O que acontece quando uma mãe investe em si mesma e aprende a surfar aos 45 anos

O mar estava um pouco mais agitado naquele dia. Não foi nada fácil atravessar a arrebentação. Já me doíam os braços. Consegui apanhar algumas ondas e, de repente, a minha amiga Rita e eu fomos pegas por uma onda gigante. No momento seguinte, estava debaixo d’água, dando cambalhotas, sem conseguir subir à superfície para recuperar o fôlego.
Quando finalmente consegui subir para pegar um pouco de ar, a próxima onda quebrou em cima de mim e tudo recomeçou. A sensação era de estar dentro de uma máquina de lavar. Fiquei debaixo d’água apenas alguns segundos, mas, na minha percepção, pareceram minutos infinitos. Enquanto estava submersa, só pensava em proteger a cabeça com medo da prancha ricochetear em cima de mim ao mesmo tempo que tentava manter a calma para não acelerar ainda mais o meu coração já disparado. Por fim, comecei a ser levada pela corrente até a beira da praia. Deitada na areia, olhei para a Rita ao meu lado e li nos olhos dela: sim, aquilo tinha sido assustador.
Esta foi apenas a minha segunda aula de surf no mês passado. No início do ano, resolvi me candidatar a um programa de 5 semanas que combina esporte, desenvolvimento pessoal, competências empreendedoras e palestras inspiradoras. Isso significa que, duas vezes por semana, durante um mês e meio, entrei no mar às 9 da manhã para aprender a surfar.
O que eu não esperava era que aquelas aulas de surf acabassem sendo lições de vida — e que tocassem de uma forma inesperada alguém que passa a maior parte do dia cuidando de outras pessoas: eu, enquanto mãe.
Respira
Sempre pratiquei esportes e estou em boa forma física, o que me ajudou a ficar em pé rapidamente em cima da prancha e a apanhar algumas ondas logo na primeira aula. Isso não quer dizer que eu não tivesse medo. Sempre que entrava no mar, estava totalmente concentrada e seguia todos os comandos dos nossos instrutores à risca.
Um dia, um deles remou na minha direção e disse-me de forma gentil: “Carol, você precisa relaxar quando está no mar. Estar tensa o tempo todo não vai ajudar. Relaxa, aproveita.” Naquele momento, percebi que o meu corpo estava todo tenso. Estava tão concentrada na próxima onda, em olhar para o mar, em ouvir os instrutores, que nem sequer percebi que a minha concentração tinha se transformado em tensão.
Decidi então respirar. E respirar outra vez. Sentei-me na prancha olhando para o mar e limitei-me a continuar respirando. Por um momento, permiti-me não me preocupar com a próxima onda, se estava remando certo ou como eu ficaria em pé na prancha. Estava simplesmente ali, existindo.
Como mãe, isto foi um lembrete profundo: tantas vezes passamos o dia correndo, cumprindo listas, resolvendo problemas das outras pessoas — filhos, parceiro, trabalho — que esquecemos de simplesmente respirar. De estar presentes. Parar de vez em quando e simplesmente aproveitar o momento, sem planos, sem objetivos. Apenas por alguns segundos, olhar ao redor e perceber onde estou, o que estou fazendo, quem está ao meu lado. E simplesmente respirar.
Sangue
Havia sangue escorrendo do meu nariz. Tudo aconteceu tão depressa que não consigo dizer exatamente o que se passou. Num minuto estava na prancha, no outro estava emaranhada com a minha amiga e senti um grande impacto no rosto.
Ao levantar-me, pensei: “Caramba, que onda dura!”. Foi nesse momento que minha colega olhou para mim e disse: “Você está bem? Seu nariz está sangrando…” De repente, senti-me pálida e tonta. Os instrutores vieram na minha direção e me ajudaram a sair do mar.
Não havia sido uma onda que me atingira no rosto, mas sim uma prancha. No meu rosto.
Sentei-me na areia, tentei me acalmar e comecei a examinar o meu rosto: meu lábio superior estava inchado e meu nariz doía, mas não estava quebrado, apenas um pouco dormente. Este sempre foi o meu maior medo no surf: ser atingida por uma prancha. Não sei bem o que correu mal e se isso poderia ter sido evitado. Talvez não.
E a vida não é assim às vezes? Que, do nada, levamos uma pancada vinda de lado nenhum?
Às vezes, mesmo quando estamos nos divertindo — como surfando, ou tentando ter uma tarde leve com os filhos —, de repente tudo muda em questão de segundos. Uma febre alta no meio da noite, uma notícia difícil no trabalho, uma conversa que não sai como esperado, uma crise de choro que você não consegue acalmar… E o que fazemos? Recuperamos nossas forças, procuramos ajuda se for preciso e voltamos a nos levantar. Foi isso que eu fiz.
O fluxo
“Carol, vai com aquele grupo para o outside!” Ao olhar para o mar, comecei a sentir alguma tensão. O mar aberto parecia muito longe, especialmente com as ondas quebrando sem perdoar quem estivesse na sua frente.. Nosso instrutor explicou que poderia ser mais difícil passar pela arrebentação e mostrou-nos como fazer “a tartaruga” — basicamente, segurar na prancha e virar-se, ficando debaixo d’água e deixando a onda passar por cima da prancha.
Lá estava eu novamente: morrendo de medo, mas arriscando. Meu coração sempre dispara quando tenho que passar a arrebentação, ainda mais uma com ondas grandes — e aquela coisa da tartaruga foi realmente muito útil. Levei mais tempo do que os outros para chegar finalmente à linha de espera — e já estava completamente exausta de tanto remar e da adrenalina que senti ao chegar lá.
“Bora, Carol! Se prepara, a próxima onda é sua.” Obedeci imediatamente ao meu instrutor, me posicionei na prancha e esperei. “Agora, rema, rema, levanta!” Segui as suas instruções cegamente e me vi na onda, surfando de verdade. Surfando enquanto ela quebrava! E era uma onda LONGA. Tão longa que, pela primeira vez, senti o poder do mar debaixo dos meus pés, mas em sincronia comigo. Tive tempo para ajustar rapidamente os pés, lembrei-me de posicionar os braços e dar direção à prancha.
No segundo seguinte, estava simplesmente desfrutando daquele momento incrível o tempo suficiente para me sentir em comunhão com o oceano, com o sol, com o meu corpo — tudo fluindo — e, por um instante, eu consegui enxergar. Enxergar tudo o que ainda era possível. Em termos de surf, claro, mas também na vida.
Foi quase como uma mensagem me mostrando do que eu era capaz se continuasse a dar o meu melhor, a praticar, a cair, a levantar. Estava vendo o potencial que existe e que se pode revelar. Depois que a onda passou, precisei de um minuto para processar o que tinha acontecido. Caminhei até a areia, me sentei ali e percebi que estava chorando. Acho que foi a única forma que meu corpo encontrou para assimilar tudo: medo, alegria, gratidão, exaustão e, acima de tudo, fé… Fé em mim mesma e no que eu ainda poderia alcançar.
Investir em si mesma não é um luxo para mães. É algo que nos devolve energia, confiança e presença para estar com quem amamos. E, por vezes, quando uma mãe se permite crescer, os filhos também crescem — ao verem que é possível tentar, cair, levantar-se e, no final, surfar a própria vida.








