Minha filha está com corrimento. É normal?


Dra. Patrícia Gonçalves
por: Dra. Patrícia Gonçalves
Médica obstetra e ginecologista, professora assistente em Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP e do Centro Universitário São Camilo

De repente a mãe nota uma mancha amarelada e com mau odor na calcinha da filha. Corrimento? Mas ela é tão pequena? Apesar de causar espanto, o corrimento em crianças é muito mais comum do que se pensa, sendo a principal queixa ginecológica durante a infância.

O problema costuma acometer principalmente meninas com idade entre 3 e 8 anos de idade. O surgimento de corrimento nesta faixa etária pode estar relacionado à higienização incorreta da região íntima (deve-se passar o papel sempre no sentido da região vaginal para o ânus, ou seja, da frente para trás!) após urinar ou evacuar. Não lavar as mãos antes e após ir ao banheiro também pode favorecer o surgimento do problema. 

Outro fator que acaba facilitando a contaminação e, consequentemente, o surgimento do corrimento, é a própria anatomia genital da menina, que ainda não possui os grandes lábios totalmente desenvolvidos, nem a proteção dos pelos pubianos; o que permite que que essa região fique mais exposta e vulnerável. Além disso, a região do períneo, durante a infância, tem a pele mais delicada e sensível, ficando mais exposta a atritos.

Baixa imunidade, crises alérgicas, alterações no trato intestinal, como constipação intestinal (fezes paradas são meio de cultura para bactérias, que podem migrar do intestino para a vagina através dos vasos linfáticos) ou diarreia frequente (que também aumenta o transito intestinal de bactérias pelos vasos linfáticos), e segurar o xixi por longos períodos são outros fatores que podem favorecer o surgimento do corrimento.

Mas nem todo o corrimento está relacionado à contaminação. Existe também a secreção fisiológica que pode surgir em momentos específicos, como na bebê recém-nascida, por ainda receber o estímulo dos hormônios maternos, e na menina que logo terá a menarca (primeira menstruação).

Vulvovaginite e vulvite

A vulvovaginite (inflamação da vulva e da vagina) pode ser a causa para o surgimento de corrimento na menina. A inflamação ocorre quando há um desequilíbrio na flora vaginal. A higiene inadequada e a própria anatomia íntima da menina (com a vagina próxima ao ânus, e ainda vulnerável por não ter os grandes lábios ainda totalmente formados, nem pelos pubianos) podem favorecer o surgimento do problema.

A menina também pode apresentar uma vulvite (inflamação da vulva), causada por micro-organismos ou por reação alérgica local. Neste caso não haverá corrimento. Mas haverá vermelhidão, prurido e incômodo ao fazer xixi.

Minha filha está com corrimento, o que fazer?

Caso a criança apresente corrimento amarelo leitoso, com odor forte, acompanhado ou não por prurido (coceira) na região genital, o ginecologista (ou pediatra) deve ser consultado imediatamente.

Para o correto diagnóstico – e tratamento – pode ser necessária a coleta da secreção vaginal para a cultura de bactérias. Vale ressaltar que a coleta de secreção é feita com cotonete, sendo indolor, e também não causa nenhuma alteração no hímen. Podem, ainda, ser solicitados exames de urina e de fezes.

Na maioria das vezes, apenas mudanças de hábitos e higiene são suficientes para que o corrimento cesse. Em outros casos poderão ser prescritos banhos de assento, antifúngicos e antibióticos de uso tópico e/ou oral.

Prevenção

No dia a dia, alguns cuidados simples ajudam a evitar o corrimento em crianças:

·       Oriente a menina a fazer a higiene da região íntima corretamente, isto é, sempre da frente para trás (independentemente de ela ter feito xixi ou cocô). Se possível, lave a região íntima da menina quando ela fizer o “número 2”.

·       Evite o uso de roupas de tecidos sintéticos ou muito apertadas pela criança.

·       Opte por calcinhas de algodão e troque-a, no mínimo, duas vezes ao dia. Caso a menina ainda use fraldas, realize a higienização íntima da criança e as trocas de fralda com frequência. 

·       Não permita que a criança fique com maiô ou biquíni molhados.

·       Depois de brincar com areia, seja no parquinho ou na praia, faça a higiene íntima da criança.

·       Para higienização da região íntima da menina, utilize sabonete glicerinado de pH neutro (próprios para criança).

·       Caso a menina já tome banho sozinha, observe depois se ela fez a higiene íntima corretamente, isto é, se ela removeu toda a secreção que se acumula entre grandes e pequenos lábios vulvares, e que podem causar mau odor, prurido e corrimentos.

·       Mantenha as unhas da menina sempre limpas e cortadas bem curtas.

  • Dra. Patrícia Gonçalves

    Médica obstetra e ginecologista, mestre em Obstetrícia e Ginecologia pela USP e professora assistente em Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP e do Centro Universitário São Camilo. Realizou seu maior sonho ao se tornar mãe da Rafaella, que agora também segue seu dom para medicina, preparando-se para se tornar pediatra.

Data da postagem: 1 de janeiro de 2020

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