Como assim Ninho Vazio?


Redação It Mãe
por: Redação It Mãe
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Então o filho cresce, passa na faculdade dos sonhos e vai estudar fora. Tudo conforme o planejado? Quase tudo. Não estavam nos planos de Tatiana Klingelfus Ganme, 48 anos, mãe de Pedro, Maria e Artur e proprietária da consultoria PetitLabô, os sentimentos que vieram de carona com o ninho vazio. E para os quais ninguém a preparou (e pouco se fala).

“Cheguei em casa daquela viagem e a sensação, embora muito esquisita, me era familiar. Demorei para ligar os pontos. Havíamos deixado nosso filho mais velho na faculdade  – nos EUA – e voltávamos para a casa sem ele pela primeira vez. 

Na viagem para “entregar” meu filho para a nova vida nos EUA (foto: arquivo pessoal)

O restante da família e dos amigos, além dos nossos outros dois filhos, nos recebeu em festa “Que conquista, parabéns, estão felizes?” “Muito merecido”. 

Entre os vivas, olhei para meus filhos e estavam com cara de perdidos. Quase não os reconheci, sempre foram um trio e de alguma forma ver os dois me lembrava que faltava um. Eles também teriam uma longa adaptação pela frente (cadê um livro sobre isso????) 

Passei pelo quarto vazio e quando ousei reclamar alguém logo me lembrou: “você tem é que comemorar, afinal ele entrou na faculdade que queria, está indo atrás dos sonhos!”

E foi aí que entendi; eu estava com os mesmos sintomas da depressão pós-parto. 

Chegar em casa com o primeiro bebê foi para mim uma das coisas mais assustadoras que passei na vida. Não entendi nada. Eu estudei tudo, me preparei, mas os sentimentos me confundiram completamente… fiz tratamento para engravidar, era meu sonho ser mãe, um privilégio, um bebê perfeito… e então, com tudo realizado, bateu uma sensação de não pertencer, de vazio, de culpa, de esgotamento e abandono. Um abandono do que fui para trocar de pele e assumir um novo papel.

Em volta, todos comemoravam como era de se esperar. Menos eu. 

Levou tempo até eu me ajustar a essa nova versão de mim mesma e abraçar com entusiasmo e competência de uma CEO o papel de mãe. E logo vieram os outros dois bebês, meu trio fantástico, que hoje são adolescentes. 

Antes que você imagine que eu abandonei tudo para me dedicar a ser mãe – o que tornaria a fase do ninho vazio especialmente mais difícil – não fiz isso. Pelo contrário. Fui me reconstruindo pelas bordas. Uma carreira que amo, um esporte que me acolhe, um marido participativo, manicure em dia, tudo OK. E por isso mesmo a minha surpresa, talvez até uma certa indignação quando me vi novamente naquele lugar 18 anos depois. 

Todo mundo celebrando e parte de mim odiando tudo. As pessoas me confortavam: “Calma, logo ele vem visitar.” Visitar???? E ali caíram todas as fichas; a fase do ninho vazio havia sido inaugurada. 

Arrumando a nova casa dele, com o novo “enxoval” recém comprado e lidando com as emoções do ninho vazio (foto: arquivo pessoal)

Do alto do meu privilégio, odiei todos os clichês da maternidade por semanas: “filho a gente cria para o mundo” , “os americanos vivem essa fase de forma planejada e alegre“ , “Você ainda tem mais dois filhos em casa” . 

Enquanto isso, até o cheiro da casa mudou, os barulhos eram diferentes,  e de vez em quando uma chamada de vídeo do outro lado do mundo me perguntando se precisava lavar inclusive a roupa de cama, me lembrava que meu filho ainda era um quase-adulto e que precisava de mim. Mas esse papel também havia mudado. 

Meu marido estava em pedaços, tentando segurar as pontas e se ocupar de assuntos operacionais; boletos, documentação da faculdade etc. 

Procurei nos blogs de maternidade, nos portais, e na literatura nacional alguma orientação para o que eu estava sentindo, até para ajudar os irmãos que pareciam também perdidos na tríade por ora desfeita.  Tudo o que achei falava sobre amamentação, puerpério, sexo na gravidez, os terríveis dois anos, a primeira ida à escola, a adolescência. E ponto final. 

Lógico que fui encontrar maior rede de apoio nos grupos de pais americanos, muito mais acostumados a passar por isso do que nós. Latinos tem a pretensão de guardar os filhos o máximo de tempo possível em casa , sem vergonha alguma, bem pelo contrário.

Sabe o que descobri nestes sites americanos? Embora se preparem melhor do que nós para a fase do ninho vazio, eles também voltam da faculdade deles chorando, também se sentem perdidos em seus papeis, também vão no quarto no meio da noite para cheirar o travesseiro da prole egressa.

O fato é que somos pais mais jovens e não falo de idade. Na maioria das vezes, não estamos aposentados ou prontos para largar tudo e viajar pelo mundo em um trailer. Por outro lado, nossos filhos desbravam o mundo cada vez mais cedo (aqui no Brasil é recente o movimento de buscar faculdades fora do país, ou sair de casa para estudar) e não necessariamente deixam de precisar da gente. E mesmo quem não tem os filhos estudando fora de casa, vai sentir o mesmo quando eles saírem para se casar ou morar sozinhos. Foi conversando que percebi que muitos pais haviam passado pelas mesmas sensações e pelo mesmo desamparo. 

Mais uma vez a vida pede adaptação, resiliência, foco no positivo, fé no desconhecido. Ainda que seja fundamental abrir espaço para acolher esse sentimento de perda, de luto, de passagem. 

Outro dia nosso filho nos ligou todo triste, porque havia falhado em alguma aplicação, e meu coração se despedaçou por dentro. Ajudar de longe é pior. Mas são muitas as vezes que ele liga para comemorar conquistas e no verão são muitos meses de volta em casa. Mas não se engane, já é diferente. 

Esse ano minha filha do meio se prepara para ir e eu finjo estar pronta. É duro constatar no final das contas que minha mãe esteve sempre certa: “filhos criados trabalho dobrado”. “

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