Quando a gente leva a família inteira na mala (e na cabeça)


Anna Moreno Damico
por: Anna Moreno Damico
Diretora de multinacional, mentora de carreiras e especialista em crescimento profissional, esposa e mãe de cinco

Há sete meses, eu comecei uma nova fase da minha carreira. Uma transição grande, corajosa e extremamente desejada. Depois de muitos anos construindo minha trajetória profissional, aceitei um desafio que me trouxe exatamente aquilo que eu sempre busquei: mais crescimento, intensidade, movimento, aprendizado e a chance de ocupar espaços que eu trabalhei muito para conquistar.

Só que esse novo capítulo também veio com um detalhe importante: viagens frequentes. Hoje, mais ou menos a cada três semanas, eu arrumo uma mala, organizo a agenda da casa e embarco para mais uma cidade ou país, mais um evento, mais uma reunião, mais uma oportunidade. E apesar de eu amar o que faço (e amar genuinamente a mulher profissional que me tornei) nunca é simples sair pela porta de casa deixando cinco filhos para trás.

Curiosamente, a parte mais difícil não é exatamente a saudade. A saudade é óbvia. Ela chega no aeroporto, no quarto de hotel vazio, na foto enviada no grupo da família mostrando um dente que caiu ou um desenho novo da escola. Mas existe uma camada anterior à saudade que quase ninguém fala: a preparação mental que uma mãe precisa fazer para conseguir viajar.

Porque uma viagem de trabalho para um homem, muitas vezes, começa quando ele fecha a mala. A mala de uma mãe começa muitos dias antes. Começa abastecendo a geladeira. Conferindo uniforme. Organizando a logística da escola. Deixando remédio separado. Combinando horários. Tentando antecipar problemas que talvez nem existam. É como se a mulher precisasse deixar pequenos pedaços dela espalhados pela casa inteira antes de embarcar. Nunca é simples.

E existe também a ansiedade das crianças. Principalmente quando elas ainda são pequenas. Aqui em casa, cada viagem exige conversas, explicações e uma certa engenharia emocional coletiva. Um filho pergunta quantos dias faltam para eu voltar. Outro quer saber se eu vou conseguir assistir à apresentação da escola pelo celular. Tem aquele que dorme abraçado no meu travesseiro porque “tem o cheiro da mamãe”. E eu vou aprendendo, no meio disso tudo, que filhos não precisam de mães perfeitas, eles precisam de previsibilidade, jogo de cintura emocional e segurança.

Ao contrário do que muita gente imagina, eu não trabalho baseada na culpa. Culpa nunca construiu nada saudável dentro de uma mulher. Eu quero que meus filhos cresçam orgulhosos da mãe que têm. Quero que minhas filhas entendam que ambição feminina não é defeito. Quero que meus filhos aprendam a admirar mulheres fortes, inteligentes, realizadas e apaixonadas pelo que fazem. Eu sei, com muita honestidade, que sou uma mãe melhor porque também sou uma profissional realizada. Mas isso não significa que seja um caminho gostoso de percorrer. Minha filha me perguntou outro dia: “Você gosta de abandonar a gente?”… meu coração quase saiu pela boca. Mas contive minha reação explicando que trabalhar não era abandono.

Existe um cansaço invisível em ser a pessoa que apresenta um projeto brilhante numa reunião e, ao mesmo tempo, lembra pelo fuso horário que hoje era dia de levar fantasia para a escola. Existe um dreno mental em performar em alto nível no trabalho enquanto o coração acompanha notificações à distância. E talvez o segredo esteja justamente em parar de romantizar a ideia de “dar conta de tudo” o tempo inteiro.

O que tem funcionado para nós, em casa, é criar pequenos rituais. FaceTime virou compromisso sagrado no jantar. Já deixei bilhetinhos escondidos pela casa. Temos calendário na parede riscando os dias para a mamãe voltar. Às vezes eu gravo vídeos curtos antes de viajar para assistirem quando sentirem saudade. E, honestamente? As crianças adoram participar da aventura. Elas acompanham o mapa do voo, perguntam sobre os países, querem ver o hotel, dão opinião na mala e vibram quando me veem feliz.

Talvez seja isso que eu esteja aprendendo nessa fase da vida: maternidade e carreira não precisam competir o tempo inteiro. Elas podem coexistir, ainda que de forma imperfeita, cansativa e cheia de adaptações. Existe beleza em mostrar para os filhos que amor também pode ser construção, trabalho, coragem. E talvez uma das maiores heranças que uma mãe pode deixar não seja apenas a presença constante, mas a inspiração silenciosa de alguém que teve coragem de construir a própria vida sem deixar de amar profundamente a própria família.

  • Anna Moreno Damico

    Executiva de Marketing e Recrutamento com 20 anos de carreira corporativa em multinacionais. Já trabalhou em São Paulo, Nova York e, atualmente, mora em Boston com seu marido e cinco filhos, onde lidera um time internacional. Dedicada a formar a próxima geração de líderes, Anna também é mentora de carreiras e especialista em crescimento profissional, oferecendo curadoria de conteúdo sobre liderança e mercado de trabalho, além de orientação, cursos e aulas exclusivas. Com mais de dois mil alunos e centenas de horas em palestras e treinamentos no último ano, Anna acredita em liderança pelo exemplo e na construção de relacionamentos verdadeiros para viver a máxima de suas duas frases preferidas: “Feito é melhor que perfeito”, e “Se não eu, quem?”

Data da postagem: 29 de maio de 2026

Tags: , , , ,

Vale a pena dar uma olhada na minha seleção de produtos incríveis e
serviços que facilitam sua vida de mãe ;)