Adaptação na nova escola precisa de acolhimento (em qualquer idade)


Lu Salles Hora
por: Lu Salles Hora
Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais - e apaixonada pela arte de educar. Mãe da Laura e do Lucas.
Como escolher a escola certa para crianças It Mãe
Como escolher a escola certa para crianças It Mãe
(foto: 123TRF)

O início da vida escolar — ou a mudança de escola — costuma ser um momento marcante para as crianças e para suas famílias. É um tempo de expectativas, descobertas, mas também de inseguranças. Para a criança, tudo é novo: o espaço, as pessoas, a rotina e, principalmente, a experiência de estar longe de casa e de suas principais figuras de segurança.

Sentir medo, estranhar, chorar ou resistir faz parte desse processo. A adaptação não é um evento pontual, mas um processo, e cada criança o vive à sua maneira e no seu tempo. Assim como nós, adultos, precisamos de um período para nos adaptar a um novo trabalho ou ambiente, as crianças também precisam de tempo para construir vínculos e se sentir seguras.

Falo sobre isso não apenas como educadora, mas também como mãe.

Agora, mãe de dois “marmanjos”, anos depois, me vejo vivendo um processo de adaptação — mas em outro tempo da vida: a adolescência. Meus dois filhos iniciarão em uma nova escola depois de terem estudado a vida inteira na mesma instituição. A mudança se fez necessária, e minha filha ingressará na 1ª série do Ensino Médio, enquanto meu filho começará o 7º ano. Apesar de já serem seguros (pelo menos eu julgo assim) e experientes no ambiente escolar, as emoções são intensas. Surgem falas como “mãe, vamos logo comprar o uniforme” ou “eu queria chamar aquele amigo do clube para dormir em casa para irmos juntos no primeiro dia, posso?” E então me pego pensando: por que não querem entrar sozinhos?

A adolescência traz autonomia, mas também vulnerabilidade. Chegar a um lugar onde as panelinhas já estão formadas, onde ainda não se sabe exatamente como e nem quando vão se encaixar, desperta inseguranças reais. Até dúvidas aparentemente simples (como qual lanche levar) ganham um peso enorme. Nesse momento, nosso papel como pais muda, mas continua essencial: escutar, acolher, validar sentimentos e oferecer esse porto seguro chamado casa. Essa troca no início faz toda a diferença para fortalecer emocionalmente nossos adolescentes e ajudá-los a atravessar o novo com mais confiança.

Ambos entraram na escola com dois anos e se adaptaram rapidamente. Acredito que, para eles, o cenário ajudava bastante: aquela escola também era o meu lugar de trabalho, a minha segunda casa. De alguma forma, isso já bastava para que se sentissem seguros.

Como mãe, sempre tentei agir com naturalidade. Não dramatizar, não transformar a ida à escola em algo negociável ou opcional. Era aquilo — ir para a escola — e não havia outra alternativa. Isso não significava ser rígida ou insensível, mas sim transmitir segurança: “Você consegue, você está segura e eu confio em você e na escola.”

Permitia, sim, que meus filhos levassem um objeto de transição — aquele recurso tão conhecido na pedagogia, que ajuda a criança a atravessar o novo e a construir vínculos afetivos. Como eu trabalhava, deixei as vovós no papel de “adaptadoras oficiais”. Foram elas que tomaram o famoso “chá de cadeira” nos primeiros dias.

A Laura, por exemplo, ficou conhecida na escola porque chegava usando batom vermelho — coisa da vovó, claro, porque eu jamais permitiria um objeto de transição tão… ousado. Já o Lucas nunca dispensava o seu Woody de pelúcia, encardido de tanto amor e uso.

Como educadora, sempre acreditei que o vínculo vem antes de qualquer aprendizagem. Na minha experiência com os bem pequenos, meu jeito de acolher as crianças era, acima de tudo, tranquilo. A intenção nunca foi apressar processos, mas sim criar conexão. Entendo que as crianças precisam gostar dos adultos com quem vão conviver; o respeito e a admiração vêm depois do afeto.

Manter a calma é essencial. Uma criança que chora está comunicando um incômodo — e isso precisa ser respeitado. Eu sempre prefiro esperar que ela se acalme para então intervir, porque uma mente em crise não raciocina e não toma boas decisões. Não é preciso ter pressa nesse momento. A adaptação pede tempo, escuta e sensibilidade.

Durante esse processo, é comum que a escola organize a permanência da criança de forma gradual: começa com uma hora, depois duas, e assim sucessivamente, até chegar ao período regular. Essa progressão não é aleatória — ela existe para garantir que a criança fique bem durante o tempo em que permanece na escola.

Mesmo que a criança — ou a família — queira ficar mais tempo, isso nem sempre é o ideal no início. O objetivo é que ela saia da escola com aquele gostinho de “quero mais”. É assim que ela deve ir embora: querendo voltar no dia seguinte.

Nesse caminho, o diálogo constante com a família é fundamental. Lembro-me bem de uma criança que estava aparentemente bem adaptada à escola. Já havia passado um tempo, tudo parecia tranquilo, até que, de repente, ela regrediu: começou a resistir para entrar, não queria permanecer na escola e passou a manifestar desconforto.

Conversando com a família, entendemos que algo importante estava acontecendo em casa. A mãe havia descoberto uma nova gravidez e enfrentava os primeiros meses da gestação, com mudanças na rotina e no clima emocional dentro de casa. A criança, sensível a tudo isso, absorveu essas transformações e passou a manifestar seu incômodo no ambiente escolar.

Esse exemplo ilustra algo muito importante: as crianças falam através do comportamento. O que aparece na escola, muitas vezes, tem raízes fora dela. E isso vale para toda a vida escolar. Em muitos casos, um desconforto emocional se manifesta no baixo rendimento acadêmico, nas relações sociais ou na forma como a criança se posiciona no grupo.

A adaptação é uma construção conjunta entre criança, família e escola. Quando os adultos confiam — na criança, na equipe pedagógica e no processo — tudo flui com mais leveza. Com acolhimento, parceria e tempo, esse momento, que muitas vezes assusta, se transforma em crescimento e segurança emocional.

  • Lu Salles Hora

    Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais. Mãe da Laura e do Lucas, esposa do Rafael. Com experiência de + de 20 anos em chão de sala e orientação parental, é apaixonada pela arte de educar e acredita que crescemos à medida que nos relacionamos uns com os outros. Para Luciana, todos somos educadores, basta dar bons exemplos e agir com coração e razão alinhados.

Data da postagem: 27 de janeiro de 2026

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