Quando nasce um filho, não nasce um rei


Lu Salles Hora
por: Lu Salles Hora
Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais - e apaixonada pela arte de educar. Mãe da Laura e do Lucas.

Não sei se você vão concordar comigo, mas eu “desconfio” que, nos dias de hoje, existe uma tendência silenciosa (e um tanto comum) de transformar o amor pelos filhos em blindagem. A intenção é boa, claro! Mas a gente protege tanto, que sem perceber, vamos retirando das crianças exatamente aquilo que as fortalece — a autonomia, a responsabilidade e a capacidade de viver em grupo.

Quando nasce um filho, não nasce um rei.

Nasce uma criança. E uma criança precisa aprender a circular num mundo que não gira em torno dela.

A escola é um bom exemplo: ali, nosso tesouro encontra os tesouros de outras famílias. E ambientes coletivos funcionam com regras compartilhadas — não com exceções personalizadas. Uma coordenadora que admiro sempre me dizia: “Se não dá para fazer com todos, não faça com um só.” Levo essa frase comigo até hoje.

Como professora, vivi muitos episódios que mostram como, às vezes, o excesso de zelo atrapalha mais do que ajuda.

Um dia, uma mãe foi à escola porque o filho reclamou que a comida estava fria. Expliquei: “Ela sai quente do refeitório, mas se a criança demora, conversa, se distrai… ela esfria.” Era algo simples, comum, cotidiano. Mas a vontade de resolver pelo filho impediu que essa mãe desse a ele uma oportunidade de aprender a pensar em alternativas: comer antes, pedir ajuda, aceitar que comida não fica quente por muito tempo.

Autonomia nasce assim — em pequenos exercícios diários, não subestime.

E isso vale também para casa. Arrumar a cama, organizar a mochila, guardar os brinquedos, montar a própria mala… nada disso é peso. É construção de caráter. Crianças que participam da rotina entendem que o coletivo começa dentro de casa, e que ninguém é servido o tempo todo.

Nesse ponto, vale um esclarecimento importante: ser uma mãe ou um pai “chato” não faz de ninguém o vilão da história. Pelo contrário. Quando exigimos, quando dizemos “tenta de novo”, “resolve você”, “eu confio em você”, estamos oferecendo justamente o que mais fortalece uma criança: a confiança de que ela é capaz. Muito se fala em “confortar”, mas excesso de conforto enfraquece. Exigência amorosa constrói.

Hoje, as crianças não “têm tudo” — mas têm acesso a quase tudo, e rápido demais. Isso desgasta dois pilares fundamentais: o valor das coisas e a tolerância à frustração. O papel dos pais não é dar o peixe, e sim ensinar a pescar (e que arquem com os percalços).

No fim, educar é isso: preparar para a vida, não para o pedestal. Nossos filhos não precisam de coroa. Precisam de afeto, limites, responsabilidade e espaço para crescer.

Limite não machuca — estrutura.

Responsabilidade não sobrecarrega — forma.

E autonomia não ameaça o amor — o fortalece.

Se entregarmos isso, estamos entregando ao mundo jovens mais conscientes, mais empáticos e muito mais preparados para viver no coletivo — dentro e fora de casa.

  • Lu Salles Hora

    Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais. Mãe da Laura e do Lucas, esposa do Rafael. Com experiência de + de 20 anos em chão de sala e orientação parental, é apaixonada pela arte de educar e acredita que crescemos à medida que nos relacionamos uns com os outros. Para Luciana, todos somos educadores, basta dar bons exemplos e agir com coração e razão alinhados.

Data da postagem: 28 de novembro de 2025

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