Mais sono, mais presença, mais vida: o que as crianças ganham quando se afastam das telas


Paula Cabrera
por: Paula Cabrera
Jornalista, apaixonada por contar histórias e conectar pessoas, e mãe da Isabela
Estudo da faculdade de Genebra mostra que crianças que deixam o celular longe da mesa de cabeceira têm melhor sono e aproveitamento escolar (Foto: Divulgação/Freepik)

Em muitas casas, o celular virou quase um membro da família. Ele dorme na mesa de cabeceira, acompanha o trajeto de casa, está à mesa nas refeições… Mas, longe dos alertas sobre o que se perde com as telas, o debate atual aponta para algo mais inspirador. A pergunta agora é o que a infância e adolescência ganham quando o toque de vibração silencia. E elas ganham muito, como você pode confirmar aqui:

Menos telas, mais qualidade de sono

Pesquisas da Universidade de Genebra mostram que, ao retirar o celular do quarto dos adolescentes, eles conquistam cerca de quarenta minutos a mais de sono por noite. Esse tempo extra funciona como um ajuste fino na engrenagem biológica. A mente descansa melhor, a memória se organiza, o humor se estabiliza e o corpo recupera energia para um novo dia. Quem dorme mais aprende com mais facilidade, reage com mais equilíbrio e vive com mais disposição e energia para o dia seguinte. Quando esse processo falha, todo o resto se desequilibra. “Quando a criança dorme menos, ela tem uma alteração da liberação de hormônios de fome e saciedade. Então, ela come mal, isso aumenta o risco de obesidade, que por sua vez, aumenta o risco de diabetes, de doenças cardiovasculares. Quando a criança dorme mal, ela aumenta a resistência periférica à insulina, então também aumenta o risco de diabetes. Ela tem menos energia para fazer uma atividade física, o que também corrobora para aumentar o peso e aumentar o risco dessas doenças crônicas não transmissíveis. Então, o sono é um dos dados que mais mostra que [o celular] afeta todo esse fluxo relacionado à saúde física e mental”, explica a pediatra e especialista Flávia Oliveira.

Tempo fora das telas ajuda na construção da autoestima e na diminuição do risco de doenças como a diabetes (Foto: Divulgaçãp/Freepik)

Menos telas, mais interesse

O afastamento das telas também reabre espaço para habilidades sociais que florescem no mundo real. A pediatra e pesquisadora Betina Laterman acompanha há mais de vinte anos o desenvolvimento infantil e observa diariamente o impacto positivo do tempo offline. As crianças recuperam interesse por atividades concretas, ganham fôlego para sustentar atenção e desenvolvem uma relação mais saudável com a frustração. No convívio presencial, voltam a perceber expressões, gestos, nuances emocionais. Essas pequenas leituras do outro, tão essenciais e tão raras na vida digital, reaparecem quando o tempo deixa de ser consumido por estímulos imediatos. “A criança que vive num fluxo contínuo de novidades perde ferramentas para sustentar processos mais longos. Não é falta de vontade. É uma construção cerebral moldada pelo excesso de estímulo”, explica.

Menos telas, mais autoestima

A autoestima também se fortalece quando há menos exposição. As meninas se afastam do comparativo constante com imagens filtradas e narrativas impossíveis. Os meninos evitam a lógica acelerada dos jogos e dos conteúdos viciantes. Com menos pressão externa, surge mais espaço interno para que cada um descubra quem é e o que gosta. “A rede social, ela tem mais impacto nas meninas, de olhar a vida da outra pessoa e achar que a vida é uma maravilha, perfeita. E ela não vê o que tá por trás daqueles stories. A gente sabe que existe um filtro, tanto um filtro realmente, pra ficar mais bonito, quanto um filtro da vida real, mas para uma menina que tem catorze anos e tá se descobrindo ainda, é muito agressivo e é difícil dela lidar com uma rejeição, dela colocar uma foto e ninguém curtir, por exemplo. Então, o impacto é muito grande”, afirma Flavia. 

Jogos e redes sociais podem ter impactos severos em meninos e meninas, respectivamente (Foto: Divulgaçãp/Freepik)

Já para os meninos, as telas trazem questões centrais sobre vícios, principalmente nos jogos online e em conteúdo adulto. “É uma questão um pouco mais dopaminérgica, ou seja, ele vicia mais nesses conteúdos do que na rede social. Então, para os meninos, existem estatísticas que mostram que, para eles, (o vício em telas) seja até pior”, diz. 

Menos telas, mais vínculo familiar

Flávia e Betina concordam que a mediação adulta transforma esse processo em algo ainda mais valioso. Quando a família estabelece regras claras e cria rituais offline, as crianças ganham pertencimento. É o jogo de tabuleiro do fim de semana, a ida ao cinema, o passeio pela cidade, a conversa da noite sem telas na mesa. Esses momentos fortalecem vínculos e trazem de volta uma sensação de presença que não depende de tecnologia.

Na rotina de Flávia, o celular tem regras simples. O filho mais novo não usa. O mais velho tem horário e não acessa redes sociais. Ela diz que confia nos filhos, mas não pode confiar num cérebro imaturo que ainda não aprendeu a frear impulsos.

Propor tempo de atividades em famílias, como noites de jogos, podem ser o melhor caminho para o equilíbrio (Foto: Divulgação/Freepik)

Menos telas, mais programas offline

Betina segue uma lógica semelhante e reforça a importância de experiências reais em família. Para ela, estar com outras pessoas em ambientes físicos cria memórias duradouras e repertório emocional.“Dentro das possibilidades, dentro do mundo de cada pessoa, mas criar os ambientes offline. E, é algo que eu também sempre priorizei, foi estar com outras pessoas em outros ambientes. Sempre atenta às programações pagas e não pagas, do que a cidade oferece.

E todo final de semana tem alguma coisa diferente pra ser feita. Entre as nossas viagens, é sempre dentro das possibilidades daquele momento. Outro programa que faz parte da nossa vida, é, até agora na adolescência, no dia a dia, é o cinema. Não deixa de ser uma tela, mas é cultura. Um jantar divertido pra gente poder conversar sobre aquilo que a gente vivenciou”, diz Betina.

As médicas reforçam que a coerência entre discurso e prática é essencial para que os jovens internalizem que a vida fora da tela é valiosa, segura, divertida e o principal: não requer tantos filtros.

  • Paula Cabrera

    Jornalista, apaixonada por contar histórias e conectar pessoas, e mãe da Isabela

Data da postagem: 10 de março de 2026

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