comecei a pensar em voltar ao mercado de trabalho, descobri que o meu conflito não era apenas profissional. Eu também não queria voltar a ser a mulher que tinha sido antes dos filhos. Mas havia outro sentimento difícil de admitir: eu me sentia uma impostora quando tentava ser alguém além de mãe. Como se voltar a sonhar, estudar ou construir um novo projeto significasse amar menos os meus filhos.

A culpa, aliás, parece apenas mudar de roupa. A mulher que interrompe a carreira se culpa porque deixou de trabalhar. A que continua trabalhando se culpa porque sente que não esteve tão presente quanto gostaria. No fim, quase sempre existe alguém dizendo que poderíamos ter feito diferente. E, por muito tempo, nós também acreditamos nisso.

Durante esse processo percebi que eu não cabia mais na mulher que fui, mas ainda não conhecia a mulher que estava nascendo. Comecei, então, a me fazer perguntas que pareciam simples, mas que eu já não sabia responder.

Do que eu gosto hoje?

O que faz sentido para esta fase da minha vida?

Quais sonhos ainda são meus?

Eu sabia exatamente o que desejava para os meus filhos. Sonhava que fossem felizes, que encontrassem uma profissão de que gostassem, que construíssem relações saudáveis, que realizassem seus próprios sonhos. Mas, quando tentava olhar para mim, encontrava um enorme silêncio.

Naquele silêncio, percebi que eu não havia deixado de existir por causa da maternidade. Eu fui me deixando para depois porque acreditava, sem perceber, que era isso que uma boa mãe fazia. Passei muito tempo ocupando todos os espaços da vida dos meus filhos e deixei vazio um espaço que também precisava existir: o meu. A partir dali alguma coisa mudou.

Parei de procurar a mulher que eu tinha sido e comecei, pela primeira vez, a querer conhecer a mulher que eu estava me tornando. Aos poucos, fui me permitindo experimentar novos interesses, descobrir novas habilidades e construir uma vida que fizesse sentido para a mulher que eu havia me tornado.

Foi aí que compreendi que a maternidade não me fez deixar de ser mulher. Ela me transformou em uma mulher diferente. E o desafio não foi resgatar quem ficou para trás, mas ter coragem de conhecer quem nasceu com a maternidade.

Voltar a ocupar esse espaço não nos torna menos mães. Pelo contrário. Quando uma mulher continua crescendo, aprendendo, mudando de ideia, sonhando e sendo fiel à própria essência, ela oferece aos filhos algo que nenhuma palavra ensina: a coragem de serem eles mesmos.

Continuo acreditando que ser mãe foi a experiência mais transformadora da minha vida. Mas também acredito que nossos filhos não precisam de uma mãe que tenha desistido de si para amá-los profundamente. Eles precisam de uma mulher que continue crescendo, aprendendo, mudando de ideia, descobrindo novos sonhos e vivendo uma vida que faça sentido para ela. Porque é exatamente isso que desejamos para eles.

Hoje entendo que nunca faltou espaço para a maternidade na minha vida. O que estava faltando era um espaço para eu ser. E foi quando encontrei esse espaço que percebi uma das maiores lições que a maternidade me trouxe: não há nada para resgatar. Há uma nova mulher para conhecer.

  • Vanessa Brandão

    Sou comunicadora, educadora parental, mentora de mulheres e fundadora da Comunidade Família em Pauta, um espaço criado para fortalecer mulheres e famílias por meio de encontros, mentorias e conversas sobre maternidade, desenvolvimento feminino e relações familiares. Sou mãe do Theodoro e do Valentin. Foi a maternidade que transformou profundamente a minha vida e deu um novo significado à minha trajetória profissional. Depois de mais de 20 anos atuando na área da comunicação e do marketing, encontrei na Educação Parental a oportunidade de unir minha experiência em comunicação ao propósito de fortalecer mulheres, mães e famílias. Acredito que, para fortalecer uma família, é preciso fortalecer também a mulher que existe além da mãe. É esse olhar que orienta o meu trabalho e a minha escrita: ajudar mulheres a viverem uma maternidade mais consciente, sem abrir mão de quem são. Como palestrante, mentora e colunista, escrevo sobre a mulher que nasce com a maternidade, os desafios das relações familiares e a importância de criar filhos sem deixar de existir como mulher.

Data da postagem: 8 de julho de 2026

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