A preguiça que ninguém vê (mas a gente sente todo dia)
Quando pensamos em preguiça, imaginamos alguém deitado no sofá, sem vontade de fazer nada. Mas, para quem é mãe, trabalha, cuida da casa, dos filhos e vive com a agenda cheia, a preguiça quase nunca se apresenta assim. Ela é muito mais sofisticada.
Ela aparece quando adiamos aquela conversa difícil com o chefe. Quando deixamos de enviar uma mensagem para alguém que admiramos. Quando prometemos que “na semana que vem” vamos atualizar o LinkedIn, começar uma especialização, organizar nosso plano de carreira ou finalmente tirar aquele projeto da gaveta.
A verdade é que a preguiça não rouba apenas algumas horas do nosso dia. Ela rouba oportunidades que talvez nunca mais voltem. Enquanto esperamos o momento perfeito, outras pessoas se apresentam, se candidatam, levantam a mão, aprendem uma habilidade nova, fazem um contato importante ou simplesmente têm coragem de tentar.
A acídia (estado de apatia, desânimo profundo; derivada do grego akedia que significa “falta de cuidado”, caracteriza-se por uma profunda melancolia, aversão às obrigações e um vazio interior paralisante que afasta a pessoa do propósito e da alegria), segundo Santo Tomás de Aquino, é uma espécie particular de tristeza. É um tipo de abatimento até espiritual que resulta na falta de motivação para realizar atos bons e virtuosos. A acídia é frequentemente associada à preguiça, mas é mais profunda e complexa. Ela representa uma forma de desespero que mina a energia, levando à inação e ao abandono das responsabilidades espirituais. É por isso que Aquino classifica a acídia como um pecado capital, pois é a raiz de muitos outros pecados, como a negligência dos deveres e o afastamento da vida comunitária. Durante muito tempo, a preguiça foi entendida não apenas como falta de disposição física, mas como a resistência em fazer o bem que sabemos que deveríamos fazer. E isso muda completamente a conversa.
Porque não estamos falando de descansar. Descanso é necessário, saudável e faz parte de qualquer vida equilibrada. Estamos falando daquele impulso silencioso que nos convence a deixar para depois aquilo que pode transformar nosso futuro. Nosso corpo, nossa mente, nossa alma.
Como mãe, conheço bem a tentação de acreditar que “agora não é a minha vez”. Já voltei de cinco licenças-maternidade. Em vários momentos, parecia mais fácil apenas cumprir a rotina e esperar uma fase melhor da vida. Mas aprendi que carreira também é construída nos pequenos atos de coragem. Um e-mail enviado. Um café marcado. Um livro terminado. Uma candidatura feita. Um pedido de promoção. Um primeiro post publicado. Nenhuma grande carreira nasce de um único gesto heroico. Ela nasce da disciplina de vencer pequenas batalhas diárias contra o comodismo.
Talvez seja exatamente isso que nossos filhos mais aprendam ao nos observar. Não que damos conta de tudo. Mas que continuamos caminhando mesmo quando seria mais confortável permanecer onde estamos.
No fim das contas, a preguiça promete conforto imediato, mas cobra um preço alto demais: o arrependimento de uma vida que poderia ter sido maior. E, se existe uma virtude que vale a pena cultivar todos os dias, é a disposição de dar o próximo passo, mesmo quando ele parece pequeno. Afinal, carreiras extraordinárias e famílias fortes não são construídas por pessoas perfeitas. São construídas por pessoas que escolhem, repetidamente, agir apesar da vontade de adiar.








