“Viajar sozinha me fez redescobrir minha coragem”
A maternidade costuma ser associada a descobertas, mas também a renúncias silenciosas. Uma delas é a ideia de viajar sozinha. Longas distâncias, destinos desafiadores e jornadas sem os filhos passam a ser evitados, como se o deslocamento físico representasse não apenas uma ausência temporária, mas uma sentença de distanciamento emocional. Nos últimos anos, algumas mães têm questionado esse roteiro e entendido que se manter inteira também é uma forma de cuidado.

Foi assim que Mari Prieto, fundadora da coisasdenine, mãe do Arthur, de 8 anos, da Liz de 4 anos e madrasta de gêmeos de 29 anos, decidiu voltar a se reconhecer como viajante. A decisão de embarcar sozinha, enquanto os filhos ficavam em casa com o pai, não veio sem conflitos. Ao escolher a Índia como destino, um país de contrastes intensos e cultura distante da sua realidade, ela entendeu que a experiência não poderia ser vivida de forma isolada. Assim, ela construiu outra forma de presença enquanto estava fora, escrevendo um diário de bordo para as crianças. “Resolvi ir e entendi a importância de aproximar minha experiência da realidade deles. Passei a observar o que, naquele lugar, poderia conectá-los à viagem, o que despertaria curiosidade, o que faria sentido para eles.”

A viagem passou a ser mediada por esse olhar. Cada cena era filtrada pela pergunta silenciosa que acompanha muitas mães de como traduzir o mundo para quem ainda está descobrindo tudo. “Pra mim, eles estavam comigo o tempo todo”, diz.
A chegada a Nova Délhi foi marcada pelo choque cultural. O trânsito sem regras, os tuc tucs disputando espaço com carros, motos e pedestres, os macacos que surgem no meio da rua. Em suas primeiras horas na cidade, Mari ficou presa em um elevador. O medo veio imediato, mas também a consciência de que atravessar o desconhecido exige calma. Lembrou-se, então, de algo que aprendeu com os próprios filhos: a coragem não é ausência de medo, mas a decisão de seguir apesar dele.
Ao caminhar pela cidade, Mari se deparou com cenas de pobreza extrema, sujeira e desigualdade. Ao mesmo tempo, encontrou gestos inesperados de alegria. Uma menina equilibrava-se em uma corda enquanto brincava com slime, em meio à confusão urbana. A imagem virou símbolo da viagem. “Me fez pensar em como nossa vida é cheia de privilégios e em quantas formas diferentes de viver existem.”



Os templos, grandiosos e repletos de detalhes, pareciam palácios de outras narrativas. Cada religião, uma crença. Cada ritual, uma interpretação do mundo. “Estou aprendendo que tudo pode ser completamente diferente”, registrou no diário.
Viajar sozinha, no entanto, exigiu uma negociação interna profunda. Mesmo sabendo falar três idiomas, tendo viajado sozinha na adolescência e cruzado países com uma mochila nas costas, a coragem parecia menor após a maternidade. “Pensei em tudo o que poderia dar errado. Em estar longe. Neles aqui. Será que eu me perdoaria se algo acontecesse?”

Para Mari, a maternidade é um portal sem retorno. Atravessá-lo transforma o corpo, o tempo e a forma de existir no mundo. “Fazer algo exclusivamente para mim, por prazer, parecia quase proibido. Talvez seja culpa. Talvez controle.”
Essa percepção atravessou o diário enviado às crianças. Ao narrar o contraste entre carência material e alegria possível, Mari não falava apenas da Índia. Falava sobre privilégio, diversidade e sobre a multiplicidade de formas de existir no mundo. Era uma conversa silenciosa com os filhos sobre empatia, diferença e pertencimento. Para uma mãe, reconhecer que o mundo não cabe em um único modelo também é aceitar que os filhos irão construir suas próprias leituras da realidade.

A viagem não foi apenas sobre deslocamento geográfico, mas sobre redescoberta e pertencimento. Ao transformar a experiência em narrativa compartilhada, Mari construiu uma presença que atravessou a distância. Ao voltar, trouxe mais do que memórias, mas a certeza de que uma mãe pode ir e continuar ficando. E que, ao se reconhecer inteira, volta também mais disponível para os filhos. “Eu ainda não acredito que fui”, finaliza.








