Será que você está sofrendo da “síndrome da escola do filho dos outros”?


Lu Salles Hora
por: Lu Salles Hora
Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais - e apaixonada pela arte de educar. Mãe da Laura e do Lucas.

Meu filho está feliz na escola.

Ele tem amigos, gosta dos professores, vai para a aula sem grandes dramas, eu gosto da proposta pedagógica, a escola é perto de casa e — aspecto nada irrelevante nessa história — eu consigo pagar a mensalidade.

Tudo certo.

Então alguém me explica por que basta uma mãe, durante uma festa de aniversário, dizer:

— Meu filho está estudando na escola X e estamos amando!

… para, quinze minutos depois, eu estar com a pulga atrás da orelha e começar a pesquisar sobre a tal escola X?

Porque é assim… A gente escolhe a escola. Gosta da escola. Defende a escola… Até descobrir a escola dos outros.

E aí começa:

“Será que é mais forte?”
“Será que o inglês é melhor?”
“Eles fazem intercâmbio?”
“E as famílias?”
“E o networking?”
“Meu Deus, será que meus filhos estão perdendo alguma oportunidade importante?”

Pronto. Seu filho estava perfeitamente bem às 14h. Às 14h30, você já está reconsiderando toda a trajetória educacional dele.

A grama do vizinho sempre está mais verdinha…

Talvez exista uma síndrome ainda não catalogada oficialmente: a síndrome da escola do filho dos outros.

A escola do filho dos outros parece sempre ter alguma coisa que a nossa não tem.

Uma é bilíngue, outra faz intercâmbios, outra oferece aulas de robótica desde a Educação Infantil — o que imediatamente faz você imaginar que seu filho, aos 16 anos, estará tecnologicamente atrasado porque, aos quatro, brincava de massinha e voltava todo sujo para casa…

Tem a escola suuuuper forte, aquela que é acolhedora, aquela que, por qualquer motivo, manda advertência para os pais assinarem… Enfim, tem de tudo!

E, claro, aquela sobre a qual alguém comenta em voz baixa:
“Lá tem umas famílias muito interessantes…”

Ah, sim! Chegamos ao ponto!

Porque, em algum momento, a discussão sobre educação começa a se misturar com outra coisa.

Estamos escolhendo uma escola ou um ambiente social?

Ao meu ver, quando a escolha acontece de maneira orgânica, com propósito e valores, naturalmente encontraremos famílias interessantes para a nossa família. Simples assim!

Mas será que, em alguns casos, estão começando pelo caminho inverso?

O que importa mais: formação ou lobby?

Quando pensamos em formação, normalmente lembramos de currículo, professores, idiomas, notas e vestibular. E claro que tudo isso importa.

Mas escola também ensina coisas que não aparecem no boletim: convivência, autonomia, responsabilidade, amizade, respeito, capacidade de resolver conflitos e algo que considero fundamental: pertencimento.

E é aqui que entra uma discussão interessante sobre as chamadas escolas premium.

Não é de hoje que existem instituições associadas a prestígio, tradição e famílias influentes. E essa preocupação com o ambiente social não é uma particularidade brasileira.

Relatórios internacionais sobre educação mostram que, além da qualidade acadêmica, fatores como a reputação e o ambiente da escola também influenciam as escolhas das famílias.

Mas, em determinados círculos sociais, será que a preocupação com o networking dos filhos não está começando a ocupar um espaço grande demais nessa decisão?

Quem serão os colegas de classe? Quais famílias frequentam aquela instituição? Que portas esse ambiente poderá abrir no futuro?

Não há nada de errado em considerar essas questões. Relacionamentos fazem parte da vida.

Mas quando aceitamos pagar mensalidades cada vez mais elevadas, estamos investindo em uma experiência educacional diferenciada ou, em parte, na sensação de pertencer a determinado grupo?

Talvez um pouco dos dois.

Só acho importante que essa seja uma escolha consciente.

Porque nenhuma mensalidade, por mais impressionante que seja, deveria nos dispensar de perguntar o que realmente acontece dentro dos muros da escola.

Talvez, enquanto estamos comparando laboratórios, plataformas digitais, viagens internacionais e a lista de convidados da próxima festa de aniversário, exista uma pergunta muito mais simples: Meu filho se sente bem nesse lugar? Ele vai feliz para a escola?

