Você quer mesmo o que diz querer?


Fernanda Girassol
por: Fernanda Girassol
Psicóloga, cantora e compositora. Mãe da Malu e do Raul.

Participei de uma imersão motivada a encontrar o meu ponto cego do dinheiro. Iniciei buscando entender como fazia para aumentar meus ganhos financeiros com meu trabalho, até me deparar com a pergunta:

Por que você reclama de não ter os resultados que nem quer?

Confesso que ela ficou ecoando dentro de mim, até eu finalmente compreender que aquilo que eu achava que queria era, em parte, um desejo fabricado pela nossa sociedade. Nem meu ele era.

A verdade que descobri é que nem quero tanto assim o que digo que quero. E, para entender isso, precisei olhar para trás.

Há alguns anos, bati todas as metas que havia estipulado para minha carreira: agenda de pacientes cheia, palestras e treinamentos em diversas escolas.

Uma parte de mim queria ocupar aquele lugar. E eu realmente me sentia muito feliz contribuindo com tantas pessoas.

Mas, justamente quando alcancei o que tanto havia buscado, tive uma crise existencial e uma sensação de vazio muito grande.

Outra parte de mim queria estar mais presente para a minha família. E para a arte que me habita.

Meus filhos eram menores. Às vezes eu recebia, no escritório, fotos deles brincando na praça com meu esposo enquanto eu trabalhava até tarde.

Eu olhava aquelas fotos e queria estar lá com eles.

Existia uma dualidade enorme dentro de mim.

Até que a empresa que eu tinha na época acabou.

Perdi algo que socialmente era muito importante, mas ganhei tempo.

Tanto tempo que eu nem sabia como preencher.

Eu me sentia quase como uma criminosa, sabe? Enquanto todos estavam correndo — e eu ainda morava em São Paulo naquela época —, eu tinha tempo para meditar, ler, tocar violão, e até tirar um cochilo à tarde!

E, em vez de simplesmente aproveitar, no começo sentia muita culpa e até vergonha por estar produzindo menos. 

Hoje percebo o quanto eu ainda estava vestida com aquilo que, anos depois, chamaria em uma música de “armadura de guerreira”.

“…Eu não queria mais canseira
Abandonei a armadura de guerreira
Eu não preciso mais lutar
Sou leve e tenho tempo pra sonhar…”

Foi justamente nessa época que, em uma viagem com a família, vislumbramos para nós a possibilidade de nos mudarmos para o litoral.

Um ano depois, estávamos em uma nova cidade, morando pertinho do mar, como eu sempre sonhei, mas nem ousava imaginar que um dia pudesse se tornar real.

É como sempre digo aos meus pacientes: “Por trás dos nossos maiores desafios estão também nossas maiores dádivas.”

E foi vivendo tudo isso que escrevi, alguns anos depois:

“Eu não queria correria
Eu só queria uma vidinha mais tranquila
Eu não sabia o que fazer
Fui programada a vida inteira para correr…”

Você já se sentiu assim?

Muitas vezes, nós, mulheres, achamos que queremos ocupar certos espaços, alcançar determinadas posições, crescer cada vez mais. E não há nada de errado em querer isso.

Mas será que queremos mesmo? E a que preço?

Ou será que, algumas vezes, é nosso ego que quer?

O ego pode ser sedento por aplausos, reconhecimento e validação externa. O que pode nos levar à busca por espaços e profissões socialmente valorizados, mas que não necessariamente nos farão realizadas quando as conquistas chegarem.

E eis que, anos depois, aqui estava eu de novo querendo mais trabalho, mais crescimento, mais prestígio.

Até que, justamente durante aquela imersão, chegou para mim uma proposta para palestras em uma escola em São Paulo.

Algo que amo fazer.

Mas era um convite de última hora. Eu teria que preparar o material correndo, perder o fim de semana com a família, cancelar compromissos e viajar.

E foi aí que a pergunta da imersão voltou:

Por que você reclama de não ter os resultados que nem quer?

Não era que eu não quisesse mais dar palestras. Quero. Gosto desse trabalho e continuo aberta a bons convites.

Eu só não queria aquela palestra, daquele jeito, naquele momento.

Não quero mais que crescimento profissional seja sinônimo de correr para atender a qualquer oportunidade que apareça.

Nesse mesmo período, me ofereci para prestar serviço para uma empresa. Um trabalho de bastidor que me remunera até mais que a palestra. Sem glamour ou visibilidade alguma.

E eu amei!

Ele me permite fazer meus horários, trabalhar de casa ou até da praia, se quiser.

Foi quando uma verdade começou a ficar muito clara para mim:

Eu não quero mais parecer importante. Eu sou.

Para mim, para meus filhos, para meu esposo. E, por ora, isso basta.

Isso não significa que deixei de ser ambiciosa, criativa ou potente. Não deixei de amar a Psicologia, a música, as Rodas de Mulheres que facilito. 

Mas quero que essas coisas encontrem espaço na minha vida sem que eu precise abrir mão da vida para conquistá-las. É como canto:

“…E me permito paz
Pra tentar transformar

Meu corpo cansado de sofrer

Em coração destinado a viver

Uma vida boa e leve para mim…”

Talvez essa seja uma das maiores transformações que vivi.

Viver com calma.

Com alma.

De tempos em tempos, novas Fernandas surgirão e questionarão minhas escolhas de agora. Talvez elas queiram mudar tudo. E tudo bem.

A vida fica bem mais simples quando a gente finalmente entende o que quer de verdade e para de reclamar pelos resultados que nem quer.

Ufa!

E talvez seja por isso que hoje esses versos façam ainda mais sentido para mim:

“…E eu sou a paz,
E quem não é?…”

Se alguma parte desta história ecoou aí, te convido a conhecer “Sou a Paz”, de Fernanda Girassol. Talvez você se reconheça em outros versos também.

A música está disponível nas principais plataformas de música.

Fernanda Costa Larcher Girassol

  • Fernanda Girassol

    Psicóloga, cantora e compositora, pós-graduada em Psicologia Junguiana, com formações em Educação Parental, Eneagrama, Psicobiofísica, Teoria dos Esquemas e Cura da Criança Interior. Casada com Wil e mãe da Malu e do Raul. Integra Psicologia, música, natureza e espiritualidade em um caminho de retorno à essência. Já conduziu palestras e formações que impactaram milhares de pessoas. Hoje atua como psicóloga clínica e conduz Rodas de Mulheres em Ubatuba. Autora de três livros. Suas canções autorais estão disponíveis nas principais plataformas. @fernanda.girassol

Data da postagem: 5 de outubro de 2026

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