Quando nasce um filho, não nasce um rei
Não sei se você vão concordar comigo, mas eu “desconfio” que, nos dias de hoje, existe uma tendência silenciosa (e um tanto comum) de transformar o amor pelos filhos em blindagem. A intenção é boa, claro! Mas a gente protege tanto, que sem perceber, vamos retirando das crianças exatamente aquilo que as fortalece — a autonomia, a responsabilidade e a capacidade de viver em grupo.
Quando nasce um filho, não nasce um rei.
Nasce uma criança. E uma criança precisa aprender a circular num mundo que não gira em torno dela.
A escola é um bom exemplo: ali, nosso tesouro encontra os tesouros de outras famílias. E ambientes coletivos funcionam com regras compartilhadas — não com exceções personalizadas. Uma coordenadora que admiro sempre me dizia: “Se não dá para fazer com todos, não faça com um só.” Levo essa frase comigo até hoje.
Como professora, vivi muitos episódios que mostram como, às vezes, o excesso de zelo atrapalha mais do que ajuda.
Um dia, uma mãe foi à escola porque o filho reclamou que a comida estava fria. Expliquei: “Ela sai quente do refeitório, mas se a criança demora, conversa, se distrai… ela esfria.” Era algo simples, comum, cotidiano. Mas a vontade de resolver pelo filho impediu que essa mãe desse a ele uma oportunidade de aprender a pensar em alternativas: comer antes, pedir ajuda, aceitar que comida não fica quente por muito tempo.
Autonomia nasce assim — em pequenos exercícios diários, não subestime.
E isso vale também para casa. Arrumar a cama, organizar a mochila, guardar os brinquedos, montar a própria mala… nada disso é peso. É construção de caráter. Crianças que participam da rotina entendem que o coletivo começa dentro de casa, e que ninguém é servido o tempo todo.
Nesse ponto, vale um esclarecimento importante: ser uma mãe ou um pai “chato” não faz de ninguém o vilão da história. Pelo contrário. Quando exigimos, quando dizemos “tenta de novo”, “resolve você”, “eu confio em você”, estamos oferecendo justamente o que mais fortalece uma criança: a confiança de que ela é capaz. Muito se fala em “confortar”, mas excesso de conforto enfraquece. Exigência amorosa constrói.
Hoje, as crianças não “têm tudo” — mas têm acesso a quase tudo, e rápido demais. Isso desgasta dois pilares fundamentais: o valor das coisas e a tolerância à frustração. O papel dos pais não é dar o peixe, e sim ensinar a pescar (e que arquem com os percalços).
No fim, educar é isso: preparar para a vida, não para o pedestal. Nossos filhos não precisam de coroa. Precisam de afeto, limites, responsabilidade e espaço para crescer.
Limite não machuca — estrutura.
Responsabilidade não sobrecarrega — forma.
E autonomia não ameaça o amor — o fortalece.
Se entregarmos isso, estamos entregando ao mundo jovens mais conscientes, mais empáticos e muito mais preparados para viver no coletivo — dentro e fora de casa.








