Quando descobri uma maternidade que quase ninguém estava olhando


Mariana Sotero Bonnás
por: Mariana Sotero Bonnás
Psicóloga, pedagoga e mãe do Vítor e da Mariah. Idealizadora da Psicologia da Maternidade Atípica, fundadora do InPMA e autora do livro Mães Atípicas: a maternidade que ninguém vê.

Cláudia sempre teve uma preocupação em cuidar do próprio corpo e da sua saúde emocional. Gostava de fazer atividade física, tinha seus momentos de descanso e procurava manter uma rotina que lhe permitisse estar bem. Quando Lucas nasceu, porém, essa organização desapareceu. Ele nasceu prematuro e apresentou algumas necessidades que exigiram acompanhamento constante e, aos poucos, cuidar dele passou a ocupar praticamente todo o seu tempo e sua energia.

Lucas já está com cinco anos, continua precisando de cuidados específicos e Cláudia ainda não conseguiu retomar os cuidados que tinha consigo antes da maternidade. Não porque não saiba que também precisa deles, nem porque tenha deixado de se importar com a própria saúde. A questão é que, ao longo desses anos, ela precisou colocar as necessidades do filho antes das suas e passou a acreditar que sempre havia alguma coisa mais urgente para resolver.

Histórias como a de Cláudia me fizeram perceber que, quando uma mãe atípica chega ao meu consultório, durante as primeiras sessões ela costuma falar quase o tempo todo sobre o filho. Ela conta sobre o diagnóstico, as terapias, os médicos, a escola, as dificuldades do dia a dia e todas as preocupações que carrega. Muitas vezes, elas sabem explicar com detalhes aquilo que está acontecendo com a criança, mas não sabem como responder a uma pergunta “simples” que eu faço: “E você, como está?”

Lembro de uma mãe que ficou em silêncio quando fiz essa pergunta. Ela pensou, tentou organizar o que queria dizer e acabou respondendo que não sabia. Não era falta de vontade de falar sobre si. Ela simplesmente estava há tanto tempo concentrada em cuidar que já não sabia muito bem como olhar para as próprias necessidades.

Esse tipo de situação começou a chamar minha atenção ainda no início da minha trajetória profissional. Eu percebia que aquelas mulheres não estavam apenas cansadas por terem uma rotina mais cheia. Havia algo maior acontecendo. A maternidade tinha adquirido uma configuração diferente daquela que elas haviam imaginado e, junto com todas as demandas relacionadas aos filhos, elas também precisavam lidar com mudanças profundas em suas próprias vidas.

Quando um filho recebe um diagnóstico de algum transtorno, deficiência, síndrome rara ou qualquer outra condição que demande cuidados específicos, é natural que a família passe a se organizar em torno das necessidades daquela pessoa, principalmente quando se trata de uma criança. Surgem consultas, terapias, adaptações, decisões importantes e uma quantidade enorme de informações que precisam ser assimiladas. Em muitos casos, os pais também precisam aprender a lidar com uma sociedade que ainda não está preparada para receber seus filhos. A criança precisa de cuidado e atenção, mas existe uma outra pessoa vivendo intensamente todas essas mudanças: a mãe.

Antes de ser mãe, ela tinha uma história própria, com seus projetos, interesses, relacionamentos, profissão e uma ideia de futuro. A chegada de um filho já provoca mudanças importantes na vida de qualquer mulher, mas algumas maternidades exigem uma reorganização muito maior da rotina e dos planos. Em determinadas situações, a mãe precisa deixar o trabalho, mudar de cidade, reorganizar o casamento, reduzir sua vida social ou passar boa parte do tempo acompanhando tratamentos e buscando recursos para o filho, e essas mudanças não acontecem sem consequências emocionais.

Quando comecei minha carreira na psicologia, acreditava que uma formação sólida, aliada ao conhecimento da abordagem que eu utilizava e à experiência clínica, seriam suficientes para receber diferentes tipos de demanda. Eu havia estudado questões como ansiedade, depressão, luto, autoestima, relacionamentos e outras situações que fazem parte da prática clínica. Com o tempo, porém, percebi que as mães atípicas me colocavam diante de perguntas que eu ainda não sabia responder tão bem quanto gostaria. 

