Sono: o novo “déficit nutricional” que preocupa pediatras

Nos últimos anos, um novo alerta tem surgido silenciosamente dentro dos consultórios: crianças e adolescentes estão dormindo menos e… pior.
O problema se tornou tão frequente que muitos especialistas já chamam o sono inadequado de “o novo déficit nutricional da infância”.
Assim como uma alimentação pobre em nutrientes, noites mal dormidas comprometem crescimento, saúde mental, imunidade e desempenho escolar. A diferença é que, enquanto os pais se preocupam com vitaminas, ferro, proteínas, o sono ainda é visto como algo “natural”, que simplesmente acontece. Mas, quando não acontece bem, o impacto é imenso.
Evidências atuais do déficit de sono na população pediátrica
Diversos estudos recentes apontam que:
- Crianças e adolescentes estão dormindo, em média, 1 a 2 horas a menos do que o recomendado para sua faixa etária.
- A exposição a telas no período noturno, sobretudo ao longo da última hora antes de dormir, está associada a redução da secreção endógena de melatonina e atraso do início do sono.
- Alterações comportamentais como irritabilidade, queda de desempenho escolar, impulsividade e dificuldades de autorregulação têm forte correlação com restrição crônica de sono.
O padrão observado não se limita a “rotinas familiares agitadas”: trata-se de um fenômeno populacional com características ambientais, comportamentais e biológicas.
Por que as crianças estão dormindo menos?
1. Rotinas familiares cada vez mais aceleradas
Mudanças frequentes de horário, atividades noturnas e ausência de estrutura previsível dificultam o ritmo circadiano (sono/vigília).
2. Telas antes de dormir
Tablets, celulares e vídeos rápidos aumentam excitação cerebral e reduzem a liberação de melatonina.
Hoje, 7 em cada 10 crianças usam telas até 1 hora antes de dormir, um dos principais fatores de atraso de sono.
3. Ansiedade e preocupação precoce
Aumento de ansiedade infantil e pensamento acelerado dificultam a transição para o descanso.
4. Excesso de estímulos
Luzes fortes, brinquedos que piscam, rotina caótica, ruído. O cérebro infantil precisa de previsibilidade.
5. Adolescência e o “atraso biológico do sono”
O atraso natural da liberação de melatonina torna os adolescentes biologicamente predispostos a dormir mais tarde, gerando um ciclo de privação quando precisam acordar cedo para compromissos escolares.
Consequências do sono insuficiente
O déficit de sono tem efeito cascata no dia a dia da criança e do adolescente:
- Neurocognição: prejuízo de atenção, memória e desempenho acadêmico.
- Regulação emocional: maior irritabilidade, labilidade e reações desproporcionais.
- Metabolismo: associação com maior risco de sobrepeso e resistência insulínica.
- Imunidade: aumento da suscetibilidade a infecções.
- Comportamento: impulsividade, agitação e menor tolerância à frustração.
Esses sinais são frequentemente interpretados como problemas de comportamento, quando, na realidade, refletem um cérebro em privação crônica de descanso.
Quanto cada faixa etária deve dormir?
| Idade | Horas de sono recomendadas (24h) |
| 1–2 anos | 11–14 h |
| 3–5 anos | 10–13 h |
| 6–12 anos | 9–12 h |
| Adolescentes | 8–10 h |
Dormir menos que isso de forma crônica é considerado risco para saúde física e emocional.
Como melhorar o sono? Estratégias práticas que funcionam
1. Higiene do sono estruturada e rotina previsível
- Horários regulares para dormir e acordar.
- Transição gradual para o estado de sonolência, com atividades calmas no período pré-sono: reduza luz, barulho e estímulos. Atividades ideais: banho morno, leitura, massagem, música suave e conversa tranquila.
2. Restrição de telas – “Cinturão de proteção”
- Evitar exposição a telas na última hora antes de dormir.
- Para adolescentes, estender esse intervalo para 60 a 90 minutos.
3. Ambientes adequados
- Ambiente silencioso, escuro e com temperatura confortável.
- Redução de brinquedos estimulantes e dispositivos luminosos no quarto.
4. Exposição à luz natural pela manhã
A luz solar ajuda a regular o relógio biológico e facilita o sono à noite.
5. Monitoramento de ingestão de cafeína
Adolescentes são os maiores consumidores e, muitos pais não percebem o impacto direto na saúde, incluindo, o sono.
6. Acolhimento emocional
Uma breve conversa antes de dormir reduz ansiedade e pensamentos acelerados.
Quando buscar avaliação?
Sinais de alerta para investigação especializada
- Ronco persistente
- Apneias observadas (pausas respiratórias)
- Sonolência diurna importante
- Bruxismo intenso
- Desempenho escolar em queda sem causa aparente
- Despertares frequentes ou terror noturno recorrente
- Dores de cabeça matinais
- alterações de comportamento
Por que o sono precisa ser tratado como nutriente?
O sono não é um evento espontâneo: é um processo biológico complexo, modulável e essencial.
Reconhecê-lo como um “nutriente” é compreender que ele sustenta funções vitais para crescimento, aprendizado e saúde emocional.
O sono é tão fundamental quanto alimentação adequada e movimento diário.
Intervenções simples, quando aplicadas de forma consistente, trazem resultados expressivos e duradouros. E quando a família entende isso, tudo muda.









