Longevidade começa na infância
“Chega uma hora em que é preciso parar de tirar as pessoas do rio e ir à nascente para descobrir por que elas estão caindo nele.”
— Desmond Tutu
Como assim uma pediatra falando de longevidade? Afinal, longevidade não é um assunto para mais tarde?
Se você digitar essa palavra no Google, provavelmente encontrará imagens de idosos ativos, andando de bicicleta, viajando ou brincando com os netos. Mas a pergunta que quase nunca fazemos é: quando a longevidade começa de verdade?
A resposta pode surpreender. A longevidade começa muito antes da velhice — em muitos casos, antes mesmo do nascimento. Ela se constrói a partir da qualidade dos gametas, influenciada diretamente pelo estilo de vida dos pais, e segue sendo moldada pelas escolhas feitas ao longo da infância. Ela é o resultado de hábitos cotidianos, repetidos silenciosamente ao longo do tempo.
Como pediatra, enxergo a longevidade como parte essencial do cuidado infantil que não pode ser dissociada da saúde da família. São os adultos que organizam a rotina, definem os alimentos disponíveis, o tempo de sono, o espaço para o brincar, o uso de telas e o lugar do movimento no dia a dia. E são essas decisões, aparentemente simples, que ajudam a determinar que tipo de adulto essa criança se tornará.
A pediatria, portanto, é o equilíbrio entre cuidar do presente e preparar o futuro. Muitas das doenças que associamos à vida adulta têm raízes muito mais precoces do que imaginamos. A osteoporose diagnosticada aos 50 anos começa, na verdade, antes da puberdade, quando a formação óssea ainda está em curso. Da mesma forma, um infarto aos 40 anos pode ter iniciado sua trajetória ainda na infância, com hábitos alimentares inadequados, sedentarismo, privação de sono e estresse crônico.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que longevidade é um projeto distante, reservado para depois, para quando o corpo começar a falhar. Na prática, ela é construída nos pequenos hábitos cotidianos, muitas vezes invisíveis, que se repetem durante a infância. No modo como uma criança se alimenta, dorme, brinca, se movimenta, lida com o estresse e se relaciona com o mundo.
Quando olhamos a infância por essa lente, percebemos que cuidar de uma criança não é apenas tratar doenças agudas ou acompanhar curvas de crescimento. É influenciar diretamente o risco — ou a proteção — contra doenças que só irão se manifestar décadas depois. É plantar hoje as bases de um envelhecimento mais saudável, funcional e com mais autonomia. A pediatria da longevidade – a Pediatria do Futuro!
Falar de longevidade na pediatria não é antecipar o futuro — é assumir que ele já começou.









