Civilidade: a lição que nossos filhos aprendem observando
Recentemente visitei o Instituto Inhotim e, além da exuberância artística e da beleza natural do local, algo me chamou profundamente a atenção: o nível de civilidade das pessoas que frequentam aquele espaço.
As áreas comuns estavam sempre organizadas. O silêncio respeitado nas galerias. Os banheiros sempre limpos. E não era porque havia um funcionário limpando a cada poucos minutos. Era porque os visitantes agiam como se aquele lugar também lhes pertencesse.
Isso, para mim, é educação.
Como mãe e como educadora, acredito que a maior herança que podemos deixar aos nossos filhos não é apenas acadêmica. É ética. Agir como dono — mesmo quando não somos.
Não se trata de mandar e desmandar. Quero aqui falar sobre zelo, apreço, respeito e cuidado. Civilidade nasce quando compreendemos que todo espaço coletivo exige responsabilidade compartilhada, simples assim.
Isso significa que:
- Se você aluga uma casa de veraneio, age como se ela fosse sua, preserva.
- Se trabalha em uma escola ou em um escritório, age como se fosse seu: cuida, recolhe um papel do chão, volta os móveis para o lugar etc.
- Se seu filho entende que a escola também é dele, ele respeita e prepara o espaço para o próximo que chegar. Afinal quem gosta de chegar e encontrar um ambiente sujo e bagunçado?
Quando alguém se comporta como mero usuário temporário, transfere a responsabilidade: “depois alguém limpa”, “depois alguém organiza”, “depois alguém resolve”. Mas o resultado desse comportamento pode ser catastrófico… esse alguém pode virar uma persona non grata, experimente ter um convidado assim na sua casa e me diga se você volta a convida-lo.
Sociedades maduras são construídas quando cada indivíduo assume sua parte.
O filósofo alemão Emanuel Kant formulou o chamado imperativo categórico: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer que ela se torne lei universal.” Em termos simples: aja de forma que seu comportamento possa virar regra para todos.
Essa reflexão é extremamente atual quando educamos crianças e adolescentes. Se todos agirem como meu filho age, o ambiente melhora ou piora? Ou melhor, estou sendo um bom exemplo? Eu estou fazendo a minha parte?
Essa pergunta é formadora de consciência moral.
A formação cidadã está na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que rege o ensino brasileiro. Ela estabelece entre suas competências gerais, o desenvolvimento da responsabilidade, da empatia, da cooperação e do compromisso com o bem comum.
Então vamos lá, na escola (como eu sempre digo), não ensinamos apenas conteúdos acadêmicos, formamos cidadãos capazes de conviver em sociedade. Civilidade, portanto, não é um “extra”. É fundamento da educação brasileira. E essa formação não acontece apenas em projetos pontuais. Ela acontece no cotidiano: no papel que vai para o lixo, na carteira organizada, no banheiro deixado limpo para o próximo.
Parece simples e óbvio mas nem todo mundo pára pra pensar sobre. É no detalhe que o caráter é treinado.
Não sei você, mas eu já recebi tantos vídeos de escolas orientais, onde as próprias crianças limpam as salas, organizam os espaços e ajudam os colegas. E todo mundo acha lindo, compartilha, comenta…. Mas pratica? Educar exige coerência, não basta admirar…
Ali, a limpeza não é punição. É pedagogia.
Ensina-se que o espaço é coletivo e que todos são responsáveis por ele.
Cultura não é genética. É construída e aprendida. E começa com decisões adultas.
Nós, pais e educadores, ensinamos nossos filhos a cobrar seus direitos — e isso é importante. Mas também precisamos ensiná-los sobre seus deveres.
É comum exigirmos melhores serviços públicos, melhor gestão, mais eficiência das autoridades. Contudo, uma pergunta precisa nos acompanhar: estamos fazendo a nossa parte como cidadãos?
Se cada família ensinar seus filhos a preservar o espaço público, a respeitar regras e a cuidar do que é coletivo, estaremos facilitando inclusive o trabalho de quem administra. E aí? Bora formar adultos conscientes?
Sabe aquela máxima: gentileza gera gentileza? Pois é, de fato a gentileza é contagiosa.
Existe um princípio estudado pela psicologia social chamado reciprocidade: quando alguém age com respeito e generosidade, a tendência é que o outro responda da mesma forma.
Nas minhas aulas de ginástica, cada aluna guardava apenas o próprio material ao final da atividade. Isso era o normal…. Até que um belo dia, um novo professor começou a dar as aulas e o seu jeito era diferente. Ao final, ele ajudava todas a recolher os halteres e organizar o espaço. Não era obrigação formal dele, era postura. Em pouco tempo, as próprias alunas passaram a ajudar umas às outras. O ambiente mudou. Uma atitude gerou cultura.
É exatamente assim que educamos crianças e adolescentes: pelo exemplo consistente.
O exemplo adulto não descansa. E aqui está um ponto central da formação moral: Constância.
A criança aprende menos pelo discurso e muito mais pela observação.
Se dentro de casa há respeito, ela aprende respeito.
Se há desrespeito, ela aprende desrespeito.
Se há cuidado com o coletivo, ela internaliza responsabilidade.
Se há negligência, ela reproduz negligência.
Se um filho fala palavrões com naturalidade, provavelmente (ou certamente?) ouviu isso de algum adulto. Se trata mal alguém, observou esse comportamento sendo legitimado.
Educar é assumir essa responsabilidade com maturidade. Não é viver sob tensão permanente, mas compreender que somos referência contínua.








