O papel da doula no trabalho de parto e no pós-parto


Redação It Mãe
por: Redação It Mãe
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por Giovanna Frugis

Engravidar é um momento mágico – não no sentido romantizado da coisa, em que carregar outra pessoa dentro de você e conviver com pés inchados por nove meses é considerado lindo. Engravidar é mágico porque, literalmente, transporta você para um mundo muito diferente do que você estava acostumada a viver até então. 

Fotógrafa Kátia Ribeiro


Vitaminas da gestação? Check. Muita água? Check. Repelente específico para gestantes (que custa um rim, mas dengue não pode rolar de jeito nenhum)? Check. Protetor para evitar o melasma. Caminhadas matinais. Fotos dos ultrassons para a família toda ver… 

Engravidar muda a sua vida mesmo! E conforme os meses passam e o parto se aproxima, as preocupações se fundem em apenas uma: “quero que meu filho nasça da melhor maneira possível”. Ao menos comigo, a jornalista que vos escreve, foi exatamente assim. Durante a gravidez, eu sonhava com um parto que respeitasse o tempo do meu filho de querer vir ao mundo e que mostrasse a mim mesma a grandiosidade da força da mulher. Afinal, fisiologicamente falando, somos preparadas para gerar e parir. 

Mas, não é bem assim que acontece.

Documentos oficiais não mentem: o Brasil é um dos líderes em números de cesáreas por ano no MUNDO. E isso acontece mesmo com a OMS recomendando que apenas de 10 a 15% dos partos sejam cesarianas, que devem acontecer apenas quando o parto normal não for de fato indicado. 

Então, como exigir o protagonismo da mulher no trabalho de parto? Como usar a própria voz para fazer com que escutem “eu estou bem e quero parir”? 

Tenha uma doula. 

Porque engravidar é mágico, sim. Mas, parir é insano. Toda mulher que quer ser mãe merece parir da maneira que ela quiser e for possível. E ter uma doula ao seu lado nesse momento traz aquele calorzinho que seu coração precisa para saber que você está bem amparada e que, sim, você está vivendo o parto que pode e merece viver. 

Fotógrafa Kátia Ribeiro


Abaixo, você confere o bate-papo que eu tive com a doula Mariana Noronha, que explica com mais detalhes o papel da profissional durante o parto e pós-parto, além da realidade da profissão no Brasil.

Além disso, reuni depoimentos de mulheres que tiveram seus partos (e maternidades) mudados para melhor graças a uma doula. Spoiler: tem relato de parto domiciliar, de parto natural, de parto normal com anestesia e de cesárea. Vale a pena ler!

“Uma doula pode e deve atuar em qualquer tipo de parto. Afinal, o objetivo da doula é trazer bem-estar, e isso sempre é necessário.”
– Mariana Noronha, doula

  1. Qual o papel da doula no trabalho de parto?
    MARI: Talvez seja legal começar dizendo qual NÃO é o papel da doula no TP: realizar qualquer procedimento técnico, como exames de qualquer natureza, tanto na mãe quanto no bebê, prescrição de qualquer remédio, decisões em relação à saúde de mãe e filho etc.

    A doula, porém, tem preparo para fornecer informações de qualidade, embasadas nas evidências científicas mais recentes, para que a mulher tome decisões conscientes para sua gestação e parto.

    No TP em si, os papéis mais importantes da doula geralmente são o de ajudar a gestante a manter a calma e o de aplicar técnicas diversas (ou seja, não-medicamentosas) de alívio da dor, como massagens, exercícios especiais para cada necessidade, aromaterapia e cromoterapia, entre outras possibilidades.

    Outra função muito importante é facilitar a comunicação entre equipe técnica e o casal, já que culturalmente costuma haver uma distância entre os dois universos.





  2. Uma doula pode atuar em qualquer tipo de parto?
    MARI: Uma doula pode e deve atuar em qualquer tipo de parto. Afinal, o objetivo da doula é trazer bem-estar, e isso sempre é necessário. Inclusive, cesarianas costumam causar enorme ansiedade nas mulheres, principalmente nas que não desejavam a cirurgia. Com isso, as dúvidas e angústias costumam ser maiores ainda.

  3. Quanto tempo antes da DPP (Data Provável de Parto) a gestante deve contratar sua doula?
    MARI: Uma mulher pode contratar uma doula a qualquer momento da sua gestação – inclusive ao entrar em trabalho de parto! Mas, no cenário ideal, quanto mais cedo a doula entrar na vida dessa mulher, mais útil ela poderá ser e mais conectadas as duas estarão. Resumindo, nunca é cedo demais e nunca é tarde demais para se ter o apoio de uma doula.