Muitas chegavam falando de ansiedade, mas estavam lidando com um futuro cheio de incertezas; outras estavam exaustas por uma rotina de cuidados que não dava espaço para descanso, enfrentavam dificuldades no casamento ou já não se reconheciam depois de anos colocando as próprias necessidades em segundo plano.

Eu poderia simplesmente tratar cada uma dessas queixas utilizando os conhecimentos que já tinha, mas comecei a perceber que isso seria insuficiente se eu não compreendesse o contexto em que aquela mulher estava vivendo.

Foi então que comecei a estudar mais, a ouvir mais e a observar o que se repetia nas histórias que chegavam até mim. Quanto mais eu conhecia essas mães, mais percebia que existia uma experiência psicológica específica que precisava ser compreendida. Não porque todas essas mulheres fossem iguais ou porque existisse um conjunto de sentimentos obrigatório para quem vive uma maternidade atípica, mas porque determinadas questões apareciam com frequência e eram influenciadas diretamente pelas características daquela realidade.

Entre elas estavam a culpa, o medo do futuro, a exaustão, a dificuldade de se reconhecer e os sentimentos ambivalentes que muitas mães tinham vergonha de admitir. Muitas amavam profundamente seus filhos, mas também sentiam falta da vida que haviam imaginado. Sentiam orgulho de suas conquistas, mas continuavam preocupadas com o futuro. Queriam estar presentes para os filhos, mas também sentiam falta de outros aspectos da própria vida. Quando não existe espaço para falar sobre essas contradições, é muito fácil transformar sentimentos humanos em culpa.

Foi a partir dessa percepção, construída ao longo dos anos de prática clínica e estudo, que idealizei a psicologia da maternidade atípica como uma área de atuação dentro da psicologia e criei uma capacitação para psicólogos, porque percebi que, assim como eu precisei buscar conhecimento para compreender melhor essas mulheres, muitos profissionais também não tiveram contato, em sua formação, com as particularidades dessa maternidade.

Não acredito em fórmulas para esse atendimento, porque cada mãe chega ao consultório com uma história, uma personalidade, uma estrutura familiar e condições de vida diferentes. O que acredito ser necessário é que o profissional tenha conhecimento suficiente para não reduzir aquela mulher ao diagnóstico do filho e consiga compreender o contexto em que sua queixa está inserida.

É nesse ponto que acredito que cuidar da saúde mental de uma mãe atípica se torna tão importante. Ela pode precisar falar sobre o filho, mas também precisa ter espaço para falar sobre o casamento, o trabalho, a sexualidade, os desejos, os medos, a identidade e tudo aquilo que continua fazendo parte de quem ela é.

Cuidar da saúde mental de uma mãe atípica significa olhar para quem ela é, para o que sente, o que deseja e para as mudanças que essa maternidade trouxe para sua vida.

  • Mariana Sotero Bonnás

    Mãe do Vítor e da Mariah, psicóloga, pedagoga, escritora e palestrante, com 18 anos de experiência no trabalho com famílias atípicas. É idealizadora da Psicologia da Maternidade Atípica e fundadora do InPMA, Instituto de Psicologia da Maternidade Atípica, criado para ampliar o conhecimento e qualificar o cuidado psicológico às mães atípicas. É autora do livro Mães Atípicas: a maternidade que ninguém vê, idealizadora e professora da Capacitação em Psicologia da Maternidade Atípica e criadora do Método AMA. Também atua como Diretora do Núcleo de Acolhimento da Associação Brasileira da Síndrome de Prader-Willi. Sua atuação une experiência clínica, formação profissional, produção de conhecimento e comunicação, com o propósito de transformar a forma como as mães atípicas são compreendidas, acolhidas e cuidadas. É graduada em Psicologia pela PUCPR e em Pedagogia pela FAM, com especializações em Terapia Cognitivo-Comportamental pela USP, Psicologia e Autismo pela UNIARA e Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade de Educação São Luís.

Data da postagem: 14 de setembro de 2026

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