O que a Copa do Mundo deixa de reflexão para os pais
Olhar o mundo com os olhos de quem cuida da infância pode ser, muitas vezes, desanimador. A Copa trouxe à tona algo que vejo todos os dias no consultório: adultos sem autorregulação emocional e crianças construindo seu repertório de vida a partir exatamente disso. Discursos vazios não convencem crianças. Elas absorvem experiências, não palavras.
Sei que para quem ama futebol, como eu e meus filhos, a frustração de ver seu time perder é real e incontrolável. Aprender a lidar com emoções difíceis faz parte da vida. E é justamente aí que o papel do adulto se torna essencial: nomear, acolher, orientar.
Vi inúmeros vídeos de adultos quebrando televisões após o jogo em que o Brasil foi eliminado… cegos para suas próprias emoções, reativos, sem medir consequências. E vi crianças queimando e rasgando seus álbuns de figurinhas ao lado de adultos que, apesar de presentes fisicamente, estavam ausentes da pior forma possível: negligenciando seu papel de referência.
E é aqui que preciso dizer algo importante. Aquelas crianças que rasgaram o álbum não precisavam de um adulto que queimasse junto. Precisavam de um adulto que dissesse: a frustração dói, e tudo bem. Mas ela não é o fim e sim o começo de encontrar outro caminho. Crianças que são poupadas de toda frustração não se tornam mais seguras. Às vezes se tornam adultos que nunca aprenderam a confiar na própria capacidade de atravessar o que é difícil.
Essa falta de autorregulação não vive só nos estádios ou nas telas: ela aparece no trânsito, em casa, nas pequenas situações do dia a dia. E enquanto isso acontece, nossas crianças estão observando e registrando. Para o adulto, quebrar uma televisão por raiva tem um peso. Para a criança que assiste, tem outro: ela não entende contexto, ela registra o que viu como régua do normal. E isso é perigoso.
Como pediatra, aprendi que cuidar de crianças é, inevitavelmente, cuidar dos adultos ao redor delas. A criança que você cria também te cria. Ser mãe, ser pai, é uma das maiores oportunidades de autoconhecimento que a vida oferece … de crescer de novo, aparar arestas, olhar para dentro e evoluir como ser humano. Parentalidade carrega em si uma dimensão profunda de transformação pessoal.
Por isso deixo uma pergunta: que referência emocional você está sendo para a criança que te observa?








