O que ninguém te conta sobre a fome do puerpério


Amanda Figueiredo
por: Amanda Figueiredo
Amanda Figueiredo (@nutriamandafig) é nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar.

Se existe um assunto que toda mãe vive na pele, mas quase ninguém avisa antes, é a fome no puerpério. Especialmente quando a amamentação entra em cena. Como nutricionista, estou aqui para garantir que a  sensação é real. Sim, amamentar dá muita fome, uma fome intensa, constante, que aparece do nada e parece nunca estar totalmente satisfeita. E não, isso não é falta de controle, é fisiologia.

A produção de leite exige um gasto energético significativo. Para produzir em média 700 a 900 ml de leite por dia, o corpo da mãe utiliza uma quantidade impressionante de calorias e nutrientes. Por isso, sentir mais fome é absolutamente esperado, e normal.

Por que a fome aumenta tanto?

Amamentar aumenta o gasto energético basal e acelera o metabolismo. Além disso, a ocitocina, hormônio liberado durante a descida do leite, pode provocar sensação imediata de fome. Somando a isso as noites mal dormidas e a rotina intensa, o corpo busca mais energia para se manter e nutrir o bebê.

Mas existe algo importante aqui. A fome não precisa ser sinônimo de comer qualquer coisa, de qualquer jeito. Planejar a alimentação ajuda a manter a energia, estabilizar o humor e evitar grandes oscilações glicêmicas que podem aumentar ainda mais a sensação de fome.

O papel das proteínas e fibras na saciedade

Todos os nutrientes são importantes, claro. Mas, dois grupos alimentares fazem toda a diferença para controlar a fome no pós-parto:

– Proteínas, que desaceleram o esvaziamento gástrico e evitam picos de fome pouco tempo depois das refeições.

– Fibras, que aumentam o volume e dão mais sustentação ao prato, além de ajudar no funcionamento intestinal, algo muito importante nas primeiras semanas após o parto.

Combinar os dois é a forma mais eficiente de prolongar a saciedade.

Como montar um prato que realmente sustenta

Para facilitar, pense na montagem assim:

  • 1/4 do prato de proteínas: frango, peixe, ovos, queijo branco, carne, grão-de-bico, lentilha, tofu.
  • 1/2 do prato de vegetais variados, crus ou cozidos, priorizando cores diferentes.
  • 1/4 do prato de carboidratos integrais: arroz integral, batata-doce, abóbora, mandioca, quinoa, massa integral.

Essa distribuição ajuda a fornecer energia constante sem picos e quedas abruptas.

Dicas práticas para lidar com a fome intensa

Se você está pensando se é possível voltar ao corpo de antes de engravidar, a resposta é sim. Mas, para isso, é preciso ter em mente que dieta restritiva e amamentação não combinam, e que a prioridade é amamentar o bebê e manter o corpo saudável. Dito isso, dá para encaixar na rotina algumas estratégias abaixo para dar mais saciedade. 

1) Tenha lanches estruturados sempre à mão

Não só belisquinhos. Um bom lanche combina carboidrato, proteínas e fibras para dar saciedade de verdade.

Algumas ideias:

  • Iogurte natural com chia e fruta.
  • Pão de fermentação natural integral com queijo minas ou pasta de grão-de-bico.
  • Mix de castanhas com uma fruta.
  • Smoothie de fruta com aveia e leite (ou bebida vegetal enriquecida).
  • Ovo cozido com palitos de legumes.

2) Não pule refeições

Mesmo na correria. Longos períodos sem comer aumentam a fome e podem gerar compulsão no final do dia.

3) Beba água suficiente

A hidratação é peça-chave para a produção de leite e influencia diretamente o apetite.

4) Tenha refeições pré-preparadas

Congelar porções, deixar saladas lavadas e lanches montados faz toda diferença na rotina.

Nutri, a fome passa?

A tendência é que sim. Conforme o bebê cresce, o padrão de mamadas muda e o gasto energético materno diminui. Mas, enquanto isso não acontece, o mais importante é entender o corpo, respeitar a fome fisiológica e cuidar da alimentação com estratégia, não com culpa.

A amamentação é intensa, linda e exaustiva. Comer bem não é luxo: é autocuidado para que a mãe siga nutrida, forte e capaz de sustentar esse processo tão demandante.

O corpo no puerpério precisa de tempo para reencontrar seu equilíbrio, e esse tempo varia de mulher para mulher. Algumas percebem a balança mudar mais rápido, outras vivem um processo mais lento, e ambas as experiências são normais.

Com apoio nutricional e emocional, você vai encontrar o ritmo que funciona para você. E, quando isso acontece, o resultado aparece: no corpo, na energia, na autoestima e na forma como você se enxerga nessa nova fase da vida.

  • Amanda Figueiredo

    Nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar. Acredita que trabalhar com nutrição significa poder ajudar quem deseja se alimentar de maneira mais saudável e mostrar os impactos positivos dos bons hábitos. Também pensa que a alimentação saudável não precisa ser sacrificante; ela pode ser criativa e cheia de sabor, principalmente quando a incluímos desde a infância.

Data da postagem: 11 de janeiro de 2026

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