Talvez você não precise pedir demissão


Anna Moreno Damico
por: Anna Moreno Damico
Mentora de carreiras e especialista em crescimento profissional, esposa e mãe de cinco

Tem uma fase da vida de muitas mães que trabalham fora em que alguma coisa simplesmente começa a não caber mais. O trabalho pesa mais. A agenda vira um Tetris impossível. A culpa aparece dos dois lados. Você está com os filhos pensando no trabalho e no trabalho pensando nos filhos. A carreira que você construiu com tanto orgulho começa a parecer incompatível com a vida que você tem hoje.

E aí vem a conclusão quase automática: preciso mudar de emprego.

Ou trabalhar menos. Empreender. Pedir demissão. Procurar alguma coisa mais flexível. Dar um tempo na carreira.

Talvez. Mas antes de tomar uma decisão grande, eu faria uma pergunta bem menos confortável: o que exatamente deixou de funcionar? Porque nós, mulheres que passamos muitos anos construindo carreira, ficamos muito boas em resolver problemas.

Tem um problema? A gente faz um plano.

A agenda não funciona? Reorganiza.

O chefe não reconhece? Procura outro.

A empresa não oferece flexibilidade? Busca uma que ofereça.

A rotina está insustentável? Corta alguma coisa.

Resolver, executar, seguir.

Só que maternidade tem uma habilidade especial para bagunçar equações que funcionaram perfeitamente durante anos. E talvez o problema não seja exatamente o seu trabalho. Talvez você esteja tentando continuar trabalhando do mesmo jeito que trabalhava antes de ter filhos. Com a mesma disponibilidade, a mesma régua, a mesma necessidade de dar conta de tudo, o mesmo medo de dizer não, a mesma definição de sucesso.

Só que agora existe uma criança (ou duas, três, no meu caso cinco!) do outro lado dessa equação. Eu tive cinco filhos, cinco licenças-maternidade, mudei de país três vezes e trabalhei praticamente sem pausa por 20 anos. E uma coisa que aprendi é que maternidade não necessariamente diminui a nossa ambição. 

Às vezes ela só nos obriga a perguntar: quanto estou disposta a pagar por ela?

Essa pergunta é completamente diferente de “quero ou não quero crescer?”

Você pode continuar querendo a promoção. Pode querer ganhar mais, liderar, empreender, construir uma carreira enorme. E também pode não querer mais participar de reunião às 18h30 só para provar seu comprometimento.

As duas coisas podem coexistir. Por isso, antes de transformar um incômodo em uma grande mudança de carreira, vale fazer um diagnóstico um pouco mais honesto.

  • Eu quero trabalhar menos ou quero trabalhar diferente?
  • Estou cansada desta empresa ou estou simplesmente cansada?
  • O problema é minha função ou a maneira como eu aprendi a exercê-la?
  • Eu realmente quero menos ambição ou quero continuar ambiciosa sem pagar o mesmo preço de antes?
  • O que deixou de funcionar depois da maternidade: meu trabalho, minha estrutura ou minha régua?
  • Se eu mudar de empresa amanhã, qual parte deste problema vai comigo?

Porque tem coisa que a gente troca junto com o crachá, e tem coisa que não. A incapacidade de colocar limite vai para a próxima empresa. O hábito de aceitar tudo vai. A necessidade de provar o tempo inteiro que você merece estar naquela cadeira vai. A culpa de sair às 17h vai. A crença de que uma profissional excelente precisa estar sempre disponível vai.

Se você não mexer nisso, pode encontrar a empresa dos sonhos, com trabalho híbrido, chefe maravilhoso e horário flexível e, seis meses depois, estar respondendo mensagem às dez da noite.

Agora, sejamos justas: às vezes é o emprego mesmo.

Tem empresa incompatível com maternidade. Tem chefe que acha flexibilidade sinônimo de falta de comprometimento.

Tem ambiente que exige uma disponibilidade que você não quer ou simplesmente não pode mais oferecer. Tem carreira que deixa de fazer sentido. E tem momentos em que sair é exatamente a decisão certa.

Não estou defendendo ficar. Também não estou defendendo sair. Estou defendendo diagnosticar antes de decidir.

Porque especialmente depois da maternidade, é muito fácil olhar para uma vida que ficou pesada e concluir que a carreira é o problema, quando talvez o que precise mudar seja a configuração.

E talvez, depois de olhar para tudo isso, você ainda conclua: “É. Preciso sair.”

Ótimo. Mas agora você não está fugindo de uma vida que ficou insustentável. Está escolhendo conscientemente a próxima.

Depois de 20 anos de carreira, eu mesma decidi parar. Parei porque a configuração que tinha funcionado durante muitos anos deixou de ser a configuração que eu queria para aquela fase da minha vida. E isso também pode mudar de novo. Acho libertador entender isso. Você não precisa decidir hoje qual mulher profissional será pelo resto da vida. Precisa construir uma carreira que caiba na vida que você tem agora, sem esquecer da vida que ainda quer construir.

A maternidade muda muita coisa. Mas nem toda crise de configuração precisa virar uma crise de carreira.

  • Anna Moreno Damico

    Executiva de Marketing e Recrutamento com 20 anos de carreira corporativa em multinacionais. Já trabalhou em São Paulo, Nova York e, atualmente, mora em Boston com seu marido e cinco filhos, onde lidera um time internacional. Dedicada a formar a próxima geração de líderes, Anna também é mentora de carreiras e especialista em crescimento profissional, oferecendo curadoria de conteúdo sobre liderança e mercado de trabalho, além de orientação, cursos e aulas exclusivas. Com mais de dois mil alunos e centenas de horas em palestras e treinamentos no último ano, Anna acredita em liderança pelo exemplo e na construção de relacionamentos verdadeiros para viver a máxima de suas duas frases preferidas: “Feito é melhor que perfeito”, e “Se não eu, quem?”

Data da postagem: 5 de outubro de 2026

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