O que eu gostaria que as pessoas soubessem sobre ser mãe atípica


Mariana Sotero Bonnás
por: Mariana Sotero Bonnás
Psicóloga, pedagoga e mãe do Vítor e da Mariah. Idealizadora da Psicologia da Maternidade Atípica, fundadora do InPMA e autora do livro Mães Atípicas: a maternidade que ninguém vê.

Se eu pudesse pedir apenas uma coisa a quem convive com uma mãe atípica, não pediria que soubesse tudo sobre o diagnóstico do filho dela ou que tivesse sempre as palavras certas para dizer. Eu pediria que olhasse para ela com mais compreensão antes de tirar conclusões sobre suas escolhas, seus afastamentos ou sobre a maneira como passou a viver depois que a maternidade trouxe desafios que provavelmente nunca imaginou enfrentar.

Nem toda mãe atípica está precisando de conselhos. Muitas já ouviram dezenas deles e sabem muito bem o que deveriam fazer para descansar, cuidar de si ou dividir melhor as responsabilidades. O problema é que saber o que seria bom para si mesma não significa necessariamente conseguir colocar isso em prática. Existem períodos em que as demandas da família ocupam tanto espaço que até aquilo que parece simples se torna difícil de realizar.

Também é importante entender que, quando ela recusa convites, demora para responder mensagens ou se afasta um pouco, isso nem sempre tem relação com a vontade que sente de estar com as pessoas. Muitas mães acabam restringindo a própria vida social porque estão cansadas de explicar o comportamento do filho, lidar com julgamentos ou frequentar lugares onde sentem que sua família não é verdadeiramente acolhida. Aos poucos, algumas relações acabam ficando mais distantes, não porque deixaram de ser importantes, mas porque manter determinadas relações passa a exigir uma energia que ela nem sempre tem.

Eu gostaria também que as pessoas lembrassem que uma mãe atípica não quer falar sobre o diagnóstico do filho o tempo inteiro. Ela pode estar profundamente envolvida com os cuidados da criança e, ainda assim, continuar querendo conversar sobre trabalho, livros, viagens, amizades, sonhos e tantas outras coisas que fazem parte de quem ela é. Antes de ser mãe, ela já era uma mulher com uma história, interesses e projetos, e tudo isso continua existindo, mesmo que muitas vezes fique escondido atrás das demandas da maternidade.

Existe uma tendência de enxergar essas mulheres principalmente pela força que demonstram, mas ser forte não significa não precisar de cuidado. Uma mãe pode ser capaz de lidar diariamente com situações muito difíceis e, ao mesmo tempo, estar cansada, insegura, frustrada ou simplesmente precisar de alguém que esteja ao seu lado sem tentar encontrar uma solução para tudo.

E, para as próprias mães atípicas, eu gostaria de lembrar que a maternidade não apagou quem vocês são para além da maternidade. A vida pode ter mudado profundamente e algumas coisas talvez precisem ser reconstruídas de outra maneira, mas continuam existindo desejos, talentos, sonhos e necessidades que também merecem espaço.

Uma mãe atípica não pode ser vista apenas pelo que enfrenta ou pela força que demonstra. Ela precisa continuar sendo reconhecida como uma mulher inteira, inclusive nos dias em que está cansada, quando não sabe o que fazer ou quando simplesmente gostaria de viver algumas horas sem precisar pensar em tudo.

É isso que eu gostaria que as pessoas soubessem: antes de enxergar apenas a mãe de uma criança atípica, enxerguem a mulher que existe ali. Ela continua tendo uma vida, uma história e uma identidade que vão muito além da maternidade.

  • Mariana Sotero Bonnás

    Mãe do Vítor e da Mariah, psicóloga, pedagoga, escritora e palestrante, com 18 anos de experiência no trabalho com famílias atípicas. É idealizadora da Psicologia da Maternidade Atípica e fundadora do InPMA, Instituto de Psicologia da Maternidade Atípica, criado para ampliar o conhecimento e qualificar o cuidado psicológico às mães atípicas. É autora do livro Mães Atípicas: a maternidade que ninguém vê, idealizadora e professora da Capacitação em Psicologia da Maternidade Atípica e criadora do Método AMA. Também atua como Diretora do Núcleo de Acolhimento da Associação Brasileira da Síndrome de Prader-Willi. Sua atuação une experiência clínica, formação profissional, produção de conhecimento e comunicação, com o propósito de transformar a forma como as mães atípicas são compreendidas, acolhidas e cuidadas. É graduada em Psicologia pela PUCPR e em Pedagogia pela FAM, com especializações em Terapia Cognitivo-Comportamental pela USP, Psicologia e Autismo pela UNIARA e Educação Especial e Inclusiva pela Faculdade de Educação São Luís.

Data da postagem: 19 de outubro de 2026

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