Fat talk: Quando a conversa sobre o corpo se torna prejudicial para as crianças


Amanda Figueiredo
por: Amanda Figueiredo
Amanda Figueiredo (@nutriamandafig) é nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar.

“Eu estou gorda.” “Você vai comer tudo isso?” “Preciso emagrecer urgente.” “Fulana engordou muito.”

Frases como essas parecem comuns dentro de muitas famílias. Muitas vezes são ditas sem intenção de machucar, em tom de brincadeira ou até como uma tentativa de incentivar hábitos mais saudáveis. Mas, crianças escutam, absorvem e aprendem muito sobre corpo e alimentação dentro de casa, o que pode impactar a forma como elas enxergam a si mesmas no futuro e a relação com a comida.

Esse tipo de comportamento tem até um nome, fat talk. O termo se refere a conversas sobre peso, corpo e aparência feitas na frente das crianças, seja sobre elas mesmas, sobre outras pessoas ou sobre o próprio corpo dos pais.

Embora muitas famílias acreditem que falar sobre peso ajude a prevenir obesidade ou estimular hábitos saudáveis, as pesquisas mostram o contrário.

Por que falar sobre peso pode ser prejudicial?

Do ponto de vista nutricional e emocional, crianças não precisam crescer ouvindo que corpos precisam ser corrigidos.

Comentários sobre peso, mesmo quando parecem positivos, podem gerar insegurança, preocupação excessiva com aparência, culpa alimentar, baixa autoestima e relação difícil com a comida.

Em 2016, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou uma diretriz recomendando que adultos evitem conversas sobre peso na frente de crianças e adolescentes. Isso porque estudos mostram que focar excessivamente em peso e aparência aumenta o risco de transtornos alimentares e comportamentos prejudiciais relacionados ao controle de peso.

Além disso, quando a criança cresce ouvindo comentários sobre dietas, culpa alimentar ou insatisfação corporal, ela aprende que o valor do corpo está ligado à aparência, e não à saúde, funcionalidade e bem-estar.

O problema não é apenas o que falamos para as crianças

Muitas vezes, os comentários mais impactantes nem são direcionados à criança.

Quando uma mãe diz diariamente que está gorda, fora do corpo ideal ou que não pode comer porque engorda, a criança aprende silenciosamente como deve enxergar o próprio corpo.

As crianças observam o tempo todo como os pais falam sobre comida, como reagem ao espelho, como lidam com o peso e como tratam o corpo das outras pessoas.

Por isso, criar filhos com uma relação saudável com a alimentação também exige que os adultos revisitem a própria relação com comida e imagem corporal.

Em vez de peso, foque em saúde

A pergunta mais importante não deveria ser “Estou magro o suficiente?”. E sim:
“Meu corpo está funcionando bem?”. “Tenho energia?”.  “Minha alimentação é equilibrada?”. “Como está minha saúde mental?”.  “Minha relação com a comida é tranquila?”

Como conversar com crianças sobre alimentação de forma saudável

Evitar o fat talk não significa ignorar saúde ou hábitos alimentares. Pelo contrário. Crianças precisam aprender sobre a importância de se alimentar bem. Mas, sem medo, culpa ou obsessão corporal.

Em vez de focar em peso, o ideal é falar sobre energia, força, crescimento, saúde e disposição. Ensinar hábitos alimentares saudáveis é muito mais eficaz do que incentivar dietas ou restrições.

Incentive variedade alimentar, refeições em família e uma relação leve com os alimentos. Explicar que alguns alimentos devem aparecer com menos frequência faz sentido. Mas, transformar comida em proibida, ruim ou engordativa pode gerar ansiedade e culpa.

Como criar um ambiente emocionalmente seguro

Uma das estratégias mais importantes é criar espaço para diálogo sem julgamento. Perguntas simples, indagando como ela está se sentindo, já podem ajudar a criança a expressar emoções sem associar tudo ao corpo. E se ela trouxer preocupações sobre aparência ou peso, o mais importante é acolher sem reforçar padrões estéticos ou números na balança.

O exemplo faz toda diferença

As crianças aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso. Por isso, vale observar, como você fala sobre seu próprio corpo, se comenta frequentemente sobre peso alheio ou se associa comida à culpa.

Não é necessário ser perfeita para ensinar uma relação saudável com a alimentação. Mas, pequenas mudanças de linguagem dentro de casa podem fazer enorme diferença na construção da autoestima infantil.

Criar crianças com uma relação mais leve com comida e corpo é também uma forma de proteger saúde mental, autoestima e qualidade de vida no futuro.

Para saber mais

O livro Fat Talk: Parenting in the Age of Diet Culture é um NEW YORK TIMES BESTSELLER que aprofunda de forma muito interessante como a cultura da dieta impacta crianças e famílias, além de trazer reflexões importantes sobre alimentação, autoestima e criação de filhos em uma sociedade obcecada por peso e aparência.

  • Amanda Figueiredo

    Nutricionista clínica pela USP, especialista em saúde da mulher, gestantes e introdução alimentar. Acredita que trabalhar com nutrição significa poder ajudar quem deseja se alimentar de maneira mais saudável e mostrar os impactos positivos dos bons hábitos. Também pensa que a alimentação saudável não precisa ser sacrificante; ela pode ser criativa e cheia de sabor, principalmente quando a incluímos desde a infância.

Data da postagem: 10 de junho de 2026

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