  4. Na sua visão e vivência, doular é uma profissão bem vista no Brasil?
    MARI: Doular é uma profissão muito mal vista por muita gente no Brasil e o desconhecimento sobre o real papel da doula é gigantesco. A maioria das pessoas acha que a doula faz procedimentos de parteira, ou até que acompanha partos sozinha.

    Muitos médicos acham que somos inimigas, que estamos lá para expôr seus erros e “defender” as mulheres contra eles. Absolutamente nada disso é real. A doulagem e a enfermagem ou a medicina são áreas diferentes e, ao meu ver, complementares.

    Mas, enquanto não houverem doulas falando dos seus trabalhos para médicos ouvirem, eles não compreenderão. E enquanto as pacientes só souberem o que é uma doula através da visão de seus médicos, vamos mesmo parecer, muitas vezes, inúteis (ou malucas, rs). Vale dizer que não são todos os médicos que pensam assim! Trabalho com grandes profissionais que são conscientes da real parceria que exercemos.

  5. A doula exerce alguma função pós-parto?
    MARI: A doula pode ter uma grande função pós-parto e existem, inclusive, doulas especializadas nisso: ajuda prática com amamentação (paras doulas que também tem formação nessa área),  cuidados mais simples com o bebê como banho ou troca de fralda, cuidados com o umbigo e, principalmente, apoio emocional.

    O puerpério é um desafio emocional milhões de vezes maior e mais longo do que o parto. Por isso, é válido e importante ter alguém que olhe pra essa mulher nesse período – e essa pessoa pode ser a doula!

  6. Gostaria de acrescentar mais algum comentário?
    MARI: O parto violento do meu filho e o parto maravilhoso da minha filha transformaram minha vida. Então, eu senti que precisava ajudar outras mulheres a serem felizes nesses momentos tão importantes da vida delas!

    Se você puder ter uma doula, independente do parto que escolher, tenha. Você merece. Seu médico e sua enfermeira estão ali pra manter você e seu bebê vivos e saudáveis. Sua doula estará lá pra te manter confortável e feliz! Sua doula vai te ajudar a construir uma memória gostosa do dia da chegada do seu filho!



Fotógrafa Kátia Ribeiro

“Em diversos momentos, ela chegou a me segurar em seus braços pra me ajudar.”
– Mônica Heringer, 32 anos, Administradora Pública.

O meu bebê  nasceu no hospital, em um parto natural (sem analgesia) na banheira. A minha doula foi essencial para isso acontecer. Ela ficou o tempo todo dando apoio emocional e físico – com massagens incríveis e outras técnicas de relaxamento. Em diversos momentos, ela chegou a me segurar em seus braços pra me ajudar, nunca vou me esquecer desses momentos!

Ela não vai tomar as decisões por você no momento do parto, não vai te pedir ou te obrigar a nada. Mas, ela vai te estender a mão, te dar um copo de água, fazer massagem… A doula te suporta, te apoia e, acima de tudo, respeita o seu protagonismo.

Além disso, eu destaco a importância da doula também para o pai! Meu marido se sentiu seguro e tranquilo em todo o momento por estarmos amparados pela nossa doula. Ela é uma pessoa que com certeza queremos ter sempre presente nas nossas vidas. Ela, além de ser uma ótima profissional, se tornou amiga.



“Embora não tenha sido do jeito que eu sonhava (um parto natural na banqueta), me senti respeitada e minha filha nasceu bem.”
– Margarida Gorecki Zanelato, jornalista e socióloga, 33 anos

Tive um parto normal, que até os 45 do segundo tempo foi como eu esperava: ambiente tranquilo, uma boa parte do tempo na minha casa, banheira, massagem, meditação e o acompanhamento da minha doula e do meu marido. Mas, na reta final e já no hospital, o coração da minha filha desacelerou por causa da anestesia e foi necessário que ela nascesse rápido, com o uso do fórceps.

Embora não tenha sido do jeito que eu sonhava (um parto natural na banqueta), me senti respeitada e minha filha nasceu bem. Além disso, não autorizei o uso do colírio de nitrato de prata nela e isso foi respeitado. O cordão umbilical só foi cortado após o nascimento da placenta, houve golden hour e o primeiro banho aconteceu só depois de 24 horas.

Durante o trabalho de parto, enquanto a equipe médica cuidava da parte técnica, garantindo que o bebê estava bem, minha doula me transmitiu uma força ancestral com seu jeito calmo e seu sotaque mineiro. Até hoje me arrepio quando lembro do medo que eu estava sentido na hora do nascimento, que foi dissipado com a doula falando “ela chegoooou”!

O meu pós-parto foi bem difícil, com depressão pós-parto e dificuldade para criar vínculos com o meu bebê. Ela me apoiou em todo esse processo, celebrando cada conquista e cada melhora. Nesse momento, ela também me apresentou outras mães de bebês pequenos. Elas formaram um círculo de apoio fundamental para o meu puerpério. Até hoje essas mulheres são minhas companheiras de maternidade, e minha doula virou uma grande amiga.



