O que a internet mostra — e o seu filho ainda não sabe ver


Lúcia Paschinelli
por: Lúcia Paschinelli
Psicóloga clínica especialista em relações familiares, adolescência e vínculos afetivos e mãe do Leonardo.

Ele ou ela está no quarto.
Porta fechada.
Silêncio.
E você já conversou sobre internet.
Já falou sobre perigos, sobre exposição, sobre pessoas estranhas, sobre bullying.
Você orientou.
Então, acredita:
está em segurança.
Mas existe algo ali dentro que não entra nessas conversas.
Algo silencioso.
Acessível.
E profundamente impactante.

A pornografia.

E, muitas vezes, ela nem é vista como ameaça.
Porque vem um pensamento quase automático:
“Mas isso sempre existiu…”
“Eu tive acesso…”
“E não aconteceu nada.”
Mas será mesmo?
Ou será que algumas marcas são mais sutis…
e, por isso, passam despercebidas?
A pornografia não entra na vida do adolescente como informação.
Ela entra como experiência.
Uma experiência para a qual ele ainda não tem estrutura psíquica.
Porque ele vê…
mas não sabe elaborar.
E o que ele vê?
Cenas intensas.
Sem construção.
Sem contexto.
Relações sem vínculo.
E aqui está o ponto mais delicado:
ele não questiona.
Não diferencia atuação de realidade.
Não percebe roteiro.
Ele simplesmente acredita.
E aprende que sexo é:

  • intensidade extrema
  • performance
  • excesso
  • rapidez
  • pouca conexão
    E, aos poucos, o sentir vai sendo substituído por expectativa.

  • E talvez aqui entre uma pergunta desconfortável
    mas necessária:
    Você tem certeza de que a forma como você aprendeu sobre sexualidade foi saudável?
    Ou você também, em algum nível, carrega expectativas irreais…
    sobre corpo, desempenho, prazer?
    Porque o impacto da pornografia nem sempre aparece como algo evidente.
    Às vezes, ele aparece como:
    dificuldade de presença,
    ansiedade no encontro,
    necessidade de corresponder,
    ou incapacidade de realmente se conectar.
    Agora imagine isso acontecendo em um adolescente.
    Alguém que ainda está construindo:
    o corpo,
    o desejo,
    a identidade,
    a forma de se relacionar.
    A pornografia não ensina.
    Ela invade.
    E invade um psiquismo em formação.
    Por isso, ignorar não protege.
    Silenciar não protege.
    O acesso já existe.
    O celular está na mão.
    Mas como falar sobre isso?
    Com clareza.
    Sem rodeio.
    A partir dos 12 anos, seu filho já pode entender:
    Que pornografia é a transformação do sexo em produto.
    Em algo feito para vender e não para representar a realidade.
    Você pode dizer:
    “Se alguém quiser te mostrar, não queira ver.
    Isso pode te impactar de um jeito que você ainda não está preparado.”
    E, se a curiosidade aparecer:
    “Isso é como um filme.
    Você vê o Super-Homem voando… mas ele voa na vida real?
    Não.
    Ali também não é real.
    É feito para parecer e não ser”
    E se ele já viu?
    Não é hora de brigar.
    É hora de sustentar.
    Se for criança:
    “Você viu algo que não era para a sua idade.
    Isso pode confundir.
    Vamos deixar isso ir, você não precisa “guardar” isso.”
    Se for adolescente:
    “O que você sentiu quando viu isso?”
    Sem julgamento.
    Depois, você organiza:
    “Isso não representa a vida real.
    Aquilo é feito para impactar, e gerar lucro, não para ensinar.”
    E ajuda a colocar no lugar:
    “Nem tudo que existe precisa ser visto, cada coisa tem seu tempo.”
    Porque sozinho, ele vai:
  • aprender com a internet
  • aprender com distorções
  • aprender sem referência emocional
    Ahhh agora você pode pensar, que:
    Falar incentiva, mas não
    Falar organiza.
    Se você não falar, alguém vai.
    E esse alguém não está comprometido com o desenvolvimento do seu filho.
    A questão não é impedir.
    É não deixar sozinho.
    Com presença, informação e coragem…
    você muda esse caminho.
    E é isso o que protege.
  • Lúcia Paschinelli

    Psicóloga clínica na abordagem Analítica Junguiana, com mais de 23 anos de experiência, Lúcia é especialista em relações familiares, casais em reconexão, desenvolvimento emocional e orientação parental para a adolescência. Atua em momentos de transição e crise, facilitando a reconstrução de vínculos e o encontro com novas formas de convivência. Palestrante, mentora de mães e autora de conteúdos que unem ciência, escuta profunda e alma, Lúcia também é fundadora de uma ONG de proteção animal e mãe do Leonardo. Compartilha sua vivência real de maternidade e profissão com sensibilidade, bom humor e profundidade. Ela acredita que todo relacionamento pode ser ressignificado, desde que haja presença, coragem e escuta verdadeira. “O vínculo salva.”

Data da postagem: 31 de março de 2026

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