É claro que filho em idade escolar precisa ser desafiado, estudar o que não gosta, lidar com professores exigentes, receber um “não”, tirar nota ruim eventualmente e descobrir que o mundo não reorganizará a agenda porque ele tem prova de matemática.

Mas sentir-se seguro, respeitado e parte de um grupo não é um mimo. É parte do aprendizado e é uma conquista. Afinal, a escola não é um resort de lazer.

Você sabia que existe um fenômeno bastante conhecido na psicologia chamado comparação social?
Em resumo, utilizamos outras pessoas como referência para avaliar nossas próprias escolhas. Ou melhor, traduzindo em miúdos para a maternidade moderna:
Uma mãe escreve no grupo de WhatsApp:
“Meninas, estamos pensando em mudar para a escola Y.”
Daqui a pouco começa a enxurrada:
“Minha prima ama.”
“Dizem que o inglês é maravilhoso.”
“Minha amiga tirou o filho porque achou fraca.”
“Mas para o Ensino Médio dizem que é excelente.”
Blá-blá-blá…
E, de repente, você sente aquela pulguinha atrás da orelha:
“Será que devo agendar uma visita?”

Talvez isso aconteça porque escolher a educação de um filho carrega um peso enorme. Eu sei bem!

Temos medo de descobrir, no futuro, que poderíamos ter oferecido algo melhor.

E mãe conhece bem aquela frase perigosa:
“E se…?”
E se outra escola preparar melhor?
E se os amigos de lá fossem abrir mais portas?
E se eu estiver acomodada?

O problema é que esse jogo não tem fim.

Sempre haverá uma escola com alguma coisa que a sua não oferece.

Talvez a pergunta certa não seja:
“Qual é a melhor escola?”

Até porque muito provavelmente essa escola não existe.

A pergunta mais útil talvez seja:
“Qual é a melhor escola para o meu filho, neste momento da vida dele e da nossa família?”

Uma escola extremamente competitiva pode ser maravilhosa para uma criança e angustiante para outra. Uma escola enorme pode oferecer centenas de oportunidades e fazer determinado aluno se sentir invisível. Enfim, vamos sempre pesar os prós e os contras.

Por isso, antes de entrar novamente no Google e pesquisar “melhores escolas da minha cidade”, talvez possamos fazer um pequeno check-up:

Meu filho está aprendendo? Está evoluindo? Tem amigos? É conhecido pelos professores? Sente-se seguro? Está desenvolvendo autonomia? Os valores da escola conversam com os nossos?
Ele consegue ser quem ele é naquele ambiente?

Se a resposta para a maioria dessas perguntas for “sim”, talvez não exista um problema.

Talvez exista apenas aquela inquietação muito familiar de quem quer fazer a melhor escolha possível para os filhos.

E o lobby?
Não sou ingênua. Relacionamentos importam.

Conviver com pessoas diferentes, construir amizades e desenvolver uma boa rede de relações também fazem parte da vida.

Mas existe uma diferença importante entre rede de relacionamentos e status.

Eu quero que meus filhos conheçam pessoas interessantes.

Só espero que aprendam a reconhecer pessoas interessantes pelo caráter, pelas ideias, pela generosidade e pela maneira como tratam os outros. Não apenas pelo sobrenome ou pelo cargo dos pais.

Não quero escolher a educação deles pensando primeiro em quem estará sentado na carteira ao lado e depois no que acontecerá dentro da sala de aula.

Porque contatos podem, sim, abrir algumas portas…

Mas a formação é o que permite permanecer lá dentro depois que a porta se abre.

  • Lu Salles Hora

    Pedagoga, fonoaudióloga, especialista em educação bilíngue, alfabetização e relações interpessoais. Mãe da Laura e do Lucas, esposa do Rafael. Com experiência de + de 20 anos em chão de sala e orientação parental, é apaixonada pela arte de educar e acredita que crescemos à medida que nos relacionamos uns com os outros. Para Luciana, todos somos educadores, basta dar bons exemplos e agir com coração e razão alinhados.

Data da postagem: 28 de setembro de 2026

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