“Ela foi parte importante no processo de luto que senti por não ter tido a filha que eu imaginava.”
– Ana Paula de Oliveira Alonso, 36 anos, professora

Descobrir a Síndrome de Down com 28 semanas (7 meses) e foi muito difícil pra mim. Nunca pensei que poderia acontecer comigo. E processar essa informação foi muito pesado. Tive momentos de angústia extrema, de muita dor, raiva e tristeza.

Meu parto não foi nada como eu esperava. Porque teve que ser induzido com 37 semanas, já que minha filha estava com o crescimento restrito. Mas, o coração da Luísa começou a desacelerar muito e precisei de uma cesárea de emergência.

Dois dias antes da indução, eu tive que fazer outro procedimento no hospital: a versão cefálica externa (a bebê estava sentada e essa manobra serve para colocar ela na posição correta). Apesar de não ser obrigação dela, minha doula foi ao hospital comigo, ficou o procedimento todo ao meu lado e vibrou comigo quando deu certo.

Ela foi parte importante no processo de luto que senti por não ter tido a filha que eu imaginava. Um psicólogo disse que “para que os sentimentos bons floresçam, os maus tem que sair primeiro”. A minha doula foi fundamental para me ajudar a tirar todos os sentimentos negativos de mim e permitir que o amor tomasse conta.

Ela esteve sempre lá, me dando espaço para por pra fora tudo aquilo de ruim que eu sentia – e muitas vezes não tinha coragem de dizer para outras pessoas, por medo de ser julgada ou de ofender alguém. Ela não. Ela ouvia qualquer coisa e me acolhia.



“É ela quem luta para que as vontades da parturiente sejam respeitadas num momento em que estamos vulneráveis.”
– Marlise Valenca, 33 anos, nutricionista

Tive um parto domiciliar não planejado. Era uma quinta-feira de Halloween, horário de pico, e meu TP evoluiu muito rápido. Quando minha doula chegou, a cabecinha do neném já estava no canal e eu fazia força involuntariamente. Depois de 20 minutos, meu filho nasceu. Estava tudo bem. Mas, por protocolo de segurança (e para fazer todos os exames necessários), chamamos a ambulância e partimos pro hospital.

Sem ela, eu teria ficado apavorada em ter um neném em casa sem assistência, sem equipe médica. Ela me ajudou a ficar tranquila, a respirar fundo e entender que estava tudo bem.

Eu acredito que a doula é indispensável. Porque é ela quem luta para que as vontades da parturiente sejam respeitadas num momento em que estamos vulneráveis. Além disso, ter uma doula próxima vai muito além de um trabalho de parto. A minha doula esteve comigo não só nos meus dois partos, mas também quando perdi meu segundo bebê. Mesmo ela não tendo obrigação nenhuma, ela largou tudo num domingo e veio ficar comigo. Nunca vou esquecer disso.



“Sem ela, meu parto não teria sido metade do que foi.”
– Giovanna Frugis, 25, jornalista

Parir dói. Parir dói fisicamente e emocionalmente, porque você está vivendo uma situação completamente nova, por muitos momentos agoniante, confuso e desafiador. E ter alguém que te encoraje, que confirme que você está certa em passar por tudo aquilo, é extremamente importante.

Fiquei 28 horas em trabalho de parto, sendo umas 15 delas muito doloridas e exaustivas. Durante esse processo, muitas vezes eu olhei nos olhos da minha doula e disse “POR QUE VOCÊ CONCORDOU COM ESSA MINHA LOUCURA?” E ela, com aquele semblante calmo e seguro, dizia “te respondo daqui a pouco”.

Quando meu filho nasceu de um lindo parto normal hospitalar (que teve direito a banheira, massagem, bola de pilates, musicoterapia e todas as “bruxarias”-não-medicamentosas-deliciosas que você imaginar), e aquele misto de alívio, felicidade e amor invadiu meu corpo, ela disse “Kauê chegou! Viu como tudo valeu a pena?”

E valeu mesmo. E eu sei que quem pariu fui eu. Meu corpo foi o protagonista. Mas, sem a minha doula, eu não teria tido massagens incríveis, água de coco na banheira, exercícios de spinning baby em plenas contrações e até puxões de orelha no estilo “não surta que já vai passar” quando necessário. Sem ela, meu parto não teria sido metade do que foi, e as lembranças incríveis que eu tenho daquele 9 de novembro não seriam tão especiais.

Feliz Dia da Doula para todas as mulheres incríveis que dedicam suas vidas para mostrar a outras mulheres o tamanho da força que elas têm. Em especial, um Feliz Dia da Doula à Mari, minha doula, que esteve presente no dia mais importante da vida da minha família.

  • Redação It Mãe

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Data da postagem: 18 de dezembro de 2019

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