O perigo que habita o celular do adolescente sem fiscalização


Lúcia Paschinelli
por: Lúcia Paschinelli
Psicóloga clínica especialista em relações familiares, adolescência e vínculos afetivos e mãe do Leonardo.
(foto: Freepik)


Quando um adolescente recebe um smartphone com acesso irrestrito à internet, ele não está recebendo apenas uma ferramenta de comunicação. Está recebendo acesso a pornografia, jogos de azar, violência explícita, desafios perigosos, discursos de ódio, manipulação ideológica, golpes financeiros, predadores sexuais e uma comparação social constante e esmagadora.
E tudo isso sem maturidade cerebral concluída.
O cérebro adolescente ainda não está pronto. A neurociência é clara: o córtex pré-frontal, área responsável por julgamento, planejamento, controle de impulsos e avaliação de riscos, só termina de amadurecer bem mais tarde.
Isso significa que o adolescente:
• Busca recompensa imediata.
• É altamente sensível à aprovação social.
• Assume mais riscos.
• Subestima consequências.

Quando colocamos um celular sem supervisão em suas mãos, oferecemos um ambiente projetado exatamente para explorar essas vulnerabilidades. As plataformas são estruturadas para prender atenção. Elas competem pelo tempo do seu filho.
E, muitas vezes, estão ganhando.
Vou citar alguns perigos que muitas mães sequer imaginam.

A pornografia

É um dos maiores riscos silenciosos da atualidade, acontecendo cada vez mais cedo, muitas vezes antes dos 12 anos.

E o que isso gera?
• Distorção sobre sexualidade.
• Objetificação do corpo feminino e masculino.
• Aumento de práticas de risco.
• Ansiedade de desempenho.
• Dessensibilização afetiva.
• Vulgarização do vínculo.

O adolescente passa a aprender sobre intimidade por meio de conteúdos que nada têm a ver com afeto, respeito, consentimento ou construção emocional.
E o mais alarmante: muitos pais nem sabem que isso já aconteceu.

A saúde mental

Diversos estudos correlacionam o uso excessivo de redes sociais com:
• Aumento de ansiedade.
• Sintomas depressivos.
• Alterações no sono.
• Queda da autoestima.
• Comparação social tóxica.
• Cyberbullying.

O celular não é apenas um aparelho. É uma vitrine constante onde seu filho mede seu valor pelo número de curtidas.
E a autoestima adolescente, por natureza, já é frágil.

O isolamento dentro de casa

O medo do mundo externo não elimina riscos, apenas os desloca para dentro do quarto.
Um adolescente silencioso, isolado com o celular, não está necessariamente seguro.
Ele pode estar:
• Em grupos violentos.
• Sendo aliciado.
• Sofrendo chantagem.
• Vivenciando bullying.
• Compartilhando imagens íntimas.
• Jogando de forma compulsiva.
• Consumindo conteúdos autodestrutivos.

O perigo moderno não faz barulho.
Ele é silencioso, individualizado e acontece sob o Wi-Fi da própria casa.

“Mas eu confio no meu filho”

Confiança não exclui supervisão.
A função parental não é vigiar por desconfiança, mas acompanhar por responsabilidade.
Nenhum pai permitiria que um filho de 13 anos dirigisse sozinho em uma rodovia.
Por que permitir que ele navegue sozinho no ambiente mais perigoso da atualidade?

Supervisionar não é invadir privacidade.
É oferecer estrutura enquanto a autonomia ainda está sendo construída.

O que fazer na prática?

Não se trata de proibir tudo.
Trata-se de educar, estruturar e acompanhar.

Algumas diretrizes essenciais:
• O celular não deve dormir no quarto.
• Senhas devem ser compartilhadas até certa idade.
• Estabeleça limites claros de horário.
• Converse com frequência sobre o que ele consome.
• Utilize aplicativos de controle parental.
• Promova educação digital dentro de casa.
• Dê o exemplo no seu próprio uso.
E, acima de tudo, ofereça presença emocional.
Um adolescente emocionalmente conectado busca menos validação no mundo virtual.
O maior risco não é o celular. É o abandono digital.
Quando os pais dizem:
“Eu não sei mexer nisso.”
“Essa é a geração deles.”
“Não tenho tempo para ver.”
Sem perceber, estão entregando a formação emocional, moral e sexual do filho ao algoritmo.
E o algoritmo não ama seu filho.
Ele quer engajamento.
Educar hoje inclui educar para o digital. A internet não é um território neutro. É um ambiente que molda identidade, crenças, sexualidade e comportamento.
E o adolescente precisa de guia.
Não de permissividade.
O celular pode ser uma ferramenta de aprendizado, conexão e criatividade.
Mas, sem fiscalização, pode se tornar um portal para traumas silenciosos que só aparecerão anos depois, na forma de vícios, distorções afetivas, ansiedade crônica ou dificuldade de construir relações saudáveis.
A pergunta não é se seu filho vai acessar o mundo digital.
A pergunta é:
Ele vai acessar sozinho ou com a sua presença?
Porque autoridade amorosa não é controle excessivo.
É proteção estruturada.
E proteger também é amar.

  • Lúcia Paschinelli

    Psicóloga clínica na abordagem Analítica Junguiana, com mais de 23 anos de experiência, Lúcia é especialista em relações familiares, casais em reconexão, desenvolvimento emocional e orientação parental para a adolescência. Atua em momentos de transição e crise, facilitando a reconstrução de vínculos e o encontro com novas formas de convivência. Palestrante, mentora de mães e autora de conteúdos que unem ciência, escuta profunda e alma, Lúcia também é fundadora de uma ONG de proteção animal e mãe do Leonardo. Compartilha sua vivência real de maternidade e profissão com sensibilidade, bom humor e profundidade. Ela acredita que todo relacionamento pode ser ressignificado, desde que haja presença, coragem e escuta verdadeira. “O vínculo salva.”

Data da postagem: 27 de fevereiro de 2026

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