Adaptação na escola: o acolhimento começa em casa

O início da vida escolar — ou a mudança de escola — costuma ser um momento marcante para as crianças e para suas famílias. É um tempo de expectativas, descobertas, mas também de inseguranças. Para a criança, tudo é novo: o espaço, as pessoas, a rotina e, principalmente, a experiência de estar longe de casa e de suas principais figuras de segurança.
Sentir medo, estranhar, chorar ou resistir faz parte desse processo. A adaptação não é um evento pontual, mas um processo, e cada criança o vive à sua maneira e no seu tempo. Assim como nós, adultos, precisamos de um período para nos adaptar a um novo trabalho ou ambiente, as crianças também precisam de tempo para construir vínculos e se sentir seguras.
Falo sobre isso não apenas como educadora, mas também como mãe.
Como mãe, sempre tentei agir com naturalidade. Não dramatizar, não transformar a ida à escola em algo negociável ou opcional. Era aquilo — ir para a escola — e não havia outra alternativa. Isso não significava ser rígida ou insensível, mas sim transmitir segurança: “Você consegue, você está segura e eu confio em você e na escola.”
Permitia, sim, que meus filhos levassem um objeto de transição — aquele recurso tão conhecido na pedagogia, que ajuda a criança a atravessar o novo e a construir vínculos afetivos. Como eu trabalhava, deixei as vovós no papel de “adaptadoras oficiais”. Foram elas que tomaram o famoso “chá de cadeira” nos primeiros dias.
A Laura, por exemplo, ficou conhecida na escola porque chegava usando batom vermelho — coisa da vovó, claro, porque eu jamais permitiria um objeto de transição tão… ousado. Já o Lucas nunca dispensava o seu Woody de pelúcia, encardido de tanto amor e uso.
Ambos entraram na escola com dois anos e se adaptaram rapidamente. Acredito que, para eles, o cenário ajudava bastante: aquela escola também era o meu lugar de trabalho, a minha segunda casa. De alguma forma, isso já bastava para que se sentissem seguros.
Como educadora, sempre acreditei que o vínculo vem antes de qualquer aprendizagem. Na minha experiência com os bem pequenos, meu jeito de acolher as crianças era, acima de tudo, tranquilo. A intenção nunca foi apressar processos, mas sim criar conexão. Entendo que as crianças precisam gostar dos adultos com quem vão conviver; o respeito e a admiração vêm depois do afeto.
Manter a calma é essencial. Uma criança que chora está comunicando um incômodo — e isso precisa ser respeitado. Eu sempre prefiro esperar que ela se acalme para então intervir, porque uma mente em crise não raciocina e não toma boas decisões. Não é preciso ter pressa nesse momento. A adaptação pede tempo, escuta e sensibilidade.
Durante esse processo, é comum que a escola organize a permanência da criança de forma gradual: começa com uma hora, depois duas, e assim sucessivamente, até chegar ao período regular. Essa progressão não é aleatória — ela existe para garantir que a criança fique bem durante o tempo em que permanece na escola.
Mesmo que a criança — ou a família — queira ficar mais tempo, isso nem sempre é o ideal no início. O objetivo é que ela saia da escola com aquele gostinho de “quero mais”. É assim que ela deve ir embora: querendo voltar no dia seguinte.
Nesse caminho, o diálogo constante com a família é fundamental. Lembro-me bem de uma criança que estava aparentemente bem adaptada à escola. Já havia passado um tempo, tudo parecia tranquilo, até que, de repente, ela regrediu: começou a resistir para entrar, não queria permanecer na escola e passou a manifestar desconforto.
Conversando com a família, entendemos que algo importante estava acontecendo em casa. A mãe havia descoberto uma nova gravidez e enfrentava os primeiros meses da gestação, com mudanças na rotina e no clima emocional dentro de casa. A criança, sensível a tudo isso, absorveu essas transformações e passou a manifestar seu incômodo no ambiente escolar.
Esse exemplo ilustra algo muito importante: as crianças falam através do comportamento. O que aparece na escola, muitas vezes, tem raízes fora dela. E isso vale para toda a vida escolar. Em muitos casos, um desconforto emocional se manifesta no baixo rendimento acadêmico, nas relações sociais ou na forma como a criança se posiciona no grupo.
A adaptação é uma construção conjunta entre criança, família e escola. Quando os adultos confiam — na criança, na equipe pedagógica e no processo — tudo flui com mais leveza. Com acolhimento, parceria e tempo, esse momento, que muitas vezes assusta, se transforma em crescimento e segurança emocional.









